Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Polícia: direita, volver!

 

17/09/2020 14:37

Beate Zschaepe chega para seu julgamento em um tribunal em Munique, em 6 de agosto de 2013 (AFP)

Créditos da foto: Beate Zschaepe chega para seu julgamento em um tribunal em Munique, em 6 de agosto de 2013 (AFP)

 
Em novembro de 2011 a polícia do estado da Saxônia, no extremo leste alemão, fronteira com a Polônia e a República Tcheca, estourou uma célula de três militantes neonazis. Dois deles se suicidaram, de acordo com o relato oficial: Uwe Börnhardt e Uwe Mundlos. A terceira foi presa depois de incendiar a casa onde o trio vivia: Beate Zschäpe. Em 2018 ela foi sentenciada à prisão perpétua por assassinato e incêndio criminoso.

O trio militava numa organização conhecida como National Sozialist Untergrund. Durante dez anos viveram na clandestinidade. Assassinaram uma dezena de estrangeiros, na maioria turcos, e uma policial que se recusou a colaborar com o grupo. Também assaltaram bancos, e foi num destes assaltos que foram surpreendidos e cercados pela polícia.

Além dos crimes cometidos, o que também chocou quem tomou conhecimento do caso, foi a zona cinzenta de interface entre eles e o aparato policial, envolvendo também membros do serviço secreto federal e local de inteligência. O grupo atuou por mais de uma dezena de anos. Durante todo este tempo a polícia ficou buscando uma inexistente “máfia turca” como responsável pelos crimes. Depois da morte dos dois Uwe e da detenção de Beate, uma série de documentos dos serviços secretos foram destruídos inexplicavelmente. Reputações também foram destruídas; houve renúncias e destituições dentro destes serviços secretos. Veio à luz uma complicada trama de cumplicidades com grupos de extrema-direita dentro do aparato policial, sem o que o trio não teria sobrevivido impune durante tanto tempo.

Mais: também vieram à tona dois complicadores da situação. Primeiro: durante anos o serviço de inteligência alemão se concentrara em observar e investigar os grupos de esquerda e muçulmanos; a externa-direita fora negligenciada. Segundo: a prática de infiltração por parte dos organismos policiais alemães em relação aos grupos extremistas dificultava as medidas judicias cabíveis, pois era difícil deslindar o que era iniciativa própria dos militantes do que era o esforço por demonstrar autenticidade por parte dos agentes infiltrados.

Enfim, o que veio à tona foi a ponta de um iceberg: o da negligência, para dizer o mínimo, ou de cumplicidade, para dizer o máximo, por parte de agentes “da lei e da ordem” com a extrema direita alemã.

Desde então o volume do iceberg não parou de crescer. As atividades e ações dos grupos extremistas de direita não pararam de crescer, nem em quantidade, nem em ousadia. A pandemia do Corona agravou o caso. A extrema-direita internacional e local assumiu a luta contra as medidas sanitárias propostas pela Organização Mundial de Saúde como bandeira sua, nos moldes da atuação nefasta de Bolsonaro no Brasil. Grandes manifestações aconteceram em Berlim, na capital. Na primeira, segundo a polícia, havia 17 mil pessoas. Na segunda, 20 mil. Nesta, duas semanas atrás, uma parte dos manifestantes tentou invadir o Reichstag, sede do Parlamento Federal Alemão, um ponto sensível devido ao famosos incêndio criminoso do prédio em 27 de fevereiro de 1933, que os nazistas atribuíram a um militante comunista holandês, mas que hoje é atribuído por várias fontes aos próprios nazis.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se as evidências da colaboração de membros dos aparatos policiais com o neo-nazismo. Casos escandalosos vieram à luz do dia. Dados considerados sigilosos sobre esquerdistas e outros, da polícia do estado de Hessen, no sudoeste alemão, foram repassados a grupos neonazis, que os utilizaram para fazer ameaças contra aqueles. Uma unidade de elite do Exército Alemão foi desfeita devido a uma massiva inflitração de extremistas de direita. E mais recentemente 29 policiais da estado da Renânia do Norte-Westfália foram suspensos depois da descoberta de que trocavam em seus aparelhos de WhatsApp imagens de Adolf Hitler e montagens mostrando refugiados atuais numa das câmaras de gás utilizadas para a eliminação de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

As autoridades alemãs afirmam que os casos são pouco numerosos em relação ao conjunto do aparato policial alemão. Porém sua constância e distribuição pelo país, junto com a crescente atividade dos grupos extremistas identificados como neonazistas, demonstra o alcance da tendência. O ministro do Interior (encarregado da segurança), Host Seehofer, ex-primeiro-ministro da Baviera e um dos possíveis sucessores de Angela Merkel, admitiu que hoje a atividade destes grupos de direita é a maior ameaça à democracia alemã, coisa que há algum tempo ele relutava em reconhecer.

Há uma tendência cultural disseminada na Alemanha, tanto à direita como ao centro e à esquerda, em ver o país como uma ilha de virtude cercada por um oceano de problemas, instabilidades e falhas de todo tipo. A Alemanha e os alemães, segundo este auto-retrato, são eficientes, seguros, organizados, democráticos, responsáveis, etc. em comparação com os desorganizados, confusos e instáveis “outros europeus”, sem falar no resto do mundo. É claro que há a contrapartida desta “visão paradisíaca”: não raro vêm à tona imagens distópicas dos vários infernos do passado, além de outras do presente, como uma maldição intransponível do “ser alemão".

O que este surto de extrema-direita - até o momento combatido sempre que detectado - mostra é que a Alemanha não é uma ilha, mas faz parte das correntes de contradições que percorrem o mundo inteiro.



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