Cartas do Mundo

Carta de Berlim: O insuportável peso das estátuas

 

19/06/2020 12:51

Aeroporto de Tempelhof tornou-se um centro de refugiados (Gorden Welters/NYT)

Créditos da foto: Aeroporto de Tempelhof tornou-se um centro de refugiados (Gorden Welters/NYT)

 
Essa questão das estátuas, memoriais e monumentos é demais de complicada. É tão perigoso erguê-los como destrui-los, pois este último gesto pode significar também uma tentativa de apagar o passado. Além disto, a gente começa derrubando estátuas de escravistas e pode terminar destruindo Budas milenares, como fizeram os Talibãs e os adeptos da Revolução Cultural na China e no Tibete, décadas atrás.

Até a sua não realização pode ser problemática. Por exemplo: a cidade de São Paulo não tem um logradouro importante com o nome de Getúlio Vargas. Uma homenagem calada à democracia? Nada disso. Trata-se de um elogio nostálgico e silente à reacionaríssima revolta de 1932, liderada pela burguesia cafeeira de São Paulo que era contrária à industrialização que viria a beneficiá-la e detestava a legislação trabalhista planejada e já começando a ser implementada. É verdade que há uma “Cidade Vargas” e uma rua Getúlio Vargas Filho no Jabaquara. Também existem algumas pequenas ruas Getúlio Vargas em dois bairros da periferia da cidade e uma passarela com este nome perto da Fundação GV, uma espécie de “filial” (também há uma em Brasília) de sua “matriz”, que fica no Rio de Janeiro. E é só.

Vou ilustrar a complicação da coisa com alguns exemplos alemães.

Para começar, lembro que em seu excelente e indispensável livro “Germany: Memories of a Nation”, o ex-direitor do Museu Britânico, Neil McGregor, comenta que a Alemanha deve ser o único país no mundo que erige monumentos para recordar o que não deve ser feito. Exemplo: o Memorial aos Judeus Mortos da Europa, junto ao Portão de Brandemburgo, no coração de Berlim. Perto dali há o Memorial em homenagem aos homossexuais e o dedicado aos Roma e Sinti (que não gostam do nome “Ciganos”) vítimas do Nazismo. O primeiro a ser erigido e o maior dos três, o dos Judeus assassinados, foi motivo de polêmicas que se estenderam por quase uma década. Motivo: por que um monumento somente aos judeus, embora os nazis tivessem determinado a extinção deste povo? Por que não um monumento “às vítimas do nazismo”? Acabou prevalecendo a ideia da exclusividade, o que desencadeou, na sequência, a reivindicação por parte dos homossexuais e dos Roma e Sinti. Bem, todos os três memoriais são muito belos e tocantes, cada um à sua maneira.

Prossigamos. Como lembrou o meu amigo, professor Renato Janine Ribeiro, é verdade que não há, na Alemanha, estátuas em homenagem a Adolf Hitler. O que não quer dizer que não haja admiradores, ainda, deste personagem sinistro. Impossibilitados de fazer a tradicional saudação nazista, com a mão direita espalmada para o alto, o que é proibido, os fanáticos de hoje inventaram uma réplica, com a mão espalmada para cima, mas com dois dedos projetados para frente e dois para trás, em forma de “V”…

Já comentei em outra Carta de Berlim a existência de covas coletivas dos soldados soviéticos e guerrilheiros poloneses que morreram na tomada da capital nazista. Referi-me ao fato de que num deles - o do Treptower Park - há duas fileiras de enormes paralelepípedos de mármore, decorados com imagens em alto e baixo relevo alusivas à guerra e com frases de Stalin. Elas lá estão até hoje, sobrevivendo ao processo de desestalinização começado por Nikita Kruschev e ao de reunificação das duas Alemanhas. Motivo: aquilo é um cemitério, e mexer ali equivaleria a uma profanação de túmulos.

Falando em reunificação, o que houve, na verdade, foi uma anexação da Alemanha Oriental, derrotada politicamente, pela Alemanha Ocidental. Consumado este ato, houve uma remoção geral da estátuas e de rebatizado de ruas e praças. Algumas daquelas foram relegadas a depósitos até mesmo ao ar livre, onde jazem “adormecidas”. Outras, como a de Lênin que ornava a entrada da Legação Soviética, hoje Russa, foram levadas para museus. A de Lênin está no Deutsches Historisches Museum, em Berlim, e da última vez que lá estive ela ocupava espaço, orgulhosamente, no saguão de entrada.

