Cartas do Mundo

Carta de Berlim: ''O Brasil acima de tudo'' e o ''Deutschland über alles'': esclarecimentos

 

05/01/2020 11:33

 

 

Li em algum lugar que o lema “O Brasil acima de tudo”, de Bolsonaro, rimava com o “Deutschland über alles” do antigo hino alemão. Daí tiram-se conclusões nazistas para ambos os lados.

Ledo engano, apesar da semelhança das palavras.

Tenho muita pena dos alemães, por seu relacionamento tenso e contraditório com o hino nacional. Claro: há o espectro nazista no meio do caminho, que atrapalha tudo. Mas as coisas são mais complexas.

A música do hino alemão foi composta por Joseph Haydn, em 1797, em homenagem ao rei prussiano Franz II, avô de Pedro II e do infeliz Maximilien, irmão de Franz Joseph I, marido de Romy Schneider, ops, quero dizer, da imperatriz Sissi. Maximilien foi feito imperador-títere do Mexico por Napoleão III, e terminou ingloriamente fuzilado em Queretaro, em 1867.

A letra do hino de Haydn foi escrita por Lorenz Leopold Haschke, imitando o “God save the King/Queen britânico, adotado como hino na primeira metade do século XVIII. Dizia: “Deus salve Franz, o Imperador!”, porque Franz II era o imperador, aiiás o último, do Sacro Império Romano-Germânico, que ele dissolveu em 1806, depois de derrotado por Napoleão na famosa batata de Austerlitz, em 1806.

Nova letra foi composta em 1841, pelo poeta August Heinrich Hoffmann von Fallersleben (1798 - 1874) em 1841. O poeta era ligado aos movimentos republicanos que levaram às revoltas de 1848 em toda a Europa, com repercussões no Brasil (Revolução Praieira no Recife) e em outros países da América Latina, como México e Chile. Revolucionário, Fallersleben foi perseguido e perdeu a cadeira de ensino que tinha na Universidade de Breslau. A primeira linha do hino - “Deutschland über alles”, “A Alemanha acima de tudo” - se referia ao ideal de um país republicano e democrático, que superasse as idiossincrasias dos 39 estados independentes que formavam a Confederação Germânica - dividida entre principados, ducados, condados e impérios reacionários e liderados por dirigentes na esmagadora medíocres, como os de hoje no Brasil, Estados Unidos, Hungria, Polônia, Chile, Equador, e6c., que reprimiam tudo que fosse progressista então. É bom lembrar que 1848 foi o ano do lançamento do Manifesto Comunista, por Marx e Engels, em Londres, com imediata repercussão na Europa. A letra de Fallersleben exalta a unidade dos povos, a lealdade, o papel dos homens na vida social e o das mulheres também, a fraternidade, a justiça, a liberdade e… vejam só!… o vinho!

A “República Alemã”, proclamada em março de 1848 em Frankfurt, teve curta duração. Não conseguiu estabelecer uma agenda institucional e foi reprimida duramente pelos prussianos e austríacos, de resto como todos os fracassados movimentos libertários de 1848. Muitos de seus líderes se exilaram nos Estados Unidos; alguns, como Fritz Múller e Carl von Koseritz, no Brasil.

Foi em 1922 que o social-democrata Friedrich Ebert estabeleceu o hino e a letra de Fallersleben domo o hino alemão oficial. Depois ele foi apropriado pelos nazistas. Como me ensinou uma das minhas professoras de alemão, claramente herdeira da DDR, a República Democrática Alemã, a antiga Alemanha Oriental, os nazistas transformaram sutilmente o “Deutschland über alles” - “A Alemanha acima de tudo” - em “Deutschland úber alle” - “A Alemanha acima de todos”. Este foi o lema implícito da Olimpíada de 1936, realizada em Berlim, e que deveria consagrar a supremacia da raça ariana, mas que terminou consagrando o negro norte-americano Jesse Owens (quatro medalhas de ouro, para desgosto de Hitler et canalha).

Assim se vê que o “Brasil acima de tudo” tem muito pouco a ver com o verdadeiro significado histórico do “Deutschland über alles” original. Tem mais a ver com o “America First”, de Trump, lema que aliás a nova diplomacia brasileira, sob o comando do patético pateta Ernesto Araújo segue com cega fidelidade, ou talvez com o longínquo “America, love or leave it”, traduzido nos anos sessenta por “Brasil, ame-o ou deixe-o”, agitado pela direita norte-americana frente aos protestos contra a Guerra do Vietnã.

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