Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Na Berlinale, o Brasil do passado que não passa

Nos últimos dias assisti dois dos filmes brasileiros presentes no Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale

26/02/2020 14:12

Todos os mortos (Reprodução/Berlinale.de)

Créditos da foto: Todos os mortos (Reprodução/Berlinale.de)

 
1. Todos os mortos, dirigido por Caetano Gotardo e Mario Dutra, com Mawusi Tulani no papel principal, da ex-escrava Iná. O filme está inscrito na competição oficial.

A ação tem duas pontas: a primeira, histórica, se passa em 1899, 11 anos depois da Abolição e 10 depois da Proclamação da República. Uma família paulista, da aristocracia cafeeira, porém falida, se encontra à beira de várias crises, além da financeira. A matriarca, anciã, está à beira da senilidade e da desistência de viver. A filha mais jovem tem uma personalidade algo delirante e é proibida de sair de casa, na cidade de S. Paulo, para onde as mulheres se mudaram, abandonando a fazenda que já não lhes pertence. O pai vive na fazenda, onde trabalha como administrador, ajudando a sustentar a família. A filha mais velha do casal é freira em convento de S. Paulo, e tenta, por todos os meios, aprumar a família desequilibrada.

Numa de suas tentativas vai em busca da ex-escrava Iná (interpretada por Mawusi Tulani), que fora rejeitada pela família devido a práticas religiosas de origem afro. Ela a encontra “asilada”, com outros ex-escravos, abandonados à própria sorte, na igreja da pequena cidade próxima da fazenda. Pede-lhe que venha até S. Paulo e faça um ritual religioso para ajudar a mãe a se recuperar - como se fosse um tipo de placebo espiritual. Relutante a princípio, pela rejeição de que fora vítima, Iná acaba aceitando a proposta e vem para a "cidade grande” (São Paulo tinha cerca de 240 mil habitantes) com o filho, criança em torno dos dez anos de idade, na esperança de encontrar o marido que desertara da fazenda buscando melhor sorte no meio urbano em transformação.

A filha desequilibrada é alvo, ao mesmo tempo, da corte de um jovem mestiço de uma casa vizinha, que lhe recita poemas de Cruz e Souza, e do clima repressivo da casa. Tocando piano, ela gosta das modernas polcas e modinhas, mas é obrigada pela irmã mais velha a abandona-las para se ater a peças de música erudita europeia.

Os rituais de Iná têm uma eficácia moderada, mas temporária. Ela acaba se afastando daquele simulacro de “Casa Grande” para se empregar em outros lugares e para continuar a busca pelo marido, que acaba encontrando. O menino também se integra, de certo modo, ao ritmo da urbanidade crescente na futura metrópole paulistana, trabalhando como vendedor ambulante para o dono de um armazém.

Nesta altura a direção e o roteiro do filme recorrem a um expediente alegórico, que á segunda ponta da ação: pouco a pouco cenas da mega S. Paulo de hoje, com seus edifícios e sua massa de concreto vão se imiscuindo entre as cenas do fim do século XIX, na passagem de 1899 para 1900. Não vou contar os desenlaces do filme. Prefiro apenas registrar que esta movimentação rumo ao alegórico e ao contemporâneo do século XXI tem um objetivo claro: sublinhar que, no Brasil dos problemas não resolvidos e muitas vezes sequer enfrentados, o passado não passa, e os mortos, mesmo que morram, na verdade não morrem, mas ficam presentes como fantasmas e almas penadas.

Consta que a origem do roteiro está em contos escritos por um dos diretores, Caetano Gotardo. De todo modo, o filme lembra muito o clima e alguns dos personagens de um dramaturgo paulista do século passado, Jorge Andrade (1922 - 1984), que tratou extensamente do ciclo do café e suas crises, em peças que fizeram fama, como A moratória (sua estreia, em 1954), Rasto atrás, Os ossos do Barão e outras. Assim como no filme, o eixo das peças de Andrade repousa na crise de uma família cafeeira, que perde poder, posses e status, levando alguns personagens à senilidade e outros ao trabalho penoso para se sustentarem.

