Cartas do Mundo

Carta de Berlim: O primeiro Gripen a gente nunca esquece

 

11/09/2019 12:41

(SAAB)

Créditos da foto: (SAAB)

 
A notícia ontem me pegou de supetão. A SAAB-Scania estava entregando o primeiro avião Gripen NG, comprado pelo Governo Federal, para teste de voos. É o primeiro de um lote de contratados 26.

Fui tomado de forte emoção: afinal, eu fui o primeiro brasileiro a pilotar um Gripen, ainda que de mentirinha. Escrevi várias reportagens sobre este contato, contrato e acordo.

Tudo começou em abril de 2010, quando Celso Horta, editor da então projetada INOVABCD, me contatou por skype, para fazer uma matéria que deveria sair no número 0 da revista, aquele experimental.

Tratava-se de interferir na escolha do protótipo avião a ser comprado para a FAB, com o fito de renovar nossa frota protetora do espaço aéreo territorial e marítimo. Além da candidatura do Gripen da SAAB/Scania, concorriam o Rafale da Dassault francesa, e o Hornet, da Boeing norte-americana. O Rafale era o preferido do então ministro da Devesa, Nelson Jobim. Os oficiais e técnicos da FAB preferiam o Gripen. E a pressão da Boeing (que acabaria se apropriando da EMBRAER) e dos noite-americanos era enorme.

O ministro Nelson Jobim lançou um desafio, dizendo que o Gripen NG existia apenas no papel. Como as perspectivas da aquisição do modelo sueco eram promissoras para o ABCD, o Sindicato dos Metalúrgicos estava interessado em averiguar a realidade do Gripen.

Então lá fui eu - um pacifista que participara de marchas contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos, em 1964 e 1968 - examinar um protótipo projetado de um avião de guerra. Confesso que tive algumas horas a mais de insônia por causa disto.

A fábrica do Gripen - que fabricava alguma de suas peças fundamentais e reunia outras - fica em Linköping, no sul da Suécia. Fui, vi e voei. Entrevistei um pacote de gente, de executivos da área de contatos, marketing e comércio, a oficiais da Força Aérea e CEOs da empresa in loco, passando por incubadores de cooperativas ligadas ao setor e relações públicas. A propósito: um dos entrevistados foi Stefan Löfven, então presidente do Sindicato Nacional dos Metalúrgicos da Suécia e hoje primeiro-ministro social-democrata do país.

Fiquei convencido de que o Gripen existia, o novo modelo NG era um projeto realista, e de que sua contratação para a defesa do nosso território era atraente. Não só isto: na sala de simulação de voo, pilotei um, monitorado por um técnico da área. Levantei voo, fiz cabriolas que me deixaram um pouco enjoado, atirei um míssil derrubando um avião amigo e consegui aterrissar o aparelho sem arrebenta-lo no chão. E fui escrevendo e reescrevendo a respeito.

Depois o Luiz Marinho, então prefeito de São Bernardo, foi lá e voou num avião real, cm direito a foto de macacão e tudo. Mas com um piloto que se encarregou da operação. Não pilotou. Sorry, periferia.

A aquisição do Gripen enfrentou séria resistência, tanto à direita quanto à esquerda. Aquela preferia o modelo norte-americano, no máximo o francês. Esta perguntava por que não comprar modelos russos ou chineses, num saudosismo do tempo em que a Rússia era o epicentro da União Soviética e a China era um país comunista. Mas tudo se enfeixava, tanto de um lado quanto do outro, num desejo de enrascar o governo de Dilma Roussef, naquele esforço de sabota-lo, o que levaria a seu desastroso impeachment no golpe de estado de 2016.

Apesar de tudo, agora o modelo está pronto e vai levantar voo, para treinamento de pilotos brasileiros.

Esperemos que tudo dê certo.

Porque o que narro se passou num tempo em que o governo federal do Brasil e o Itamaraty prezavam o soft power, a linguagem diplomática e a soberania, ao invés da truculência, da subserviência em relação aos Estados Unidos, do elogio da ignorância e da grosseria.



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