Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Lições da Comuna de Paris

 

18/03/2020 14:05

 
Neste 18 de março de 2020, comemoram-se os 149 anos do começo de um dos eventos revolucionários mais espetaculares, comentados e também fracassados da luta pela libertação dos trabalhadores de seus mais tenazes algozes das classes dominantes: a Comuna de Paris, de 1871.

A França estava arrasada depois da derrota diante dos prussianos, na guerra suicida levada a cabo por Napoleão III. A população, desmoralizada, assistira a proclamação do Império Alemão, idealizado por Otto von Bismarck, em pleno Palácio de Versalhes, em janeiro de 1871. O Império de Napoleão III terminara, e a República fora proclamada. Na eleição de uma nova Assembleia Nacional, a França rural impôs uma maioria reacionária.

As condições de vida na capital, Paris, cercada pelo exército prussiano, eram duríssimas: miséria, carestia crescente, desemprego, repressão por parte das tropas francesas, impotentes contra os prussianos, mas implacáveis contra os trabalhadores. A jornada diária de trabalho era de 11 horas, inclusive para mulheres e crianças.

Dentro de Paris o clima revolucionário era forte e generalizado. Reuniam-se, sob a bandeira de um novo governo voltado para o mundo dos trabalhadores, revoltosos de todos os matizes: socialistas, comunistas, utópicos, anarquistas, pequenos comerciantes com seus negócios em bancarrota. 

O estopim da revolta foi a ordem, por parte do novo governo francês, liderado por Adolphe Thiers, de que o Exército Francês recuperasse canhões armazenados na colina de Montmartre, onde hoje está a marmórea catedral de Sacre Coeur de Paris. A população se revoltou, executando alguns dos enviados para buscar os canhões, e o conflito começou.

Os “Communards”, como ficariam conhecidos, elegeram um Conselho Dirigente, que logo ficou marcado pelas profundas divisões entre os revolucionários, opondo “moderados” e “radicais”, adeptos de um governo mais centralizado ou de um mais descentralizado. Esta divisão marcaria toda a vida breve da efêmera Comuna, que durou até o dia 29 de maio de 1871, quando seu último bastião foi derrotado pelas tropas ditas “de Versalhes”. Estas tiveram a ajuda “passiva” dos prussianos, que libertaram 60 mil soldados franceses para que auxiliassem as tropas repressivas contra Paris, que totalizaram assim 72 mil combatentes. Estes estavam em número inferior aos “Communards” que somavam um número estimado entre 100 e 190 mil, mas que eram mal treinados para a guerra e avessos à disciplina militar.

Os debates internos da Comuna e as operações militares se estenderam até o final de maio. Tão intensos foram aqueles que os revolucionários não tiveram tempo nem disposição de buscar alianças externas, apesar de manifestações solidárias por parte dos integrantes da Primeira Internacional e de líderes como Giuseppe Garibaldi. Nem mesmo tiveram tempo e disposição de se apropriar dos fundos bancários disponíveis em Paris, que foram encontrados intactos quando os represssores impuseram sua verdadeira vingança contra os revolucionários.

Esta atingiu seu apogeu na chamada “Semaine Sanglante”, que durou de 21 a 28 de maio, quando um número de “Communards” estimado entre 17 e 30 mil foi sumariamente executado pelas tropas vencedoras. Nestes combates, as perdas dos “Versaillaises” foram oficialmente declaradas como de 877 mortos, 6500 feridos e 183 desaparecidos. Os últimos fuzilamentos se deram contra um muro - hoje um monumento - no Cemitério de Pére Lachaise.

Numa das represálias por parte dos “Communards” foi fuzilado o Cardeal Georges Darboy, em 24/05/1871, em honra de quem foi erigida a Catedral de Sacre Coeur, nas colina de Montmartre, para marcar a reocupação de Paris pelas “forças da ordem”.

Tão marcantes foram as cicatrizes da Comuna que somente em 29 de novembro de 2016 uma decisão da Assembleia Nacional Francesa anistiou completamente os “Communards”.



Conteúdo Relacionado