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Carta de Berlim: A República do Chiclete

 

08/01/2021 11:21

Manifestantes pró-Trump aglomeram na frente do capitólio, nos Estados Unidos (Spencer Platt/Getty Images)

Créditos da foto: Manifestantes pró-Trump aglomeram na frente do capitólio, nos Estados Unidos (Spencer Platt/Getty Images)

 
Há uma gama muito grande reações aos acontecimentos de 06 de janeiro deste ano em Washington, com a invasão do Capitólio por uma turba insuflada por um presidente algariado e afurismado porque vai perder a sua cadeira, que ele pensava cativa, no Salão Oval da Casa Branca.

Elas oscilam, se a gente levar em conta todas as opções, da aprovação velada, como a de Bolsonaro, ou descarada, como a de comentaristas da Jovem Pan (programa “Os pingos nos is”), da invasão, à desaprovação cautelosa ou contundente, tachando-a de “o fim de uma era”.

Naquelas primeiras opções, as balizas são claras, veladas ou não. Trata-se de justificar a hipótese de um futuro golpe, que vem sendo anunciado por Bolsonaro desde que tomou posse, caso perca a eleição de 2022, o que está ficando mais provável do que apenas possível.

Nas segundas, há variantes. Do lado mais otimista, se afirma que a invasão do Congresso norte-americano não foi o acontecimento mais importante do dia, mas sim a eleição dos dois candidatos democratas ao Senado, na Geórgia. Nesta versão, estaríamos assistindo o ocaso do movimento da “supremacia branca” nos Estados Unidos, e a emergência de um novo momento das lutas pelos direitos civis. A invasão do Congresso pelos militantes fascistas seria uma agonia. Confesso que, se acho a visão esperançosa, a considero demasiadamente otimista.

No meio do caminho, há a consideração de que a invasão apontaria a necessidade do Partido Republicano se renovar, desfazendo-se das tendências mais retrógradas que Trump liderou. Também a considero esperançosa, e torço para que isto pudesse acontecer, mas também a considero otimista em alto grau. Afinal, desde a eleição de Barack Obama o Partido Republicano enveredou majoritariamente por um caminho de rqdicalização à direita que o levou aos braços de Trump, ou vice-versa. Se havia gente mais equilibrada nele, como John McCain, as “key notes” de hoje são dadas por líderes extremistas como Ted Cruz e Mark Rubio.

Mesmo que Trump vire um espantalho do passado, a busca de poder a qualquer custo, através da mobilização do que o país tem de mais retrógrado e ressentido, pode continuar. Aí nasce a opção mais pessimista: o que assistimos no dia 06 de janeiro não foi o “fim da era Trump”, mas sim o começo de um novo momento na política norte-americana, cujos desdobramentos fascistas ainda se farão sentir. Se uma das figuras pateticamente dominantes na invasão vestia uma espécie de ridículo chapéu ornado com chifres de búfalo, outra mostrava uma camiseta elogiando Auschwitz. Trata-se de um péssimo sinal.

O renascimento do nazi-fascismo é um fenômeno mundial e encontra abrigo em organizações políticas, milicianas, policiais e nas Forças Armadas. Há imagens denunciando a colaboração de policiais com os manifestantes que invadiram o Capitólio. Outras ressaltam a diferença entre o comportamento policial diante desta invasão e o seu comportamento diante das manifestações do “Black Lives Matter” e “Anti-fa”, sendo este último muito mais brutal do que aquele.

As visões mais pessimistas sugerem que o “trumpismo” veio para ficar, mesmo sem Trump, e permanecerá provocador já durante o mandato de Biden. Fala-se até na possibilidade de novas manifestações disruptivas na posse do novo presidente, no dia 20 de janeiro. Esse dia será, certamente, um termômetro do que pode vir a acontecer no futuro.





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