Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Na Turíngia, deu esquerda e extrema-direita

 

28/10/2019 11:39

 

 
A Turíngia é um dos 16 estados da Alemanha (que compreendem as cidades-estado de Berlim, Hamburgo e Bremen), situada bem ao centro do país. Tem uma história notável por diversos aspectos. Martinho Lutero, o principal reformador religioso da Alemanha, viveu em duas de suas cidades: Erfurt e Eisenach, sendo que nesta última ele traduziu o Novo Testamento para o alemão, feito até hoje considerado um marco na história da língua germânica. Esta também foi a cidade natal de Johann Sebastian Bach, e sua casa é hoje um museu de porte no país. Foi também nela que foi fundado, em 1869, o Partido Social Democrata Alemão, considerado hoje o mais antigo partido político em funcionamento na Europa.

Fica na Turíngia a cidade de Weimar, sede da República do mesmo nome, entre a queda do Império logo ao fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão do Nazismo. Ali viveram Goethe e Schiller, além de Nietzsche e Liszt. Em 1919 o arquiteto Walter Gropius fundou nela a Escola Bauhaus, que se tornaria uma referencia arquitetônica e artística mundial, permanecendo em Weimar até 1926, quando mudou-se para a cidade de Dessau (depois a Escola se mudaria para Berlim, onde agonizou e morreu, fechada devido às pressões dos Nazistas em 1933). Durante a divisão do país, depois da Segunda Guerra Mundial, a Turíngia ficou do lado Oriental.

A Turíngia notabiliza-se hoje por ser a única província do país cujo governo é chefiado por um membro do Partido Die Linke, A Esquerda, sendo primeiro-ministro Bodo Ramelow, ex-presidente do Sindicato dos Bancários, Securitários e Comerciários. Lidera ele uma coligação rara na Alemanha (mas presente também em Berlim) entre o seu partido, o Partido Social Democrata e o Partido Verde.

No último fim de semana houve a eleição para o próximo governo. Num movimento que vem se repetindo, o resultado mostrou um enfraquecimento do Partido Social Democrata e da União Democrata Cristã (CDU na sigla alemã), obtendo cada um, respectivamente, 8,2% ( - 4,2% em relação à última eleição, em 2014) e 21,8% ( - 11,7%). A Linke permaneceu como o partido mais votado, com 31% ( 2,8%), enquanto os Verdes permaneceram estáveis, com 5,2% (- 0,5%) e o liberal FDP conseguiu superar a cláusula de barreira, ficando com 5% dos votos ( 2,5%). entrando, desta forma, no Parlamento local. (A cláusula de barreira é de 5% dos votos).

O partido que deu um verdadeiro salto, embora não chegando em primeiro lugar, foi o Alternative für Deutschland, AfD, de extrema-direita, repetindo a situação já registrada em outras eleições regionais recentes. Ele saltou de 10,6% em 2014 para 23,4%, tornando-se o segundo mais votado. O resultado cria uma nova situação e uma difícil escolha para o Partido de Ramelow, entre propor uma aliança complicada com a conservadora CDU, ou manter a atual coligação com o SPD e os Verdes, num governo minoritário e, portanto, fragilizado. Outra possibilidade, improvável mas não impossível, seria incluir o FDP nesta coligação, o que criaria, mutatis mutandis, uma espécie de “Geringonça” alemã (“Geringonça” é o nome dado à coligação de centro-esquerda que governa Portugal, reunindo partidos díspares, embora neste caso todos à esquerda no espectro político). No plano federal a chanceler Angela Merkel tentou fazer uma aliança com o FDP e os Verdes, o que não deu certo.

O crescimento vertiginoso do AfD, além de esvaziar o “Centrão” político da Alemanha (CDU SPD, com um sentido muito diferente da mesma palavra no Brasil), mostra a vitalidade de suas bandeiras extremadas de xenofobia e desconfiança em relação ao atual estado da União Europeia, capitalizando o ressurgimento do extremismo de direita na Alemanha. Este, embora menos vigoroso do que em outras regiões da União, vem mostrando suas garras e dentes no país. Curiosamente, este ressurgimento da extrema-direita alemã vem conjugando dois sentimentos de intolerância aparentemente divergentes: de um lado, a rejeição aos muçulmanos, pelo temor de que todos sejam terroristas (?) potenciais (de quebra, esta rejeição atinge também os possíveis refugiados provenientes da África subsaariana, numa demonstração clara de racismo); de outro, o velho antissemitismo contra o povo judaico.

O resultado mostra, mais uma vez, a maré montante contra a atual hegemonia que predomina na União Europeia, onde a Alemanha e em particular a chanceler democrata-cristã Angela Merkel permanecem como o fiel da balança. Muito desta maré se atribui ao crescente repúdio à política de Merkel que, tradicionalmente, defende a abertura do continente europeu às levas de refugiados. Entretanto, embora a mídia mainstream, de inspiração economicamente liberal ou mesmo neo-liberal não consiga dar o braço a torcer, não se pode descartar o repúdio às políticas de austeridade que predominam em quase todos os países do continente, gerando multidões dominadas por um ressentimento que aderna perigosamente para a direita.

PS - Por falar nesta mídia, registre-se o seu aturdimento diante das novas levas de fracasso retumbante das políticas neo-liberais. Tudo seguia em mar de almirante e céu de brigadeiro com as contínuas manifestações em Hong Kong expondo o “autoritarismo chinês”, quando de repente, não mais que de repente (para aquela mídia) o Chile explodiu, o Líbano também (depois de explosões também no Equador e no Peru) e a Argentina de Macri implodiu. A ver o que se passa no Uruguai. E se esta mídia demonstra esperança nas privatizações prometidas por Guedes no Brasil, ela não pode esconder seu mal-estar diante de seu chefe, o capitão Bolsonaro, e seus desarticulados arroubos de extrema-direita. Também provocam mal-estar as contínuas manifestações na Catalunha.






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