Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Dez lideranças indígenas do Brasil percorrem a Europa.

 

24/11/2019 12:42

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Dez lideranças indígenas brasileiras, acompanhadas por jornalistas e intérpretes, estiveram em missão na Europa, percorrendo dez países diferentes, trazendo uma mensagem: “nenhuma gota de sangue a mais”. Conversamos com um dos líderes da missão, Alberto Terena, que é professor de Pedagogia, especialista em Gestão Escolar. Fez parte da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, de 2004 a 2010. É membro do Conselho Terena, do Mato Grosso do Sul, onde vive. E é Coordenador Executivo da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Eis um resumo da conversa:

"Fazemos parte uma visita à Europa de 10 lideranças indígenas, vindas de cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste Sul.

Viemos visitar 10 países e o Parlamento Europeu, onde conversamos com uma de suas vice-presidentas. Visitamos

Alemanha, Suíça, França, Itália, Inglaterra, e outros países.

Nossa preocupação central é o acordo de Livre-Comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Ele pode agravar as ameaças aos direitos humanos, ao meio-ambiente e aos povos indígenas na América do Sul, graças às políticas agressivas do governo Bolsonaro quanto à presença do agronegócio e da mineração em nossos territórios. Bolsonaro prometeu, durante a sua campanha, não demarcar 1 cm. de terras indígenas. Depois de eleito, corrigiu para 1 milímetro. Atacou os direitos dos povos indígenas ao tentar transferir a Funai para o Ministério da Agricultura. Aprovar este acordo é uma grave ameaça à vida e à segurança dos povos indígenas.

Existe uma sensibilidade na Europa para o problema, com a vontade de dar uma resposta a esta política do governo brasileiro contrária aos povos indígenas e de agressão ao meio ambiente.

Lutamos há 519 anos pelas nossas formas de vida, contra as tentativas de nos tirar de nossos territórios. Com a Constituição de 1988 conseguimos muitas conquistas que agora tentam aniquilar com estes retrocessos na América Latina inteira. Tentam nos pôr “em lugar nenhum”.

Nós já estávamos na América antes de outros povos chegarem. A situação permanece crítica no Brasil e em toda a América Latina. Na Bolívia, o povo vai continuar lutando. Sofremos na pele as dificuldades para a demarcação de nossas terras. Estamos ameaçados de extermínio. Perdemos, enquanto estávamos aqui na Europa, o jovem Paulo Paulino Guajajara, morto numa emboscada no Maranhão, deixando um filho.

Estamos tentando assegurar a sobrevivência de nossas vidas e de nosso povo”.

A comitiva esteve na Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda, Bélgica, Portugal, Suíça, França, Espanha e Reino Unido, onde a viagem se encerrou. Ela foi recebida por parlamentares, jornalistas, militantes de direitos humanos e do meio-ambiente, autoridades, empresários, sindicalistas e por interessados de um modo geral. Na França, uma parte dela encontrou-se com o presidente do país, Emmanuel Macron, e no Reino Unido a comitiva compareceu à Embaixada Brasileira, entregando, simbolicamente, o “prêmio” de “Racista do Ano” ao presciente Jair Bolsonaro. Todas as informações sobre a viagem e os viajantes podem ser conferidas no site https://en.nenhumagotamais.org/comitiva .

Em todos os lugares a recepção foi bastante calorosa e interessada.

Na Europa há movimentos muito empenhados na resistência à aprovação do acordo de livre-comércio com o Mercosul, tanto por razões ambientais quanto diretamente econômicas. Ela é forte, por exemplo, entre os agricultores franceses e alemães. Em setembro o parlamento austríaco rejeitou a aprovação do acordo. Há indícios de resistência também no parlamento de Luxemburgo. O acordo precisa da ratificação unânime pelos parlamentos de todos os países envolvidos.

O presidente Macron manifestou seu descontentamento com as atitudes do presidente Bolsonaro durante o último encontro do G-20, o que provocou reações mal-educadas deste último e seus aliados, como o ministro Paulo Guedes, que num dito de que depois se arrependeu, afirmou que a esposa do líder francês era mesmo “feia”.

Há também uma insatisfação generalizada em meios parlamentares europeus, não apenas entre militantes da área, quanto à política de agressão ao meio ambiente - seja por cumplicidade, leniência ou descaso - empreendida pelo governo Bolsonaro, e também quanto à questão dos direitos dos povos da floresta.

Pode-se dizer, de um modo geral, que a visita da comitiva indígena brasileira aos países europeus foi um sucesso, atingindo seus objetivos de esclarecimentos quanto ao perigo que aqueles povos correm no Brasil.



Conteúdo Relacionado