Ainda na esteira da reunificação, colocou-se o problema do que fazer com as enormes estátuas de Marx e Engels que descansam num recanto da famosa Alexanderplatz. Decisão: ficam onde estão, porque eles eram alemães. Idem, permanecem as homenagens ao comunista Karl Liebknecht que, além da nacionalidade, foi assassinado pelos futuros nazistas. Problema derivado: e Rosa Luxemburgo que, apesar de figura proeminente da política alemã, assassinada com Liebknecht, era polonesa? Alguém lembrou: ela era judia - motivo forte, junto com seu assassinato, para ninguém bulir em sua memória.

O Estádio Olímpico de Berlim, construído pelos nazistas a partir de 1934, continua a prestar seus serviços, lépido e faceiro, embora tenha sido amplamente reformado. A proposta de reforma-lo depois da reunificação venceu a de demoli-lo. Um caso muito curioso é o Palácio dos Reis da Prússia, que era um dos orgulhos da cidade, perto da Alexanderplatz. Danficado durante a Segunda Guerra, foi demolido pelos comunistas triunfantes no lado Oriental, como um símbolo da opressão aristocrática da monarquia prussiana. Em seu lugar, as autoridades orientais fizeram construir o enorme Palácio da República, considerado muito feio por fora, mas parece que bem funcional por dentro. Concluída a reunificação, as autoridades da Alemanha, renascente como Fênix, decidiram demolir o prédio, considerado símbolo da opressão comunista. Depois de longo debate, no local está sendo construído novo prédio, que deve ser inaugurado ao final deste ano, com o nome de Humboldt Forum e que, ao que parece, deve reproduzir, em parte, algumas características do antigo Palácio da monarquia, todas estas operações realizadas ao custo de muitos e muitos zilhões de marcos orientais, marcos ocidentais e euros do século XXI.

Durante seu Império na Alemanha, Hitler idealizou reformar inteiramente a capital, criando, através de seu arquiteto favorito, Albert Speer, uma faraônica cidade chamada Germânia. Havia planos para construir prédios fabulosos, gigantescos arcos do triunfo, um anfiteatro para pôr no chinelo todos os outros do mundo, e assim por diante. Havia um problema: Berlim foi uma cidade construída em cima de uma região pantanosa, cheia de areais extensos. Poderia este terreno arcar com o peso das construções? Para averiguar a possibilidade ou o contrário, Speer mandou construir um imenso e pesadíssimo bloco circular, como teste inicial. O terreno aguentou o peso, mas veio a Guerra e o restante do projeto não saiu do papel. A Guerra terminou, e o bloco lá estava. Destrui-lo? Só com bombas, na já bombardeada Berlim, pondo em risco o que restava de pé nas imediações. O bloco lá ficou. E hoje está transformado num museu aberto à visitação. Pode-se examinar o plano arquitetônico da futura-nunca-construída Germânia de Hitler, subindo, inclusive, a seu terraço, onde há mapas que mostram onde seria construído o quê.

Caso demais de interessante é o do aeroporto de Tempelhof, ainda em atividade quando vim pela primeira vez a Berlim, em 1996, e nele cheguei. Planejado e construído ainda na República de Weimar, foi reformado e remodelado pelos nazistas com seus estilos faraônicos. Atravessou a Guerra e sobreviveu, considerado como um dos símbolos do Nazismo, e não de Weimar. Durante do começo da Guerra Fria, quando os soviéticos decidiram isolar Berlim Ocidental por terra, serviu para a ponte aérea norte-americana que abasteceu a cidade. Depois da construção do aeroporto de Tegel e da reunificação, principiou o debate sobre o que fazer com ele. Havia pressões para demoli-lo e abrir seu espaço para a especulação imobiliária. Não vingou. Hoje suas pistas servem de parque público, e seu prédio principal é utilizado como abrigo para refugiados do Oriente Médio. A propósito, ver o filme “Flughafen THF”, do brasileiro Karim Aïnouz, que ganhou o prêmio da Anistia Internacional na Berlinale de 2018.

Por estas e por outras considero a questão de estátuas e monumentos muito complicada. Jogar estátuas num rio ou no mar? De jeito nenhum. Pra quê polui-los mais? Destruir? Prefiro os museus como solução, se for o caso de remove-las. Argumento contrário que li: museu não é cemitério. Não? E as outras obras que lá estão, congeladas como se múmias fossem? Já vi em museu pedaço de osso de São João Batista, fios de barba de Maomé, fêmur de Anchieta, crânio de índio… etc.

Termino me referindo a caso análogo. Alguns anos atrás me perguntaram se eu era a favor de proibir o “Mein Kampf”, de Hitler. Respondi que não. Era favorável, sim, à realização de uma edição crítica, comentada, a cargo de alguma universidade, explicando a origem, o destino e as barbaridades do livro. Por quê, me perguntaram. Respondi: porque a gente começa proibindo o “Mein Kampf” e não sabe onde vai parar.



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