Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Ainda a bordo do Cruzeiro Corona-Vírus. Lembrando o Ato 5 e a morte do governo Bolsonaro

 

18/05/2020 14:49

Mulher protesta contra restrições ao coronavírus na praça Rosa Luxemburg, em Berlim (Christian Mang/Reuters)

Créditos da foto: Mulher protesta contra restrições ao coronavírus na praça Rosa Luxemburg, em Berlim (Christian Mang/Reuters)

 
Domingo passado (dia 17) foi um dia diferente. Pela primeira vez em mais de dois meses, eu e minha companheira Zinka saímos para encontrar duas amigas - uma professora espanhola e outra italiana - num bar (aqui se diz “Kneipe”) muito simpático que costumávamos freqüentar de vez em quando, o Resonanz.

Tudo cheio dos efes e erres destes novos tempos Coronais e Convidais-19: máscaras no caminho, distâncias observadas, inclusive entre as mesas (do lado de fora). Tivemos de preencher um formulário com nomes, endereços, telefones, e-mails e a data do encontro. Caso alguém que lá tenha estado obtenha um diagnóstico de Corona-vírus, as autoridades eventualmente saberão onde nos encontrar. Fiquei pensando nos e nas pobres amantes que eventualmente tenham de alterar suas rotinas de encontros secretos ou pelo menos dissimulados…

Não só fomos ao bar, como para chegar lá tomamos um ônibus, e outro para voltar para casa! Nos ônibus o uso de máscaras é obrigatório, mas eu diria que pelo menos um quarto das pessoas que vimos dentro deles estava desmascarado.

Tive uma sensação estranha, de estar em outra cidade, diferente daquela em que eu vivia até março passado. Não sei precisar todos os porquês deste estranhamento, mas ele se fez presente. Uma das causas é que a coreografia das ruas mudou. Muitas pessoas andam mais ressabiadas, mantendo distância, fazendo salamaleques para dar passagem, enquanto outras parecem querer demonstrar que não ligam a mínima para a circunstância: é a turma dos “e-daí?” que se manifesta de uma forma propositadamente estouvada, ao invés de simplesmente descontraída.

Não, a vida não será mais a mesma. Não haverá “volta à normalidade”, embora muita gente pense assim e almeje este retorno. Não sei ainda que desenho este “bravo mundo novo” terá, mas sei que ele será diferente de tudo quanto já vivemos até dois meses atrás. A ver.

À noite, depois do tradicional programa detetivesco “Tatort” (uma série de “krimis”, como se diz aqui para filmes e histórias policiais), correu um programa de entrevistas e debates, também tradicional nos finais de domingo, liderado pela jornalista Anne Will, com jornalistas e polític@s de diferentes pontos de vista, sobre a atual conjuntura pandêmica e política. O conjunto teve uma visão mais ou menos uniforme de que a maior parte das manifestações contrárias ao isolamento social vem sendo puxada, alimentada e frequentada por gente de inclinação para a extrema-direita, embora haja também a turma dos que chamei de “e-daí?” e também haja grupos de extrema-esquerda que puxam suas próprias manifestações. É curioso: os “e-daí” vão no embalo dos outros; os grupos de extrema-direita chamam a chanceler Angela Merkel de “comunista” e os de extrema-esquerda a chamam de “fascista”… O fato é que o prestígio da “Mutti” (“Mamãezinha” em alemão coloquial e infantil), apelido de Merkel, cresceu a partir da crise pandêmica. Há até quem fale, ainda que discretamente, em um novo mandato para ela, que anunciara sua disposição de abandonar a política a partir de 2021.

Estas forças de extrema-direita que, pelo visto, se preparam para a tentativa de capitalizar a crise social em seu favor, me despertam a suspeita, que não é só minha, de que haja uma orquestração internacional ultra-conservadora por trás dos grupos que se opõem ao chamado isolamento horizontal. Não me surpreenderia a descoberta de algum cardeal da extrema-direita, do tipo Steve Bannon, orquestrando a temática.

