Cartas do Mundo

Carta de Berlim: O Brasil das tristes perdas

 

10/07/2019 18:38

(Agência O Globo/Edilson Dantas)

Créditos da foto: (Agência O Globo/Edilson Dantas)

 
Começou com o João Gilberto. A primeira vez que o vi foi em Porto Alegre, quando se apresentou na televisão. Não havia videotape, muito menos cadeia nacional. Era ao vivo mesmo. Ele cantou sentado em cima de um fogão a gás, o que chocou muita gente. Eram tempos de grandes mudanças na paisagem, e havia muita esperança de que o Brasil se desenvolveria. Como no passado recente, hoje agonizante na UTI, depois do golpe de 2016, da injusta condenação e prisão de Lula e da eleição de um presdente cujos neurônios teimam em não se encontrar. Não fazia muito que o fogão a gás e o chuveiro elétrico tinham sido entronizados em minha casa, substituindo o fogão a lenha e o “boiler” com serpentina que esquentava água para o chuveiro, sobretudo nos dias de outono e inverno. E de cambulhada com isto vinha a bossa nova, a eletrola (hoje vitrola), os discos bolachas 78 e os longplays, hoje o cult vinil. E o João Gilberto.

Hoje pela manhã (quarta, 10 de julho) chegou primeiro a notícia da morte de Paulo Henrique Amorim, um dos mais brilhantes polemistas do jornalismo brasileiro. Sua ironia perfunctória foi batendo cada vez mais de frente com os poderosos da insanidade que hoje dominam o cenário político brasileiro. Foi defenestrado do programa que fazia na TV Record, aos domingos, exatamente por causa disto. Enorme perda.

Logo em seguida chegou a notícia da morte de meu amigo de longa data, Chico de Oliveira. Conheci-o, primeiro, nos tempos do Jornal Movimento, em que militamos juntos. Lutamos ombro a ombro no grande racha do jornal, no começo de 1976. Aí tomamos rumos diferentes: eu fiquei com a fundação do Em Tempo, ele com a do efêmero Amanhã. Mas continuamos amigos muito próximos. Vieram os tempos de fundação do PT e outras militâncias, inclusive na USP, onde fomos colegas durante muito tempo. Continuamos conversando muito sobre tudo e todos. Discordei da maneira violenta e um tanto ressentida com que ele passou a tratar o PT e o Lula depois de seu rompimento com o partido que ajudara a fundar, embora respeitasse seu compromisso com o PSOL. Apesar disto, continuamos amigos como sempre fôramos. E o Chico continuou, é claro, a ser um dos grandes pensadores do Brasil.

Quando militávamos no Movimento, tive a honra de editar seu primeiro livro, uma coletânea de seus artigos chamada “O banquete e o sonho: ensaios sobre a economia brasileira”, publicada na coleção “Cadernos de Debate” como o terceiro da série, uma das tantas aventuras conjuntas que o jornal fez com a Editora Brasiliense, dirigida pelo igualmente amigo e saudoso Caio Graco Prado. Muitas vezes o que era censurado no jornal, submetido a um oneroso sistema de censura prévia, saía nos Cadernos ou em livros que também foram publicados com a Brasiliense, na coleção “Cena Brasileira” ou “Artistas Brasileiros”. Lembro que apresentei o Chico ao Rui Falcão, que fez a apresentação do Caderno.

Muito tempo depois tive a honra de ter meu romance “Anita", que saiu em 2000 pela Boitempo, apresentado ao Antonio Candido pelo Chico de Oliveira, que, além de gostar dele, ficara entusiasmado pela ponta que faz o Frei Caneca nos capítulos iniciais. A história começa na África, passa por Recife, segue em direção ao sul do Brasil, estaciona na Revolução Farroupilha e na luta pela Independência do Uruguai, acompanha Garibaldi e Anita à Itália, sai desta, que ainda estava em formação, estaciona outro tempo em Paris e volta ao Brasil, sediando-se no Rio de Janeiro mas concluindo com uma volta ao Recife, mais exatamente no dia 30 de setembro de 1866, em que, depois de uma manifestação de estudantes republicanos e abolicionistas duramente reprimida pela polícia, Castro Alves declamou, da sacada de um jornal, seus famosos versos “A praça, a praça é do povo/Como o céu é do condor”. Linhas que, tenho certeza, Chico leva no coração, onde quer que ele esteja.

E nós ficamos aqui, mais tristes e perdidos nesta noite suja.



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