Cartas do Mundo

Carta de Berlim: A partir da Alemanha, um museu virtual para a imigração

 

23/03/2021 11:09

(Chrysa Tetoula)

Créditos da foto: (Chrysa Tetoula)

 
Usualmente, por força do hábito, quando falamos em “museu”, pensamos, em primeiro lugar, num prédio. Em segundo lugar, num aglomerado de salas e corredores. E dentro das salas, ou ao longo dos corredores, um monte de objetos, sejam quadros, fotografias, esculturas, objetos do cotidiano ou não, lembranças de líderes ou de personalidades destacadas, etc., sempre objetos concretos, expostos ao olhar presencial.

Mais recentemente, pode-se pensar que o acervo acima descrito seja complementado por projeções animadas ou não, jogos e exercícios virtuais em salas especializadas para tanto. Pode-se pensar também numa visita inteiramente virtual às salas de um museu, como no caso do Museu Imperial de Petrópolis, no Brasil. Ou num museu onde os elementos virtuais predominam, como no caso do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Mas sempre, na esmagadora maioria dos casos, o ponto de partida, o marco zero da existência de um museu, é um prédio.

No caso da imigração, um dos exemplos mais conhecido no mundo inteiro é o do National Immigration Museum, em Ellis Island, Nova Iorque, nos Estados Unidos. Hoje é possível percorrer virtualmente o museu e até mesmo fazer pesquisas sobre antepassados que tenham passado pela ilha. Ela foi o ponto de chegada nos Estados Unidos de pelo menos 12 milhões de imigrantes vindos da Europa, entre 1892 e 1924. Ali era feita a sua identificação, triagem, onde também, eventualmente, era submetidos a um período de quarentena. O epicentro do museu é o prédio central onde tudo isto acontecia. Um dos pontos altos do museu é uma imensa caixa de vidro, ao final do trajeto, onde estão exibidos milhares de objetos que foram abandonados na ilha pelos imigrantes, de malas empoeiradas a sapatos, roupas e até bonecas quebradas, sem qualquer identificação, mudos testemunhos do quanto se pode perder ou deixar para trás nestes processos.

Outro exemplo digno de nota para nós brasileiros, dentro muitos, são os sucessivos museus das “Rotas da Escravatura”, dispersos e reunidos nos continentes da África, Américas e Europa. Eles também podem ser visitados virtualmente, mas têm seus pontos-chave em prédios ou espaços que pontuavam aquelas rotas de um dos maiores processos de imigração forçada e criminosa da história humana.

Suely Torres (Udo Rzadkowsk)

Pois bem, em Berlim está sendo projetado um museu que será inteiramente virtual, voltado para a imigração, imigrantes, e temas conexos. Sua idealizadora é a pesquisadora e ativista cultural brasileira Suely Torres, que mora na Alemanha desde 1988.

Suely nasceu em Recife, Pernambuco, onde começou seus estudos universitários, tendo sido aluna de Ariano Suassuna e frequentadora de um espaço cultural famoso, a livraria Livro 7, inaugurada por seu dono, Tarcísio Pereira, em 27 de julho de 1970. A livraria fechou em 1998, mas seu dono continuou presente na vida cultural da cidade até janeiro deste ano, quando faleceu, aos 73 anos, vítima de complicações decorrentes da Covid-19.

Suely transferiu-se para o Rio de Janeiro, estudando na UFRJ e tornando-se revisora da editora da universidade. Veio para a Europa - Alemanha - para fazer pós-graduação. Em 2014 obteve o passaporte alemão, mantendo a dupla cidadania. Por conta disto, ela diz que “no Brasil me digo brasileira, o na Alemanha, alemã, o que leva as pessoas a uma reflexão”.

Em 2020 ela lançou publicamente o projeto deste Museu da Imigração, inteiramente virtual. Por que virtual? Porque, diz ela, “virtual é o museu do futuro, sem fronteiras, sem barreiras, mais universal, num território de todos, num espaço democrático e mais econômico, porque dispensa casas e prédios”. Trata-se de uma plataforma, acrescenta, “que pode ser acessada numa escola, numa universidade, num evento, em qualquer instituição, o acervo estará onde o público estiver”.

