Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Prossegue o Diário a bordo do Cruzeiro Corona-Vírus

Onde se anuncia nova dupla sertaneja, formada por ex-ministro e fake-presidente, e se comemora o 46º aniversário da Revolução dos Cravos

27/04/2020 13:05

 

 
Sexta-feira, 24 de abril, 11h30 (hora de Berlim). Alemanha: casos - 153.129; atualmente, 40.754; casos graves ou muito graves no momento to - 2.908; mortes - 5.575; altas - 106.800.

Lendo o noticiário brasileiro, me lembrei de uma musiquinha: “o Moro vai, o Moro vem, o Moro vai e vem”… Decididamente, o (des)governo de Bolsonaro é pan-demoníaco. Parece “A Casa de Orates”, comédia dos irmãos Artur e Aluísio Azevedo, escrita e encenada em 1882. Nela os personagens acabam num manicômio onde se sucedem os quiproquós mais enredados e confusos. Mas a semelhança cômica termina aí. Primeiro porque na peça tudo acaba bem; e se tem algo que não vai acabar bem, é o governo Bolsonaro. Segundo, porque para fora da Casa de Orates em que se transformou o Palácio do Planalto e arredores, o que acontece é uma tragédia para o povo brasileiro, que só não é maior devido ao SUS, à dedicação dos profissionais da saúde e cientistas conexos, ao bom senso de muitos governadores e prefeitos, mesmo do campo conservador, e também ao bom senso da maioria da população, apesar dos pandorgas, tresloucados e canalhas que fazem carreatas e buzinaços era frente a hospitais e passeatas em frente a quartéis, pedindo uma ditadura, como Bolsossauro Rex não lhes bastasse.

Por aqui em Berlim e arredores (Alemanha e Europa) estamos vivendo o momento mais delicado desta crise: aquele em que o isolamento começa a ser afrouxado. Na verdade ninguém sabe muito bem o que vai acontecer. A República Tcheca aqui ao lado (a fronteira fica a cerca de 150 km ao sul de Berlim) resolveu abrir tudo a partir da próxima semana. Os voos internos estão liberados, os para fora do país dependem das restrições nos locais de destino. Exigência para quem chega na República: apresentar um atestado negativo quanto ao Corona ou ficar de quarentena pelo prazo recomendado pela OMS, 14 dias. Encontros de até 10 pessoas estão liberados.

Ao redor de nossa casa diversas lojas começam a abrir suas portas e vendas. Nos parques ensolarados a frequência aumenta. Idem, nas praças e ruas. Muita coisa ainda está fechada: cinemas, teatros, escolas, hotéis. Formalmente os encontros de mais de duas pessoas em espaço público continuam proibidos, mas estão acontecendo mais e mais.

Dá insegurança. Li uma informação inquietante num jornal de Portugal: mais de metade das mortes por Corona-Vírus na Europa aconteceram em lares de idosos. É possível confirmar? Não sei. O diretor-presente da empresa aérea Ryan-Air afirma que a tentativa de impor uma regra de isolamento em aviões (o banco do meio nas filas de 3 deveria ficar desocupado) é “idiota”. A discussão sobre se isto é possível, conveniente ou não, pode ser relevante. Mas me assusta o termo usado: “idiota”. Mostra uma certa gana gananciosa. 

Paira sobre tudo um pêndulo que oscila entre as previsões cautelosamente otimistas e as assustadoramente catastróficas.

As primeiras falam de um mundo mais solidário, com a revisão dos paradigmas econômicos e políticos brutais que nos cercam por todos os lados. As segundas, de um mundo distópico, varrido por conflitos sociais incontroláveis, dominado pelos charlatães que os políticos conservadores mobilizam para apoiar suas idiossincrasias genocidas em relação aos mais pobres, além de ser este mundo movido por uma ou várias guerras de todos os tipos de todos contra todos.

Confesso que no momento minha preocupação maior é chegar ao fim de semana, sobreviver a ele, e ver como tudo fica na segunda-feira.

PS, 16h15. Moro não caiu. Despencou, depois de levar uma rasteira. De novo, como no caso de Mandetta, Bolsonaro acha que venceu a queda de braço. Esquece que o importante nem sempre é vencer, mas sair ganhando. Não saiu. Aliás nem Moro, que se emaranhou no pior governo da História do Brasil, pior até do que os das Capitanias Hereditárias.

