Cartas do Mundo

Carta de Barcelona: Como a grande riqueza de uma minoria limita a liberdade do resto

 

31/07/2018 12:24

 

 Na Catalunha estão acontecendo muitas coisas. Algumas são muito conhecidas como, por exemplo, as grandes mobilizações pelo direito à autodeterminação. Outras não tanto. E ainda há casos pitorescos, e aqui vai um exemplo.

Nosso amigo Jordi é um homem encantador, que trabalha muito. Em seu aniversário, ele necessitava de um descanso. Com sua companheira, decidiram passar um fim de semana em seu balneário preferido, Sant Martí d’Empúries. Mas não foi possível... O problema dos belos lugares é que os multimilionários podem decidir invadi-los para seu uso exclusivo, restringi-los ao público em geral – por “motivos de segurança” –, além de proibir imprensa e fazer tudo em segredo. O irmão pequeno de Elon Musk, Kimbala, decidiu se casar com uma “ativista ambiental”, Christiana Wyly, nas ruínas de Sant Martí d’Empúries, justamente quando Jordi queria ter suas pequenas férias. Os convidados, dizem, incluíam os Obama, Will Smith e Salma Hayek.

Como é possível que uns ricos possam “fechar” um povoado ou lugar público na Catalunha? O prefeito (socialista, sic) do município em questão não quis comentar o caso. O conselho responsável pelo tema na Generalitat da Catalunha usou a alegação tradicional: “motivos de segurança”. Para a imprensa, parece mais interessante a comida ecológica que as celebridades presentes devoraram.

Os ricos estão crescendo no mundo desde a crise que se iniciou em 2007. A consultora francesa Capgemini editou seu informe anual que detalha essa informação. Traduzindo em números concretos: no Reino da Espanha, os ricos cresceram proporcionalmente mais que no resto da Europa e no mundo. Estamos falando de 560 bilhões de euros acumulados por cerca de 224 mil pessoas. Embora as diferenças entre as fortunas desses ricaços são logicamente muito grandes, a quantidade média é de 2,5 milhões de euros por pessoa. Algo nada desprezível. Segundo os dados relacionados ao imposto de renda na Espanha, uma pessoa com um salário de mais de 55 mil euros anuais brutos forma parte dos 5% mais rico da população! Percebem o que isso significa? Se não, deveriam fazer um esforço. Porque se trata de uma mostra empírica espetacular da grande evasão e fraude fiscais dos muito ricos. Essas 224 mil pessoas seriam 0,48% da população do Reino da Espanha. Para que tenhamos uma proporção: o gasto estatal em aposentadorias e pensões é de 139 bilhões, e o do seguro de desemprego é de pouco mais de 17,4 bilhões, isso equivale a 25% e 3,1% respectivamente, do acumulado por esses 0,48% (menos da metade do “mítico” 1%) da população do país. Estamos falando de quantidades e proporções muito grandes.

Os ricos – ou mais precisamente este 0,48% mais rico da população – quase duplicam a quantidade acumulada desde o início da crise. Em claro contraste, as condições de boa parte da população não rica se tornaram muito piores no mesmo intervalo. Ou seja, a grande maioria não rica da população vive pior que há 10 anos.

A existência de grandes fortunas costuma ser justificada pelo fato de que introduzem inovações e subsídios benéficos à sociedade: os peritos em legitimação dizem que, por sua iniciativa, seu engenho, sua criatividade ou capacidade de inovação, realizam grandes contribuições à sociedade, que mudam a vida de muitas pessoas.

Os fatos diferem bastante desse mantra. A atual elite dos super ricos está composta majoritariamente por executivos das empresas e das finanças, que representam ao redor de 60% do 0,1% dos que ganham mais. E, mais que a inovação ou as supostas contribuições à sociedade, o que essa colossal riqueza produz é o que se conhece em economês como “rentismo parasitário”. A busca desenfreada por aumentar a renda não produz riqueza agregada e é um mecanismo pelo qual a renda simplesmente muda de mãos, e não mais que isso. Pode-se realizar essa mudança de mãos das rendas através das leis, das facilidades concedidas pelos governos, etc. Os ricos captaram muitas rendas da maioria da população graças às legislações que conseguiram impor mediante (embora não de forma única) os muitíssimos lobistas que trabalham para as multinacionais, que atuam nos bastidores, junto aos legisladores. O setor da banca torra cerca de 1,2 bilhões de euros (pelo que se conhece) por ano e um exército de 1,7 mil pessoas, dedicadas ao trabalho de pressionar os legisladores da União Europeia, em Bruxelas, para velar por seus interesses.

E isso afeta a liberdade da grande maioria das pessoas. Em Empúries, um espaço público foi fechado porque os multimilionários puderam desfrutar das ruínas, excelente comida e tudo o que há de melhor no mundo, sem serem molestados pela “gentalha”. Jordi não pode ir a Sant Martí porque a festa desses ricos o impediu. Sua liberdade foi afetada. E isso, infelizmente, é só uma anedota. A plutocracia dos super ricos viola a liberdade de todos, todos os dias, através de conexões com os governos, para regular os mercados em causa própria por todo o mundo. E há gente que os admira por isso.

Julie Wark é autora do “Manifesto de Direitos Humanos” (Editora Barataria, 2011) e membro do Conselho Editorial do site Sin Permiso

Daniel Raventós é editor do Sin Permiso, presidente da Rede de Renda Básica e professor da Faculdade de Economia e Empresa da Universidade de Barcelona

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