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Carta de Berlim: O neo-liberalismo europeu vem colhendo o que semeia - o neo-fascismo

 

03/07/2018 09:58

Omer Messinger/Agence France-Presse - Getty Images

Créditos da foto: Omer Messinger/Agence France-Presse - Getty Images

 
A chanceler Angela Merkel sempre foi mestra em colher bandeiras alheias, deixando seus adversários e até aliados sem chão. Assim aconteceu com os Verdes quando, logo depois do desastre de Fukushima, decidiu programar o fim da produção de energia elétrica em usinas nucleares no país. Assim também aconteceu com o SPD quando decidiu adotar um salário mínimo em nível nacional, coisa que não havia na Alemanha.

Mas agora ela está tendo que lidar com a pressão da extrema-direita em ascensão sobre a sua direita, tanto internamente, dentro da União Democrata Cristã (CDU), quanto externamente, na sua liada União Social Cristã (CSU), da Baviera, devido ao tema dos refugiados e imigrantes que buscam a Europa. Mais ainda: está tendo que lidar com a ascensão generalizada da extrema-direita na Europa como um todo, e agora em dois vizinhos, a Áustria e sobretudo a Itália.

Na semana retrasada, antes da cúpula da União Europeia, realizada na quinta e na sexta-feira, enfrentou a rebelião do seu ministro do Interior, Horst Seehofer, da CSU. Seehofer decidiu anunciar que não concordava com a política de abertura de Merkel em relação aos imigrantes e refugiados. Ameaçava sair e romper com o governo, caso Merkel não conseguisse um acordo sobre a questão com os demais países europeus. Merkel apressou-se a fazer uma reunião de emergência, dois domingos atras, com representantes de mais 15 países, a fim de consertar uma proposta a levar aos demais 13, durante a cúpula. Nesta, conseguiu um acordo considerado precário: atendendo a reivindicação do governo de direita da Itália, decidiu-se que haveria uma repartição, no futuro, através de quotas, dos imigrantes que chegassem àquele país e também à Grécia. A precariedade vinha do fato de que a adesão às quotas seria voluntária. A Hungria, a Áustria, a República Tcheca, a Polônia e mais alguns países logo disseram que não aceitariam novos imigrantes. Matteo Salvini, o ministro do Interior italiano, também anunciou logo que continuaria fechando os portos do país aos navios de ONGs que recolhem refugiados no Mediterrâneo (onde, somente neste ano, morreram mais de mil em naufrágios) durante todo o verão (que vai até o final de setembro). Assim mesmo, Merkel cantou vitória. Mas o canto teve pouca duração. De volta a Berlim, recebeu a resposta de Seehofer, que considerou o acordo insuficiente e ameaçou demitir-se. Seehofer está defendendo a CSU em seu estado, pois há nele eleições marcadas para outubro e o Alternative für Deutschland (AfD), de extrema-direta vem crescendo perigosamente e ameaçando a hegemonia daquele partido. Caso a demissão se concretizasse e a CSU de fato rompesse com o governo, este perderia a maioria no Parlamento, e como Merkel não deseja um mandato minoritário no Bundestag, seria inevitável a convocação de novas eleições, com a risco de que o AfD crescente mais ainda em nível nacional (hoje ele é o terceiro partido em número de cadeiras). 

O resultado do imbroglio foi que Merkel, para manter o governo e manter-se nele, fez todas as concessões possíveis a Seehofer. Estas envolvem a criação de campos de triagem para imigrantes e refugiados nas fronteiras da Alemanha. Aqueles que não tiverem papeis em ordem serão devolvidos a seus países; aqueles que já tiverem solicitado asilo a outro país europeu serão devolvidos a ele. Seehofer declarou-se satisfeito e decidiu permanecer no governo. Resta saber até quando, dizem muitos analistas por aqui.

O fato é que Merkel, embora ainda tenha alguns dos seus sete fôlegos, é uma estrela em declínio. Em ascensão está a estrela de Salvini, da Lega (ex-Lega Nord) italiana, que propôs, no fim de semana, a criação de uma “Liga das Ligas”, reunindo aqueles países que “queiram defender suas fronteiras”. Ele, na verdade, é um “homem forte” do governo italiano, diante de um primeiro-ministro algo pálido, Giuseppe Conte, do movimento 5 Estrelas, de Beppe Grilo. E cresce como uma nova liderança da extrema-direita no continente, diante dos algo desgastados Geert Wilders, da Holanda, e Marine Le Pen, da França.

Este movimento ameaçador da extrema-direita, abocanhando mais e mais governos, tem uma razão de ser. Durante os últimos anos as posições neo-liberais ganharam a hegemonia na União Europeia, impondo suas políticas de austeridade, com a ajuda da social-democracia convertida. Apesar de não terem a voracidade de suas congêneres latino-americanas e também norte-americanas, elas criaram um movimento tectônico nas diversas políticas europeias, estimulando o renascimento dos nacionalismos xenófobos e movimentos de “proteção” nacional diante da precarização do mundo do trabalho e da perda de poder aquisitivo consequente. Além disto, esta hegemonia dedicou-se a emparedar qualquer política que pretendesse mover-se para a esquerda, como no caso dramático da Grécia. 

O resultado só podia mesmo ser este: um caldo de cultura favorável à ressurreição, como nos filmes de vampiro, do monstro dentuço do neo-fascismo.





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