Cartas do Mundo

Carta de Berlim: A Berlinale de Berlim descobre uma bomba em seu armário

 

04/02/2020 10:22

Alfred Bauer dança, em cerimônia da Berlinale, com a atriz francesa Magali Noel (DPA)

Créditos da foto: Alfred Bauer dança, em cerimônia da Berlinale, com a atriz francesa Magali Noel (DPA)

 
A ocorrência já se tornou um lugar comum: descobre-se uma bomba enterrada em algum lugar da Alemanha, em centro urbano, periferia ou zona rural. Segue-se o rito: evacuação de milhares de pessoas, e lá vai uma equipe desarmar ou detonar a bomba, se ela não puder ser desarmada ou removida. Às vezes acontecem casos pitorescos, como o da bomba na província de Hesse, que detonou por conta própria poucos anos atrás (seria mais uma artimanha do aquecimento global?), felizmente sem ferir ou matar alguém, e no dia seguinte a população local achou que a cratera consequente fora provocada pela queda de um meteorito. Outras vezes, há casos trágicos, como o registrado na cidade de Göttingen, em que três dos membros de uma equipe especializada em desarme de tais bombas morreram quando ela explodiu, e seis outros ficar gravemente feridos.

Durante a Segunda Guerra Mundial a aviação dos aliados - britânica e norte-americana jogou 2,7 milhões de toneladas de bombas sobre o território europeu, metade delas sobre a Alemanha, que teve cidades como Berlim, Colônia, Hamburgo, Kassel, Munique, Dresden, Frankfurt, Stuttgart, Hannover, Bremen, dentre muitas e muitas outras, literalmente destroçadas pelos bombardeios. Calcula-se que 250 mil das bombas que caíram sobre o território germânico não explodiram. Adormecidas, elas guardam seus detonadores e seus segredos.

Mas há um outro tipo de bomba - que também, volta e meia, vem à tona e detona alguém ou alguma coisa. É o que acaba de acontecer com a 70a. edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, conhecido e festejado o como a Berlinale, um dos mais importantes da Europa e do mundo, no gênero.

Berlim teve, desde sempre, um envolvimento vigorosos e profundo com a tradição cinematográfica que se criou a partir da invenção dos irmãos Lumière. Quem quiser atestar isto visite o Museu do Cinema, na cidade, na hoje revitalizada Potsdammer Platz.

O regime nazista compreendeu desde logo a importância da “novidade” e industriou-a em seu favor o quanto quis e o quanto pode. O ícone deste esforço nazista é o até hoje festejado por muitos cinéfilos “Der Triumph des Willens”, (O triunfo da vontade), de Leni Riefenstahl, um verdadeiro orgasmo nazista, lançado em 1935, graças às inovações de ângulos, sequências e tomadas, embora o resultado final, seja, para mim, de uma chatice enfadonha. Era parte de uma trilogia sobre a ascensão e a consagração do nazismo.

Um de seus outros filmes - “Olympia”, sobre as Olimpíadas de 1936, efetuadas em Berlim, também alcançou sucesso universal, pelo mesmo motivo. Embora ela registrasse honestamente o sucesso de atletas negros norte-americanos (como Jesse Owens, ganhador de quatro medalhas de ouro, para desgosto de Hitler, que queria a Olimpíada como uma glorificação da raça ariana), a exibição do filme sofreu contestações por parte de ligas anti-nazistas nos Estados Unidos. Riefenstahl foi defendida por gente de peso, como Walt Disney e King Vidor. Consta igualmente que Leni, embora se tornasse próxima do especialista em comunicações Joseph Goebbels, caiu no seu parcial desagrado por resistir a seus avanços…

Terminada a Segunda Guerra, a hiper-arrasada Berlim foi dividida em quatro partes, que vieram a se transformar em duas: a Ocidental (administrada por britânicos, franceses e norte-americanos) e a Oriental (administrada pelos soviéticos). Nesta cidade de duas faces, ou de almas gêmeas, ou como queira alguma outra metáfora, desenvolveu-se um dos lados mais acirrados da Guerra Fria, o cultural. Berlim Ocidental tornou-se uma ilha, um enclave, dentro da Alemanha Oriental, ou Comunista. E o lado Ocidental, liderado pelo novo imperialismo triunfante, o dos Estados Unidos, tronou-se a menina dos olhos do capitalismo diante do novo inimigo, ex-aliado, o comunismo.

