Cartas do Mundo

Carta de Berlim: A hora e a vez de Luiz Inácio

O Brasil é um país que tem tradição de tratar muito mal seus fundadores e refundadores. Listo quatro deles e um projeto de refundador, sem que isto signifique necessariamente concordância com suas ideias e desempenho, no todo ou em parte, mas sim avaliação do seu papel histórico

12/04/2018 08:10

 

 
Flávio Aguiar

O Brasil é um país que tem tradição de tratar muito mal seus fundadores e refundadores. Listo quatro deles e um projeto de refundador, sem que isto signifique necessariamente concordância com suas ideias e desempenho, no todo ou em parte, mas sim avaliação do seu papel histórico.

Ao contrário do que quer um pensamento neo-conservador, quem fundou o Brasil não foi D. João VI e sua temerosa e temerária transferencia da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. D. João VI fundou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Quem fundou mesmo o Império do Brasil, bem ou mal, foi D. Pedro I.

Terminou expulso do país, comprimido entre a insatisfação liberal, a desconfiança dos latifundiários que temiam que ele se voltasse contra a instituição da escravidão devido aos acordos internacionais com os ingleses e, para variar, a falta de apoio da Tropa, como se denominavam então os militares. Deixou de ser Pedro I, um déspota no Brasil, e foi tornar-se um campeão da liberdade em Portugal, com o nome de D. Pedro IV.

Quem consolidou mesmo o Brasil interna e externamente foi D. Pedro II, que tergiversou com a escravidão até que sua filha católica ao ponto de ser carola, a Princesa Isabel, terminou com uma penada o que ele não terminara durante os 48 anos de seu reinado até então. Cristã ferrenha que era, não reconheceu o direito dos proprietários de escravos à pretendida indenização por suas “perdas”, a monarquia perdeu o apoio dos latifundiários. Perdendo também o apoio dos militares (de novo!), foi deposto e seguiu para o exílio no ano seguinte. Morto dois anos depois, em Paris, foi saudado pelo New York Times como “o mais republicano dos monarcas mundiais”.

Vargas foi o seguinte, o fundador do Brasil “moderno” e da Consolidação das Leis do Trabalho, coisa pela qual as esquerdas não o perdoaram por muito tempo e a direita até hoje e para todo o sempre. Ungido e deposto por duas vezes, na última, em 1954, deixou a vida para entrar na história quando, premido por uma campanha da direita que até hoje fede na história do Brasil, perdeu (de novo!) a sustentação militar.

Há muita festa em torno de Juscelino, que talvez mereça o título de presidente mais simpático da nossa História, mas o projeto de refundador seguinte foi mesmo João Goulart, com suas reformas de base que não foram implementadas, embora hoje se saiba que tinham o apoio da maioria da população. Deposto diretamente pelos militares, foi o único presidente da República até hoje a morrer no exílio.

É verdade que o penúltimo ditador do regime civil e militar de 64, Ernesto Geisel, consolidou o abandono da política de apoio ao colonialismo na África e ensaiou uma política externa independente (como fizera antes, canhestramente, Jânio Quadros, e também a seu modo, Goulart). Mas o seguinte refundador do Brasil foi mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que mostrou-nos e ao mundo, durante seus dois mandatos, o Brasil que poderia e pode existir, fora dos grilhões da Casa Grande e da dependência doentia e crônica em relação aos EUA. Para resumir seus feitos, foi o líder de uma ascensão social, em todos os sentidos, sem precedentes. Paga hoje o preço por isto, numa cela solitária em Curitiba, mas povoada por milhões e milhões de corações brasileiros. Qual a força do legado de seus dois passados mandatos e qual seu novo destino político, a História dirá e quem viver, verá. Os que hoje estão mortos ou se afogando nas dobras do fascismo que promovem ou aplaudem não verão nada, porque jamais darão o braço a torcer. Estivessem no Inferno de Dante, estariam com as pálpebras e os lábios costurados com linhas de couro cru e os ouvidos tapados com cera incandescente.

Tenho lido algumas comparações entre Lula e Getúlio. A mais ousada de todas diz que ao contrário do último, Lula não precisou deixar a vida para entrar na História. A comparação procede e não procede. Procede, porque Lula se agigantou de tal modo que chega a fazer sombra para a figura também gigante de Vargas. Não procede por duas razões. A primeira é que Lula ainda está na História, no seu bojo, na cela mas também, de certo modo, na nau capitânia, como a figura política mais importante do país, em meio à tempestade que se abate. A segunda é que, se Lula tem a idade com que Vargas deu seu passo definitivo, 72 anos, há muita diferença entre tê-la em 1954 e hoje em dia. Vargas era um ancião deprimido e até algo entediado num país cuja expectativa média de vida era menor do que 48 anos, embora ela se distribuísse desigualmente por classe e região. Em 2018, embora ela continue mal distribuída, a expectativa média de vida é de mais de 73 anos. Além disto Lula pode estar indignado, e com justiça (a que lhe falta graças a seus algozes), mas está longe de estar entediado ou envelhecido espiritualmente. Ao contrário, está em pleno vigor de seu fôlego político, mais combatente e combativo do que nunca, para desespero dos fascistas de plantão.

Também tenho lido diferentes avaliações de seu gesto de enfrentar desde dentro sua sentença à prisão. Num extremo estão os que o veem seu gesto com desespero e desânimo, achando que ele deveria ter escolhido o caminho do asilo em alguma embaixada e do exílio. Na outra ponta os que veem em sua escolha um gesto de extraordinária coragem pessoal e política, inaugurando uma nova fase de combate a longo prazo na História do Brasil, seja qual for seu destino imediato e o das (incertas) eleições de 2018.