A ideia do museu nasceu para, de modo audacioso, “questionar a relação binária, essa divisão entre migrante e imigrante; a ideia é falarmos de NÓS, nem do EU nem do OUTRO. Está na hora de sentarmos numa mesa sem cantos, numa mesa redonda, e com todos à mesma altura”. Prossegue: “todo ser humano é um migrante em potencial. A Europa não existiria se não houvesse migração. Quem são os habitantes de Berlim? Se fazemos parte desses números somos os que contam aqui. Quando um migrante deixa de ser um migrante, quantos anos ele precisa pra deixar de ser um migrante? Não há respostas claras e abertas para estas questões”.

Suely ressalta que já existe um Museu da Emigração Alemã, um Centro de Documentação, cuja sigla é DOMiD, e seus organizadores pretendem construir um museu físico da migração, eles colecionam objetos e histórias de migração, mas ainda dentro de uma perspectiva binária, isto é, de ‘nós’ e ‘eles’, os alemães e os imigrantes”. “A nossa proposta - que já não é só minha, é de todos aqueles que se identificam e se sentem acolhidos por ela - a proposta do DMM - Deutsches Migrations Museum - é criar um paralelo de histórias de migração, onde colocamos lado a lado uma alemã ou alemão que conta a sua história, ao lado de um africano, latino, árabe, etc. Queremos diversificar as perspectivas , deixar que o visitante se pergunte sobre quem é o migrante e por que europeus, norte-americanos, australianos, italianos estão na nossa plataforma falando de um mesmo tema e experiência”. Suely diz que o paternalismo sempre a incomodou, “isso de ver o migrante sempre como um pobre dependente de ajuda; buscamos um diálogo de igual para igual, na horizontalidade, pois somos todos humanos e todo mundo é, foi ou pode vir a ser um migrante, emigrar, imigrar, reemigrar e seguir migrando. Afinal, estamos em migração, somos todos passantes neste planeta”.

Ela diz ter-se inspirado na plataforma virtual do Museu da Pessoa, criado na Vila Madalena, em São Paulo, em 1991, por três mulheres. “Escrevi para elas em 2015 e perguntei se poderia fazer uma residência lá, para aprender a metodologia. Foi uma experiência muito rica, tive a oportunidade de participar de entrevistas que estão na plataforma e de suas edições, pude inclusive comparecer, pelo Museu da Pessoa, a um congresso internacional de museologia, no SESC”. Embora tenha uma sede física, na rua Natingui, 1.100, o eixo central do Museu da Pessoa é sua plataforma virtual com depoimentos de um sem número de participantes sobre suas histórias de vida.

“Depois que voltei para a Alemanha, fui fazer uma especialização em curadoria na Universidade de Arte de Berlim (Universität der Künste Berlin), e acabo de terminar o curso de Antropologia Social e Cultural na Universidade Livre de Berlim (Freie Universität Berlin). Quanto ao museu propriamente dito, já temos algumas entrevistas editadas, com transcrição e tradução em duas línguas, alemão e inglês. Tudo pode ser visto em www.deutschesimigrationsmuseum.de . Tenho também dois outros sites, www.suelytorres.com onde exibo imagens e www.brasilianisch-lernen.de, sobre e com o ensino de português do Brasil”.

Para finalizar nossa conversa, Suely destaca um ponto curioso. Berlim conta hoje com 3,5 milhões de habitantes, e destes 1,7 milhão tem um “background” estrangeiro, seja diretamente ou pela ascendência próxima (pais, avós, por exemplo). Estes migrantes ou seus descendentes vêm do mundo inteiro; porém aqueles que vêm de uma procedência europeia não se vêem como “migrantes”. Estes são os “outros”, que vêm ou cujos ascendentes vieram de outros continentes. Além disto, ressalta ela, muitos alemães ainda têm uma dificuldade para “se misturar” com os “estrangeiros”. Mas isto “está mudando”, diz ela, com esperança, “é um lento processo, mas está acontecendo”.







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