Trata-se de um filme sensível, de ritmo staccato, e que consegue dar trato original e delicado a temas recorrentes do Brasil do passado e de hoje, como o da herança escravista, dos preconceitos religiosos e de cor, da situação de idosos e crianças neste mundo agora assaltado pelas mediocridades e boçalidades governantes que nos cercam.

2. Vil, má, dirigido por Gustavo Vinagre, apresentado na seção Forum.

Trata-se de um documentário com eixo no depoimento algo espantoso de duas mulheres encarnadas num único corpo. A primeira, que ocupa a primeira parte do documentário, é Wilma Azevedo, escritora, jornalista, apresentada como “a Rainha do Sado-Masoquismo” no Brasil. Esta parte focaliza a alter-ego da outra mulher (de que falarei a seguir), e de suas aventuras no mundo da ficção e da realidade. Tornando-se uma das principais criadoras de contos, ensaios e crônicas sobre o mundo e as práticas sado-masoquistas, nos anos 70, ela começa a receber cartas (segundo ela, mais de 300 por mês) de homens e mulheres de todas as preferencias sexuais que querem encarnar as fantasias que lêem nos seus textos e outras de sua escolha, todas centradas nas práticas que fazem a passagem de constante ida e volta entre a dor e o prazer, a submissão e o domínio, no fio de navalha que separa e une os impulsos da libido e os instintos de auto-destruição e morte.

Ela conta, de modo completamente solto e com ajuda de uma atriz (Wanda) que deverá fazer o seu papel em outro filme (a ser feito?) toda a sorte de estripulias sexuais que testemunha, pratica e estuda com espírito metódico, ao longo de sua vida de escritora, até o momento em que, em meio a uma orgia que vê no palco, ela houve num dos participantes pronunciar o nome de Jesus. Espantada, ela se pergunta o que o chamado a Jesus faz ali naquele meio. A partir daí ela renuncia a sua literatura e, por assim dizer, sepulta Wilma Azevedo, voltando a ser quem fora antes, Edivina Ribeiro, nascida em Taubaté e criada em local próximo à fazenda que fora da família de Monteiro Lobato. Torna-se evangélica, dá o dízimo à igreja que frequenta, mas não renuncia aos prazeres sensuais que aprendera até ali.

A partir deste ponto do depoimento quem toma conta da narrativa são Edivina e sua história, de como, em meio a repressões familiares e religiosas, preconceitos sociais de toda a sorte e a dura necessidade de buscar a própria sobrevivência e dos filhos, depois que seu marido teve um derrame que o inutilizou por completo, ela engendrou a personalidade de Wilma Azevedo. Também volta a narrar como abandonou seu alter-ego e voltou a ser simplesmente Edivina.

O que avulta nesta história é a ligação entre o mundo aparentemente invisível do sado-masoquismo sexual e o cotidiano de pessoas que levam uma vida, de certa forma, dupla. Uma delas é voltada para a “normalidade” cotidiana do ganha-pão, do pagamento de impostos, do sustentar famílias e a outra volta-se para a prática deste tipo de “ocultismo” do que são consideradas “taras”. Criam-se verdadeiras “sociedades secretas” de “segregados”, mas de segregados, em parte, de suas próprias vidas. Não se pode deixar de considerar a verdadeira prática de uma estranha “profilaxia terapêutica” por parte da “dupla” Wilma/Edivina, pondo uma certa “ordem”, uma certa “racionalidade”, num mundo que vive à beira e frequentemente pode descambar para a violência e a auto-destruição.

Certamente as mediocridades toscas que hoje dominam a Ancine e as política culturais dos “tarados políticos” que hoje tomaram conta do governo federal não vão gostar do filme.





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