Berlim era uma cidade devastada, não só fisicamente, mas espiritual e humanamente. Não havia jovens. Eles tinham morrido ou partido. Ela fora tomada palmo a palmo pelos soldados soviéticos, até a queda do Reichstag e o suicídio de Hitler, dias antes. O mago das comunicações do regime nazista, Joseph Goebbles, se suicidara, não sem antes cometer sua última atrocidade: o assassinato, secundado por sua esposa Magda (depois também morta), dos seis filhos do casal (!!), sob o pretexto de que não suportavas vê-los crescer num mundo em que o Terceiro Reich - que deveria durar mil anos! - fora derrotado.

Depois das bombas, os norte-americanos despejaram milhões de dólares para reerguer Berlim Ocidental das cinzas, como a Fênix da mitologia grega. E ela se reergueu. Um dos vetores desse reerguimento foi a Berlinale.

Sua primeira edição, ainda modesta diante das que viriam depois, aconteceu em 1951. Seu líder e inspirador foi Alfred Bauer (1911 - 1986), apoiado na imagem de ter sido um discreto dissidente do regime nazista, e que a dirigiu desde a sua fundação até 1976, quando ela já tinha garantido uma imagem de sucesso internacional. Tamanho foi o reconhecimento dos demais organizadores da Berlinale que logo depois da sua morte, em 1986, eles instituíram um prêmio - um dos Ursos de Prata - com seu nome, destinado a premiar filmes por sua inovação em matéria de linguagem cinematográfica.

Pois bem, tudo isto acaba de ruir, em frangalhos. No dia 29 de janeiro a edição do jornal DIE ZEIT (O Tempo), sediado em Hamburgo mas de circulação em todo o país, divulgou o resultado de pesquisa realizada no Arquivo Nacional e nos Arquivos da Cidade de Berlim, mostrando as estreitas ligações de Bauer com o regime nazista. Segundo a revelação, Bauer foi membro da organização SA (Sturmabteilung, Divisão de Assalto), conhecida também como “Os Camisas Pardas”, devido a cor de seu uniforme. Os SA eram liderados por Ernst Röhm, que entrou em conflito com Hitler, sendo assassinado com outros membros da organização em 1º de Julho de 1934, na chamada “Noite dos Longos Punhais”.

 Bauer seguiu sua carreira. Membro do Partido Nazista, recebeu candentes elogios por sua dedicação e empenho em relatórios internos, agora descobertos. Mais: tornou-se próximo de Josef Goebbels, e membro da Reichsfilmintendanz, organismo por este fundado em 1942 com o objetivo de dirigir (em todos os sentidos) a indústria cinematográfica alemã. Bauer seria o encarregado de indicar que filmes deveriam ter ajuda do governo em seu financiamento, e também que cineastas deveriam ser postos de lado, ou até mesmo enviados para o front.

Depois do fim da guerra, Bauer esforçou-se por apagar todos os vestígios de seu envolvimento com Goebbels e o nazismo. Conseguiu enganar a todos durante muito tempo, mas afinal apareceram documentos letais para sua reputação. A atual direção da Berlinale acolheu a reportagem do DIE ZEIT, que repercutiu na Europa inteira, e suspendeu de imediato o prêmio, não ficando ainda claro que haverá a indicação de algum outro nome para ele ou se seria simplesmente cancelado.

Recentemente caso semelhante envolveu um dos nomes mais expressivos da pintura alemã, Emil Nolde (nascido em cidade hoje na Dinamarca), que também se dedicou a apagar os vestígios de sua adesão ao nazismo e ao antissemitismo antes e durante a Segunda Guerra. Nolde pertenceu ao grupo dos Expressionistas germânicos e nórdicos, de quem nem Hitler nem Goebbels gostavam. Por isto chegou a ter obras suas incluídas na Exposição sobre Arte Degenerada que se realizou em Berlim, em 1938. Entretanto conseguiu que elas fossem retiradas da mostra. Assim mesmo, teve seu nome incluído entre os artistas perseguidos pelo nazismo. Só mais recentemente a revelação de anotações de seu próprio punho mostrou que ele permaneceu fiel ao nazismo e ao ideário antissemita até o fim da guerra. Pesam sobre ele acusações de ter denunciado colegas como judeus às autoridades de então.

No presente caso de Bauer, atesta-se mais uma vez os enormes poderes de Goebbels. Mesmo postumamente ele continua ativo, destruindo pessoas - por razões (adesão a ele) contrárias às que usava antes para destrui-las (serem seus opositores). Assim aconteceu com Roberto Alvim no Brasil e agora com Alfred Bauer na Alemanha.





Conteúdo Relacionado