É certo que, se a orientação contrária ao isolamento e ao “lockdown” se mostrou coesa de início, ela agora enfrenta um descompasso entre seus líderes. O principal destes, depois de ter sido como sempre um gramofone repetidor do que Trump dizia e fazia, é, em escala mundial, Bolsonaro. Trump continua brigando com governadores, prefeitos e a mídia que não obedeçam seus ditames pela abertura “ampla, geral e irrestrita” da economia, mas, por exemplo, tornou-se bem mais calmo quanto à cloroquina, cujas virtudes curativas e milagreiras Bolsonaro teima porque teima em propagandear, ajudado pela Damares que ainda a verá nas mãos de Cristo em alguma goiabeira. No Reino Unido, depois de ter recebido uma escovada do vírus, com direito a UTI e bomba respiratória, Boris Johnson ficou muito mais discreto.

O cavalo de batalha dos defensores da abertura generalizada e imediata é o chamado “modelo sueco”, com fechamentos mais tímidos e parciais do que os postos em prática na maioria dos países europeus. Os resultados desta política de favorecer a “imunização de rebanho” (que nome horrível) não têm sido muito promissores, se a compararmos, por exemplo, com a situação da vizinha Noruega. Suécia, numa população de quase 10 milhões e 350 mil habitantes: 30.143 casos; letais: 3.679 (12%); altas: 4.971. Noruega, numa população estimada em quase 5 milhões, 370 mil habitantes: 8.249 casos; 232 letais (2,8%); 32 altas (dados do dia 18/05, 12h30 hora de Berlim).

Enquanto correm à solta estas polêmicas e controvérsias que, no meu entender mobilizam, de um lado, dados científicos, e do outro, crendices e superstições neo-liberais, espera-se ansiosamente a divulgação do famoso registro da missa fúnebre que foi a reunião do governo de Bolsonaro, realizada em 22 de abril, com a presença do ex-ministro Sergio Moro e de pelo menos mais 40 outras pessoas, de ministros e ajudantes de ordem, além do presidente e entourage. Digo missa fúnebre: resta saber se para o governo, para o Brasil, para ambos… ainda não se sabe. Uma coisa, porém, é certa: assim como há um planeta antes do Corona e haverá outro depois, houve um governo Bolsonaro até aquela missa e hoje o governo já é outro e amanhã ninguém sabe o que será, acho que nem mesmo o Mourão, que nesta altura deve estar de tocaia, esperando o cavalo selado passar. Ou os blindados para o auto-golpe. Outra coisa certa: a reunião do dia 22 de abril foi um assassinato a sangue frio da língua portuguesa, das boas maneiras e do decoro governamental, embora para aqueles quadrilheiros lá reunidos tudo isto não tenha o menor significado.

Os relatos fragmentários que vem sendo divulgados sobre a reunião me lembraram de uma outra missa fúnebre, a do dia 13 de dezembro de 1968, quando a reunião do então Conselho de Segurança Nacional aprovou o golpe dentro do golpe, o Ato Institucional n* 5. A gravação transcrita não deixa dúvidas: todos os riquififis e rococós do protocolo foram seguidos. É “Vossa Excelência” pra cá, “Senhor Ministro” pra lá… Mas a monstruosidade do conteúdo é mais ou menos parecida. Assassina-se a lógica, pronunciamento depois de pronunciamento, para justificar que, instalando-se a ditadura, “salva-se a democracia”… As consequências institucionais foram as mesmas que as preconizadas por Damares e Weintraub: cassaram-se governadores, prefeitos, parlamentares da oposição e também da situação. 24 participantes, 22 votos a favor do Ato, 1 único contra (do vice Pedro Aleixo), o presidente Costa e Silva não votou. 17 assinaram a ata.

Em suma, lá como agora, o governo atravessou - não o Rubicão - mas o Aqueronte, o rio que abre as portas do Inferno para Dante e Virgílio, só que no Hades de Bolsonaro não há poetas nem guias, somente monstros como o Cérbero e Lúcifer, ambos tri-céfalos, este último a devorar o corpo e a cabeça dos condenados.

Que lhe povoem a noite.

Os sado-masoquistas que vão ao chiqueirinho do Palácio do Planalto berrar e urrar o que seja, “mito”, “morte ao STF”, “cloroquina” podem fazer o barulho que quiserem, mas não podem disfarçar esta realidade: o governo de Bolsonaro morreu naquele 22 de abril. Como um vampiro num filme B, e com menos graça, ainda poderá fazer muito mal, e o fará, sugando o sangue dos brasileiros.

Mas vai acabar. Com uma estaca de madeira no peito.



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