Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Eleição 2018, 1º turno: erros, acertos, comentários.

 

09/10/2018 15:14

(Ricardo Moraes/Reuters)

Créditos da foto: (Ricardo Moraes/Reuters)

 

Errou redondamente quem previa que a candidatura de Bolsonaro se esvaziaria diante dos polpudos minutos de Alckmin na TV ou diante dos milhões (em qualquer moeda) de Meirelles.

Alckmin, com a campanha antipetista do PSDB, tornou-se um cabo eleitoral de Bolsonaro. Temer deu-lhe o tiro de misericórdia ao associa-lo inapelavelmente ao seu governo. Meirelles não decolou porque mutatis mutandis, como diz CLR James em seu livro The Black Jacobins, “There are times in History when money is not enough”.

Mas não estamos diante da revolução haitiana de 1804. Estamos diante do que alguns analistas internacionais vem chamando de “a débâcle ou o colapso do sistema político brasileiro”. Pelo menos o tradicional, com o campo conservador alinhado em torno da liderança da Rede Globo, com apoio na Folha de S. Paulo e no Estadão, além de outras instituições. Um outro tipo de aliança conservadora está em plena gestação, e deu as caras neste primeiro turno com mais clareza do que antes.

A mídia tradicional, a política de exceção instaurada em muitos planos do Poder Judiciário, o PSDB, o DEM e largas parcelas do MDB alimentaram a campanha antipetista, estimulando o ressentimento e o ódio diante do sucesso das políticas sociais de sucesso implantadas pelos governos petistas, tudo devidamente enrolado no papel de embrulho da pseudo-luta contra a corrupção. Mas ao invés de abrirem caminho para si mesmos, conseguiram aplainar a rota em direção ao poder do pentecostalismo popular e reacionário que deu impulso popular à candidatura do capitão reformado.

A meu ver não se trata apenas de uma “decepção” com o sistema político e os políticos de um modo geral. Trata-se de fato de um novo tipo de política, que começa a se deslocar da TV (por exemplo) para o WhatsApp e quejandos armas, utilizadas profissionalmente para a divulgação de ataques pessoais, mentiras, abusos e para a propaganda das soluções simplistas para problemas complexos, coisa que sempre atrai multidões.

Erra também quem atribuir isto a uma “falha tática” da estratégia do PT e do Lula. Ambos fizeram o que podiam nas circunstâncias adversas e persecutórias que enfrentam e enfrentamos todos. Em parte, deu certo: Haddad está no segundo turno, e apesar das perdas pelo caminho (Suplicy, Dilma, Pimentel, por exemplo) o PT se mantém o partido melhor organizado e com uma caravana de fidelidade eleitoral que é ainda a melhor e maior do Brasil, diante do relativo esvaziamento do PSDB e do MDB. O PSDB se tornou uma sigla em frangalhos, liderada agora por gente como Doria em S. Paulo. Entretanto, se a estratégia lulopetista conseguiu botar Haddad no segundo turno, resta saber se ela será bem sucedida em reverter a votação de Bolsonaro, atrair indeciso, brancos e nulos, mais dissidentes da nova maré de pessedebistas e emedeistas em direção à extrema-direita, o que não surpreende, apenas consolida uma tendência que se tornou galopante e veio crescendo nestes partidos desde as manifestações de 2013.

Os institutos de pesquisa acertaram, de um modo geral, nas previsões para a eleição presidencial, e nas eleições para governador. Porém erraram feito em alguns casos de eleição para o Senado. Isto me faz pensar que junto com esta nova maré política cresce algo que a se poderia chamar de voto enrustido, ou seja, que não se declara, se esconde. Algo parecido aconteceu, pós-facto, com a eleição de Fernando Collor, em 89. Procure hoje alguém que declare em alto e bom som que votou nele. É difícil encontrar. Collor parece ter feito o milagre de se eleger sem eleitores.

Deslocando, agora, o ponto de vista para fora do Brasil, há fenômenos que necessitam de um estudo aprofundado. O número de eleitores no exterior aumentou muito, em mais de 40%, segundo algumas fontes abalizadas. Ou seja, quase dobrou, foi a 500.727. O TSE enviou urnas para 171 cidades em 99 países. Quem são estes eleitores? Há dados dizendo que são eleitores de classe média alta, numa faixa predominante que vai dos 35 aos 45 anos, e que na maioria são mulheres (58%). Bolsonaro venceu neste contingente, com 58,65% dos votos, Ciro ficou em segundo, com 14,46% e Haddad em terceiro, com 10,33%. Mas houve casos particulares que merecem atenção, embora ainda seja difícil obter um quadro global detalhado. Ciro venceu em Berlim e Paris, com Haddad em segundo; entretanto Bolsonaro venceu em Hamburgo, onde o contingente evangélico é grande. Haddad bateu Bolsonaro na Austrália, mas perdeu em Tóquio, onde Bolsonaro ficou com quase 59% dos votos.

A esperança de reverter o quadro no segundo turno é tênue, mas, como se sabe, é a última que morre. A favor de Bolsonaro há o fato de que tradicionalmente quem vence no primeiro turno vice também no segundo. Contra ele, há o fato de uma parte da migração de votos de Alckmin, Meirelles ou outros candidatos do campo golpista para ele se deveu ao temor do segundo turno, quando Bolsonaro, além de suas tiradas peropatéticvas terá de dizer a que veio.

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