Cartas do Mundo

Carta de Berlim: O drama trágico de Chemnitz: a extrema-direita em ação

O conflito e a morte de Daniel H. foi o estopim de uma manifestação de extrema-direita convocada às pressas, no domingo, através das redes sociais

30/08/2018 14:19

(dpa, Jan Woitas)

Créditos da foto: (dpa, Jan Woitas)

 
Chemnitz é uma cidade da província da Saxônia, no leste da Alemanha, perto da fronteira com a Polônia, mais ao norte, e com a República Tcheca, mais ao sul. Tem atualmente quase 250 mil habitantes e integrava a antiga RDA, a Alemanha Oriental.

No domingo passado, durante uma festa da cidade, aconteceu uma briga envolvendo uma dezena de pessoas, pelas informações ainda incertas e desencontradas da polícia local. Aparentemente a briga teve como causa o assedio a uma mulher. Não se sabe o papel das pessoas que tomaram parte no conflito quanto ao propalado assedio. O que ficou claro foi o resultado trágico. Daniel H., um jovem carpinteiro muito estimado por seus colegas, foi morto a facadas no conflito. Houve mais gente ferida. Correm informações de que a polícia deteve dois suspeitos, um sírio e um iraquiano.

O conflito e a morte de Daniel foi o estopim de uma manifestação de extrema-direita convocada às pressas, no domingo mesmo, através das redes sociais. Uma multidão calculada entre 800 e 1.000 pessoas se reuniu no centro da cidade, e depois de gritarem palavras de ordem xenófobas se desataram pela cidade, agredindo quem tivesse aparência de estrangeiro, jogando pedras e foguetes contra policiais pouco numerosos convocados também às pressas para conte-los (sem sucesso, diga-se de passagem). Vieram reforços das cidades próximas, Dresden e Leipzig. A multidão enraivecida acabou por se dispersar.

As cenas e agressões se repetiram na segunda e na terça-feira, com o número de manifestantes engrossado para 5.000. A polícia foi insuficiente para conte-la. Houve manifestação de gente contrária aos da extrema-direita, e estes partiram para a agressão contra aqueles. A polícia mal e mal conseguiu estabelecer um círculo protetor em torno dos manifestantes contrários aos da direita, minoritários, em torno de 1.000 pessoas. Assim mesmo, vários deles foram agredidos e feridos. 

Durante estas manifestações, além das palavras de ordem xenófobas, os manifestantes mais exaltados gritavam elogios a Hitler e faziam a saudação nazista, que é proibida na Alemanha, num claro desafio à proibição e ao sistema político.

Mais um dado estarrecedor: há denúncias de que partiu uma colaboração aos neo-nazis de dentro do aparato policial. A identidade dos suspeitos detidos era mantida em sigilo, mas houve vazamento para pessoas da extrema-direita da informação de que eram estrangeiros e refugiados.

Os contingentes policiais enviados para vigiar e controlar os manifestantes eram claramente insuficientes.

A Europa inteira seguiu os acontecimentos em Chemnitz, o que encheu os manifestantes de orgulho. Um dos líderes da manifestação deu declarações à imprensa internacional dizendo que a Saxônia iria expulsar Angela Merkel do governo.

Esta província alemã é considerada um dos redutos da extrema-direita no país. O extremo-direitista Alternative für Deutshland - AfD - obteve 27% dos votos nela nas últimas eleições, uma cifra muito alta para um partido tão novo, fundado há apenas alguns anos e que já captou votos dos demais partidos conservadores, também em outras províncias.

Na Saxônia ocorreu o episódio hoje conhecido como “A célula de Zwickau”, cidade próxima de Chemnitz. Nela se escondia um grupo de neo-nazistas que, na clandestinidade durante uma década, assassinaram vários comerciantes turcos, um grego e uma policial que aparentemente se recusou a colaborar com eles. Descobertos em 2011, após uma tentativa de assalto a banco, dois deles se suicidaram e uma terceira pessoa - uma mulher - se rendeu à polícia depois de pôr fogo na casa onde residiam. Em julgamento terminado este ano foi condenada à prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. O mais complicado de tudo é que ficou comprovado que tiveram colaboração dentro das forças policiais e também contaram, no mínimo, com a negligência por parte dos serviços de inteligência estaduais e federais, que forcaram, durante, uma década, procurando uma hipotética “máfia turca” que nunca existiu, como autora dos assassinatos.

Chemnitz é apenas a ponta de um iceberg. Como no resto da Europa e do mundo, a extrema-direita cresce assustadoramente e põe as mangas de fora, fazendo declarações e gestos (como a saudação nazista), além de agressões, que uma década atras seriam impensáveis. O AfD já se tornou a terceira força no Bundestag, o Parlamento Federal alemão. Cresce na Baviera, província também tradicionalmente de votação bastante conservadora, sede a União Social Cristã, parceira mais à direita da União Democrata Cristã de Angela Merkel.

Dresden é o principal do berço do movimento de extrema-direita conhecido como “Pegida”, um acrônimo para “Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes” - “Europeus Patrióticos Contrários à Islamização do Ocidente”. Nela se reúnem em 15 de fevereiro de cada ano neo-nazis e outros militantes de extrema-direita em homenagem ao que chamam de “Holocausto de Dresden”, evocando o bombardeio da cidade (que muitos, não apenas neo-nazis, consideram um crime de guerra) por forças norte-americanas e britânicas de 13 a 15 de fevereiro de 1945, deixando um saldo aproximado de 25 mil mortos. O centro, que não tinha qualquer importância militar nem industrial, foi pulverizado e ardeu durante uma semana devido às bombas incendiárias. Por isto nunca foi possível determinar um número mais ou menos preciso de mortos, porque muitos foram literalmente “evaporados” pelo incêndio.

Uma ironia do destino: Daniel H. a vítima mortalmente esfaqueada no domingo, era filho de um pai cubano emigrado para a RDA, e era tido como uma pessoa de esquerda.



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