Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Na Alemanha, autoridade que pisa na bola, dança

 

07/11/2018 11:21

Hans-Georg Maassen minimizou manifestações nazistas, fez acenos à extrema-direita e foi obrigado a se retirar da vida pública (Friedliche Losungen)

Créditos da foto: Hans-Georg Maassen minimizou manifestações nazistas, fez acenos à extrema-direita e foi obrigado a se retirar da vida pública (Friedliche Losungen)

 
Hans-Georg Maassen era o todo-poderoso chefe da Verfassungsschutz, serviço de inteligência para a proteção (ou garantia) constitucional. Era? Era. E já era. Por quê? Porque pisou na bola. Dançou. Pisou de novo. Dançou de novo.

O caso começou com as manifestações de extrema-direita, recentemente, na cidade de Chemnitz, na província da Saxônia, perto da fronteira com a Polônia e a República Tcheca. Depois de uma briga em que um jovem alemão morreu esfaqueado e o suspeito do crime era um estrangeiro, manifestantes de extrema-direita se reuniram e começaram a hostilizar, perseguir e até espancar quem pensassem que não fosse alemão.

Na maior destas manifestações, que duraram alguns dias, 5 mil pessoas acorreram. Enquanto desfilavam pela cidade, muitos faziam a saudação nazista, coisa que é crime na Alemanha. 

O caso escandalizou muita gente, à esquerda, ao centro e à direita. A própria chanceler Angela Merkel lamentou os acontecimentos. Houve reações imediatas. Passeatas anti-nazistas e anti-extrema-direita reuniram centenas de milhares de pessoas pelo país. Na maior delas, em Berlim, 240 mil pessoas compareceram, enquanto os organizadores esperavam 40 mil.

Pois Hans-Georg Maassen, como chefe daquela agência, minimizou os episódios da extrema-direita, apesar de haver vídeos, além de testemunhas, das violências e crimes cometidos. Disse que não havia evidências  dos desmandos, contrapondo-se à chanceler. Chegou a sugerir que os vídeos poderiam ser fake news...

Dançou. A chanceler exigiu que deixasse o cargo. Instalou-se uma crise na já complicada coalizão de seu governo, composta pelo seu partido, a União Democrata Cristã, a União Social Cristã da Baviera e o Partido Social-Democrata, respectivamente CDU, CSU e SPD, nas siglas em alemão.

Na ocasião, Horst-Seehofer, líder da CSU e Ministro do Interior (encarregado da segurança) do governo, acolheu o demitido Maassen em seu ministério. Por quê? Porque seu partido na Baviera, enfrentaria eleições na província a seguir, e vinha perdendo pontos para o Alternative für Deutschland, AfD, de extrema-direita, crítico da política de Merkel de abertura para refugiados, é óbvio.

A propósito: o AfD abriu um site/disque-denúncia para que estudantes denunciem professores que supostamente façam proselitismo político em sala de aula, no melhor estilo Bolsonaro/Ana Carolina Campagnolo/Escola Sem Partido.

Surgiram comentários de que Maassen mantivera contatos com políticos do AfD anteriormente. Isto não deteve Seehofer. Ofereceu àquele um cargo que inclusive lhe aumentava o salário. Diante do estremecimento da coalizão, com protestos por parte do SPD, chegou-se a uma solução salomônica. Maassen ficaria no ministério dirigido pelo político bávaro, mas sem aumento de salário… O caso parecia resolvido, pois até o SPD, em nome da governabilidade, se aquietou.

Entretanto, o irrequieto Maassen não se deu por satisfeito. Inconformado com a perda do cargo na Verfassungsschutz, pôs-se a fazer publicamente críticas à política liberal de Merkel quanto aos refugiados, inclusive no exterior.

Chegou a chamá-la de “ingênua”, em encontro de chefes de inteligência em Varsóvia, quando se despedia de seus colegas. E foi mais longe: acusou-a de ter em seu governo elementos de “esquerda radical” (o SPD…). Seu discurso foi publicado na mídia alemã e repercutiu em outros países.

Foi demais da conta. Nem Seehofer aguentou. Retirou-lhe o prometido cargo no ministério. Em consequência, Maassen, de 55 anos, foi forçado a uma aposentadoria compulsória e antecipada (a idade de aposentadoria na Alemanha é de 67 anos), Diz ele que agora vai dedicar-se a negócios privados.

Na Alemanha é assim (pelo menos esta é a tendência dominante): autoridade abusou, dançou.

Ao contrário de casos escandalosos no Brasil, em que autoridade, por exemplo, juiz, que abusa de seus poderes, recebe tapinha nas costas e ganha não só cargo no ministério, mas o próprio ministério como recompensa.

*Publicado originalmente na Rede Brasil Atual



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