Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Bolsonaro liquida a imagem do Brasil no exterior

 

27/03/2020 11:56

 

 
Lembro-me dos “bons tempos” da Ditadura de 64, em que esquerdistas e liberais, no exílio ou clandestinamente desde o Brasil, eram acusados pelos ditadores de “prejudicar a imagem do Brasil no exterior”, denunciando a existência de torturas e assassinatos nos cárceres e nas ante-salas deles, sempre negados pelos arautos do regime.

Agora temos um presidente (?) da república (?), assim, ambos com minúscula, que faz a apologia de torturadores, despreza organismos internacionais, torna-se o prato predileto da avacalhação pela mídia internacional e ameaça a vida dos brasileiros simplesmente para manter a fidelidade do seu rebanho. E daí vemos um cortejo da escória empresarial brasileira afrontar recomendações abalizadas da OMS, da ONU, afrontar o exemplo de governantes responsáveis de variados matizes, para manter “a economia funcionando”, na esteira de seu Sumo Sacerdote ensandecido e de seu satânico colégio de cardeais ungidos, como os filhos e a secretária da (falta de) cultura, ungida a papisa do nonsense e do pum do palhaço.

Vemos carreatas (em Camboriú, SC) saudando a “flexibilização da quarentena”, manifestações de sociedades empresariais pedindo o fim das restrições, empresários manifestando desprezo pelos “mortos inevitáveis”, caminhoneiros ameaçando bloquear estradas, enfim, uma festa da estupidez tão contagiante quanto a pandemia que assola o mundo.

The Economist denuncia Bolsonaro como Bolsonero. Der Spiegel fala no “último negacionista” (Leugner, em alemão). O Washington Post, Le Monde, The Guardian, etc., espinafram Bolsonaro e junto, o Brasil.

Ernesto Araújo e seus aloprados já avacalharam com o prestígio secular do Itamaraty. Capitais se retiram velozmente do país. Guedes e sua equipe torram as reservas acumuladas, e ainda, se continuarem, nos porão de novo de joelhos e pires na mão perante o FMI. As Forças Armadas brasileiras estão sendo transformadas num puxadinho desprestigiado das norte-americanas. Que não se iludam os militares. Onde iremos parar? No fundo do poço do desprestígio já estamos. Falta ainda o caos. Vivemos uma situação de balbúrdia entre as instâncias de poderes no país: a presidência miliciana, o STF hesitante, o Congresso saltitante, os governos estaduais tentando manter o bom senso, mas desamparados de uma liderança nacional.

No meio de tudo, o povo pobre ao deus-dará. E acima de todos, ao invés de Deus, um presidente que perde credibilidade por não mostrar o papel de seu exame, “que vale menos do que sua palavra”.

Nunca uma palavra valeu tão pouco.

Há uma hipótese: dentro deste desregramento de tudo, o caos é o melhor caldo de cultura para Bolsonaro e os bolsonaristas. Pode ser o pretexto para tentarem se perpetuar no poder.

Como se diz, a ver.

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