Em meio aos extremos, campeia toda a sorte de avaliaçõs, todas elas manifestas com veemência e sinceridade - pondo-se à margem aqui, embora também possam eventualmente ser sinceras - aquelas emanadas da degradação moral a que chegaram os fascistas ativos ou passivos no país, cujo exemplo maior foi o das frases sinistras emanadas de alguma torre de controle aéreo.

No momento, vejo as coisas assim:

1- Lula tornou-se uma pulga na camisola, uma batata quente nas mãos, um ferro em brasa atravessado na garganta de seus algozes, togados ou não. Lula está jogando alto no tabuleiro. De há muito tornou-se uma figura de grande projeção internacional positiva, o que lhe dá uma envergadura que seus adversários, de toga, farda, paletó ou coluna na mídia, não têm. O que aumenta o poder do verme da inveja que visivelmente lhes rói as entranhas.

2- Na prisão, se morre (toc, toc, toc na madeira, vade retro) na prisão ou em decorrência dela, vai para o céu, vira mártir, e seus algozes descem aos infernos de onde não sairão nunca mais, apesar da momentânea e estulta alegria de alguns deles. Vira um espectro no panteão brasileiro, como Vargas. E como foi D. Pedro II, depois de morto, a tal ponto que a República Velha só revogou o banimento da família imperial depois da morte da Princesa Isabel, ocorrida em 1921.

3- Se vive, continua a principal figura da política brasileira, engrandecido aos olhos de seus correligionários e admiradores e é mesmo capaz de comandar as eleições, se elas se realizarem, assim como Getúlio o fez em 1945, desde seu “exílio” em São Borja.

4- Quanto mais viver, mais e mais seus algozes irão perdendo a falsa aureola de “combatentes da corrupção”, na qual ainda há quem acredite, e mais e mais assumirão a condição de carrascos de um homem corajoso que, em muitos casos, é bom não esquecer, e isto pesa no Brasil, tem a idade para ser-lhes o pai.

5- O “governo” brasileiro e as instituições jurídicas brasileiras vão se desmoralizando cada vez mais. Cada nova cambalhota que Rosa Weber dê na sua argumentação no STF, cada nova determinação absolutista da pauta que Carmem Lúcia faça, cada nova proibição de visita que Moro imponha a Lula (para dar apenas alguns exemplos) farão a imagem do edifício jurídico brasileiro ruir mais um pouco. Internacionalmente a mídia mainstream do Brasil já está bastante desmoralizada.

6- A situação internacional de Lula evolui em seu favor, ainda que lenta e gradualmente, mas com segurança. Atualmente o estado da arte é o seguinte: as esquerdas internacionais finalmente despertaram integralmente para a gravidade da sua situação e do estado exangue da democracia no Brasil. Podemos na Espanha, Melénchon na França, Mark Weisbrot nos EUA, entre cada vez mais outros, vieram a público vigorosamente em defesa de Lula. Outros já vinham se manifestando, como Noam Chomsky, a Linke na Alemanha, e blocos de ou à esquerda em diferentes países. Parlamentares ou grupos dos partidos mais ao centro também vêm se manifestando. Resta saber quando isto chegará às decisões institucionais, como no caso do Labour britânico, do SPD alemão (e dos Verdes), do PSOE espanhol, do PS francês e assim por diante. Dos de direita não há muito o que esperar, pelo menos de momento.

7- A campanha para atribuir-lhe o prêmio Nobel da Paz, liderada por Adolfo Perez Esquivel, chegou a mais de 200 mil assinaturas e vai progredir. É verdade que o Brasil é especialista em sabotar candidatos seus ao Nobel, como aconteceu no passado com Carlos Chagas na Medicina e D. Helder Câmara na Paz. Mas assim mesmo esta candidatura também vai pressionar as combalidas (em termos de prestígio) instituições brasileiras.

8- Lula preso põe a faca no pescoço da proteção institucional que vem sendo dispensada a Aécio, Serra, Alckmim, o próprio Temer, etc. Marina perdeu mais uma oportunidade de praticar o silêncio obsequioso. Alckmim de sair do seu, em defesa da democracia. FHC não sabe para que lado vire a sua biruta.

9- A prisão de Lula foi também o Rubicão dos golpistas de 2016, tanto os ativos quanto os passivos. Eles fecharam o caminho de volta. Para onde irão? Bater às portas da caserna? Fechar o caminho das eleições de 2018? Enviar Lula para Fernando de Noronha? Todas estas alternativas e ainda outras piores? Seja qual for seu caminho, ele é cada vez mais tormentoso e perigoso. E aberto à chusma da tigrada clandestina, como atesta a tragédia de Marielle.

10- Passamos em revista as alternativas e considerações com Lula preso. Solto, em qualquer circunstância, em qualquer momento, de qualquer modo, ele desmoraliza de vez seus algozes.

Não dá para saber o que acontecerá a seguir. Lula, com seu gesto desabrido de enfrentar a prisão, conseguiu o milagre de reunir as esquerdas debaixo da mesma bandeira, com Boulos e Manuela como exemplos, que têm apelo maior junto à juventude. Conseguiu revigorar o PT, que não tem mais este apelo, mas pode recupera-lo. Resta o enigma Ciro Gomes que, dos candidatos alternativos aos da seara golpista e assemelhados, ainda é o que tem mais chance, de momento, de chegar a um segundo turno.

Tudo também vai depender do que Lula fizer e disser, mesmo que permaneça submerso na solitária de Curitiba.





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