Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Berlinale começa com forte tom político e vigorosa presença brasileira

 

21/02/2020 12:12

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

Na noite de quinta-feira, 20 de fevereiro, o Festival Internacional de Cinema de Berlim começou com um forte tom político. Como já era previsto, o apresentador Samuel Finzi pediu um minuto de silêncio pelas vítimas do ataque terrorista de extrema-direita na cidade de Hanau, na noite de terça-feira. A seguir, o prefeito de Berlim, Michael Múller, do Partido Social Democrata Alemão (SPD), e a ministra da Cultura e Mídia do governo federal, Monika Grütters, da União Democrata Cristã (CDU), fizeram vigorosos pronunciamentos contra o racismo, a intolerância e a extrema-direita. Numa fala muito bem articulada, Grütters foi além: declarou que “ninguém tem o direito de trabalhar conjuntamente com racistas e com aqueles que promovem o völkischen Kräften”. Esta última expressão remete claramente ao conceito de racismo superpondo-se ao de povo, numa alusão ao passado nazista do país. Vários comentaristas da mídia alemã viram aí uma menção direta à pregação do partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD), que recentemente abalou a política alemã ao ajudar a eleger um candidato proposto pelos partidos FDP e CDU no estado da Turíngia, contra uma coligação dos partidos de esquerda. A CDU rachou por causa disto, entre aqueles que rejeitam qualquer colaboração com o AfD e aqueles que a aceitariam em nome de “deter as esquerdas” - argumento que lembra o utilizado pelos partidos tradicionais para coligar-se ao de Adolf Hitler nos anos 30 - sendo aqueles igualmente engolidos e devorados por este nos anos subsequentes.

Os acontecimentos de Hanau provocaram reações veementes na Alemanha e em toda a Europa. Um homem identificado como Tobias Rathjen, de 43 anos, assassinou nove pessoas em dois cafés frequentados por pessoas de origem turca e curda, e feriu gravemente outros cinco frequentadores. Depois ele se refugiou na sua casa, onde matou a própria mãe e se suicidou, segundo a polícia, que invadiu o local já na madrugada de quarta-feira. Deixou uma declaração de dezenas de páginas sobre a necessidade de “limpar” a Alemanha e a Europa de “estrangeiros” e “minorias” e um vt gravado, aparentemente com conteúdo semelhante.

Dentro da Alemanha o atentado alarmou todos os partidos políticos, da esquerda ao centro e aos conservadores, com exceção do AfD, que considerou ser o evento algo que nada tem a ver com a direita, mas sim com a ação isolada de um doente mental. Políticos da conservadora CDU e mesmo de sua co-irmã bávara, União Social Cristã (CSU), engrossaram o coro de declarações dizendo que o maior problema do país hoje jaz na ação de extremistas de direita. Autoridades de segurança divulgaram que no momento monitoram 53 suspeitos de estarem preparando atividades de extrema-direita no país, contra 22 na mesmo situação em 2016 (entre aqueles monitorados nnao constava o nome do assassino de Hanau). E especialistas no tema alertaram para o fato de que grupos de extrema-direita contam com policiais e militares entre seus membros, e que alguns já se valeram de informações obtidas diretamente dos arquivos policiais para planejar suas ações. Os registros oficiais falam em 200 vítimas fatais de atentados da extrema-direita desde 1990.

Com sua tradição de politização, a Berlinale não ficaria indiferente a este quadro que despertou cargas de adrenalina em todo o continente.

O Brasil no filme.

Nesta sua 70a. edição a Berlinale conta com uma participação brasileira muito ampla e disseminada.

Kleber Mendonça Filho, o conhecido diretor de “O som ao redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, integra o júri internacional, presidido pelo ator Jeremy Irons que, na entrevista coletiva que antecedeu a cerimônia de abertura, fez declarações veementes, alertando sobre a discriminação contra as mulheres e a necessidade de defender seus direitos, inclusive ao aborto.

O filme brasileiro “Todos os mortos”, uma produção franco-brasileira dirigida por Caetano Gotardo e Marcos Dutra, concorre aos Ursos de Ouro e Prata da competição oficial.

Além disto, o Brasil estará presente em outras modalidades da mostra:

Em “Panorama”: "Cidade Pássaro”, também uma co-produção franco-brasileira, dirigida por Matias Mariana; “Vento seco”, dirigido por Daniel Nolasco; "Nardjes A.", sobre manifestações na Argélia, dirigido por Karim Aïnouz, brasileiro que se divide entre seu Ceará natal e a cidade de Berlim; “O reflexo do lago”, de Fernando Segtowick; e “Un crimen común”, co-produção Argentina-Brasil-Suíça, de Francisco Márquez.

Em “Fórum”: “Luz nos Trópicos”, de Paula Gaitán; "Vil má", de Gustavo Vinagre; e "Chico Ventana también quisiera tener un submarino”, co-produção Uruguai-Argentina-Brasil-Holanda-Filipinas, de Alex Piperno.

Em “Forum Expanded”: “Apiyemiyeki?”, co-produção Brasil-França-Holanda-Portugal, de Ana Vaz; “Jogos dirigidos”, de Jonathas de Andrade; e “Vaga carne”, de Grace Panô e Ricardo Alves Jr.

Em “Generation 14plus” (para adolescentes ou de temática adolescente): “Alice Jr.”, de Gil Baroni; “Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes; e “Meu nome é Bagdá”, de Caru Alves de Souza.

Em “Curtas”: “Rã”, de Julia Zakic e Ana Flávia Cavalcanti.

Em “Encounters”: “Los conductos” co-produção França-Brasil-Colômbia, de Camila Restrepo.

Esta presença brasileira marcante é ainda herança dos anos dourados dos mandatos de Lula e Dilma na presidência. Manoel Rangel, no comando da Ancine, ajudou a catapultar a presença e o alcance do cinema brasileiro em termos de co-produções na América Latina e em outros continentes. Oxalá o que foi semeado naquele momento não venha a se perder no clima de antagonismo, boçalidade e repressão que reina na política cultural e outras, agora, no governo de Bolsonaro, família e mediocridades associadas.

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