Cartas do Mundo

Carta de Berlim: A Berlinale e os perigos que cercam o cinema brasileiro

 

11/02/2019 17:57

 

 
No dia 07 começou a 69a. edição da Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim que, com Cannes e Veneza, faz parte da "Trinca de Ouro” dos eventos do gênero na Europa. 

Mas de longe é o de maior envergadura, alcance e qualidade, sem desmerecer a qualidade dos outros. Este ano serão 404 filmes exibidos, numa programação que, como sempre, envolve a cidade inteira, apresentação sessões especialmente dedicadas a jovens e crianças, aliem de retrospectivas, mostras espaciais, com a sobre “Gastronomia e Cinema”, debates constantes e uma abertura sem par para o cinema do mundo, inclusive o do Brasil.

O cinema brasileiro tem uma ficha invejável na Berlinale. Já ganhou por duas vezes o “Urso de Ouro” de melhor filme, com “Central do Brasil:, em 1999, e “Tropa de Elite 1”, em 2010. Além disto, ganhou inúmeros prêmios e menções honrosas, segundos e terceiros lugares nos julgamentos de júris independentes e conhecidos por sua isonomia e rigor.

Este atestado de qualidade dependeu também do apoio público, atreve da Ancine, sobretudo na gestão de Manoel Rangel, durante os governos Lula e Dilma, que desenvolveu uma política de abertura para co-produções em todas as frentes, seguindo tendência mundial do setor. Também ao fato de que o cinema brasileiro desenvolveu uma pauta de contato com a agenda do cinema internacional de melhor qualidade.

Mas agora todo este patrimônio está a perigo.

Nesta Berlinale, o Brasil, entre produções próprias e co-produções, comparece com o número recorde de 11 longas e 1 curta. Mas vejamos do que se trata.

Greta - situado em Fortaleza, temática LGBTI.

Espero pela tua (re)volta - focaliza o movimento estudantil em S. Paulo, de 2013 até hoje.

Chão - olha para o MST em Goiás.

Divino Amor - uma visão crítica, em tom de ficção científica, do Brasil evangélico do futuro.

Querência - visão dura sobre o mundo dos rodeios brasileiros.

Estou me guardando para quando o Carnaval chegar - críticas ao sistema capitalista de exploração do trabalho.

La arrancada - a breve história dos dramas de uma atleta cubana. Co-prdoução com Cuba. Dispensa comentários. A França deve estar ali só pra disfarçar. 

Breve história do Planeta Verde - um ET baixa na Argentina. Deve ser comunista de Marte.

O ensaio - contra o racismo.

Rise - coprodução ambientada em Toronto, no Canadá, este conhecido país de perigosa tendência marxista.

A rosa azul de Novalis - tema LGBTI, com AIDS no meio e cenas de sexo.

Marighella - sobre o guerrilheiro assassinado pela ditadura de 64, que o atual governo elogia.

Deu para entender? É tudo o que o atual governo taxa de conspiração do “marxismo cultural”.

Isto vai acabar. Sintomaticamente, a Embaixada Brasileira em Berlim, que sempre ofereceu uma recepção aos cineastas, atores, atrizes, produtores, jornalistas presentes na Berlinale, neste ano cancelou o evento. Temor de manifestações contra o governo e em favor do Lula Livre (que estão acontecendo)? Temor diante dos ataques de que a Embaixada foi alvo recentemente, com pichações e quebras de vidraças? (A propósito: saiu na internet um manifesto em alemão reivindicando o ataque, mas sem assinatura). Repúdio aos filmes? Como não saiu nota oficial sobre o cancelamento, ficam as dúvidas e as especulações.

Para o futuro podemos esperar outros filmes que farão o novo sucesso brasileiro:

Os fracassados filmes sobre a Lava Jato.

“Jesus na goiabeira”.

“O santo filósofo {Olavo de Carvalho no papel principal} contra o dragão da maldade {Lula}.

“Lula acorrentado”.

Etc...



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