Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Prefeitura quer congelar alugueis em Berlim. Direita reage.

 

22/10/2019 12:36

Complexo residencial em Berlim (Carsten Joall/DPA)

Créditos da foto: Complexo residencial em Berlim (Carsten Joall/DPA)

 
O mundo ferve: Chile, Equador, Haiti, Líbano, Catalunha, Hong Kong. Parece prevalecer a máxima anarquista: “Hay gobierno, soy contra”. Enquanto isto, Evo Morales se reelege na Bolívia, um primeiro-ministro de centro-esquerda é eleito no Kosovo, no domingo próximo o peronismo deve retornar à Casa Rosada e a Frente Ampla deve permanecer no governo do Uruguai. Na Polônia a direita levou mas a esquerda cresceu na última eleição; na Hungria, Orban, o espelho de Bolsonaro, perdeu Budapest; na Suíça, a direita permaneceu no poder, embora perdendo votos mas, seguindo tendência de outros países europeus, os Verdes cresceram. Em Portugal a Geringonça ganhou as eleições. No Reino Unido, o confuso Boris Johnson está empacado, o mesmo acontecendo com Netanyahu em Israel. Em suma, os mantras supersticiosos defendidos por Paulo Guedes e Bolsonaro para o Brasil fazem água no mundo inteiro. Enquanto isto, as praias do Nordeste também fazem água, ou melhor, óleo, e o presidente se preocupa mais em defender a ditadura de Pinochet, fechando os olhos para o maior desastre ambiental do litoral brasileiro.

Berlim também ferve, a seu modo. Nas últimas semanas as ruas da capital alemã testemunharam um crescendo de manifestações verdes, chamando a atenção para a ameaça climática que paira sobre o mundo inteiro. Diversas ruas e avenidas foram paralisadas durante horas e horas, sob o olhar vigilante mas compreensivo da polícia local. Não houve violência de qualquer tipo, de parte a parte. Em alguns momentos, houve até confraternização.

E há uma outra efervescência. A Prefeitura da cidade (aqui chamada de “Senado”), liderada por uma rara coligação de centro-esquerda, entre o Partido Social Democrata, os Verdes e a Linke, quer aprovar uma lei que praticamente congela os alugueis da cidade por cinco anos. A medida já foi proposta e precisa de aprovação na Câmara da cidade-estado. Além disto, o partido Die Linke propõe-se a estudar casos em que os aluguéis poderiam ser rebaixados. A medida enfureceu os partidos e segmentos conservadores da cidade e do país. Alegam que os direitos dos proprietários estão sendo prejudicados, e prometem arguir sua constitucionalidade.

Em comparação com outras capitais europeias, os alugueis berlinenses são muito baratos. Nada comparáveis aos de Paris, Londres, Moscou, mesmo outras cidades alemãs, como Hamburgo, Munique e Frankfurt. Aliás, um dos temores dos conservadores alemães é que estas outras cidades, e ainda Colônia, Düsseldorf, Dresden, etc,, sigam o exemplo berlinense, se bem sucedido.

Apesar do custo comparativamente baixo, Berlim vem passando por um intenso processo inflacionário nos últimos anos. Em alguns bairros, sobretudo no centro da cidade (bairro Mitte, por exemplo), nos últimos 12 meses os alugueis subiram 30%. Significativamente, a grande maioria dos berlinenses não é proprietária dos imóveis em que vivem. Tal situação remonta aos tempos do pós-Segunda Guerra. Quando esta terminou, pelo menos 70% das vivendas berlinenses eram inabitáveis. Além dos bombardeios aéreos contínuos, as casas e edifícios foram pesadamente danificados pela luta in loco, quando as tropas soviéticas tomaram a cidade, disputando cada quarteirão, cada prédio, cada quarto em alguns casos. A reconstrução foi árdua (com uma grande participação das mulheres) e demandou pesados investimentos nacionais e internacionais. Uma grande parte da população masculina morrera na guerra. Muitos prédios são até hoje propriedade de consórcios públicos ou de administração mista.

Sobre este quadro atípico em matéria de capitais europeias, soma-se a realidade da atual especulação imobiliária. Desde a reunificação e a volta de Berlim ao status de capital, a cidade vem sofrendo um processo acelerado de gentrificação, com o concurso de diplomatas, executivos alemães e estrangeiros, que foi acelerado depois da crise de 2008, com muitos outros estrangeiros comprando imóveis a preços comparativamente baratos em bairros populares, como Kreuzberg. Bairros operários, como Plentzlauerberg, tornaram-se bairros disputados pelas classe mais abastadas.

Este processo de gentrificação atingiu até o trânsito da cidade: há trinta anos atrás Berlim desconhecia engarrafamentos. Hoje, apesar da amplitude do transporte público, os gargalos de trânsito se tornaram comuns, embora estejam ainda longe dos de outras cidades, como São Paulo, ou mesmo Nova Iorque, Paris ou Moscou.

No espectro político alemão, Berlim continua a ser uma cidade “de esquerda”. Com a reação que vem se esboçando na Europa ao avanço das direitas e extrema-direitas, esperemos que ela prossiga neste caminho.






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