Sábado, 25/04, 11h00. Alemanha: 155.054 casos, 5.767 fatais, 109.800 altas. Casos atuais: 39.487. Graves ou muito graves: 2.908.

No Brasil houve um tempo em que política era coisa para gente grande. Inclusive nos momentos de grande crise e de gestos extremos. Bom, isto era no tempo em que general que se prezava podia até virar ditador, mas não dava chilique, como o augusto Augusto Heleno. Pedro I abdicou e foi ser herói libertário em Portugal. Deposto, Pedro II seguiu para o exílio e recusou a pensão que o governo brasileiro lhe ofereceu. Também deposto, Washington Luís seguiu para o exílio nos Estados Unidos, onde ficou por 17 anos. Aliás, conheci o piloto do avião que o levou para o exílio, casado com uma prima de meu pai. Deposto pela primeira vez, Getúlio se retirou para o alpendre de sua estância em São Borja, de onde continuou a fazer política, sendo um dos responsáveis pela vitória de seu inimigo, o general Eurico Gaspar Dutra, derrotando o Brigadeiro Eduardo Gomes (da campanha “vote no Brigadeiro; ele é bonito e é solteiro”, e padrinho de batismo do doce que leva seu nome em quase todo o território nacional, exceto no Rio Grande do Sul, onde é conhecido como “negrinho”). Ameaçado de uma segunda deposição, Vargas deixou a vida e entrou para a História. João Goulart também se exilou, só retornando ao país depois de morto. Ao tomar posse no lugar de Tancredo, Sarney reconheceu que “teria de ser maior do que ele mesmo”. Não foi, mas a tirada foi boa. Dilma Rousseff saiu pela porta da frente do Palácio em que Michel Temer entrou pela dos fundos.

É verdade que também tivemos cenas patéticas ao longo de nossa história. Até hoje há insinuações de que em 1955 Café Filho simulou uma doença para se licenciar da presidência, abrindo caminho para que o então presidente da Câmara Federal, Carlos Luz, desse um golpe parlamentar e impedisse a posse de Juscelino Kubitschek - tentativa abortada pelo contra-golpe dado pelo General Lott. Também até hoje ninguém sabe exatamente o porquê da renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Há duas hipóteses maiores: 1 - Queria dar um golpe e voltar à presidência nos braços do povo, com poderes ditatoriais. 2 - A versão dada pelo General Golbery: “ele renunciou porque faltou alguém que o trancasse no banheiro”. Figueiredo quis sair na porrada com os estudantes em Florianópolis. Disse vários estrupícios, alguns impublicáveis aqui. Collor se inebriou no poder e acabou tendo que renunciar pra não sofrer um impeachment. Diz que FHC mandou esquecer o que Fernando Henrique Cardoso escrevera. Ele desmentiu, mas não convenceu.

Entretanto nada supera o que se assistiu ontem: dois chorões choramingando e se fazendo cada um de vítima do outro. Primeiro foi o Moro, renunciando em meio a um auto-elogio de sua passagem pelo ministério, um verdadeiro selfie apologético, onde, entre outras coisas, confessou ter pedido uma pensão ilegal para sua família no caso de seu passamento, e se colocando como vítima das pretensões indevidas do presidente que ele ajudou a eleger e a blindar, disputando o título de ministro da Justiça mais nulo e subserviente da história. Depois foi a vez do presidente, choramingando que o ministro e a PF deram mais atenção ao caso Marielle do que a facada que levou, além de outras choradeiras repulsivas. Para completar o quadro, na sequência apareceu um tuíte do seu guru, Olavo de Carvalho, exigindo a punição de Moro e, como sempre, apelando para seu vocabulário chulo, oriundo de uma fase anal que ele, pelo visto, não conseguiu ultrapassar.

Do quadro deprimente oferecido pelo presidente (a rima é proposital) ficaram algumas perguntas que não querem calar. Por que os presentes, que mais pareciam um coro de patetas, não guardaram a distância regulamentar nestes tempos de Corona-Vírus? Estariam todos já contaminados? São tão corajosos que não temem a “gripezinha”? Por que Guedes era o único de máscara? Seria por covardia? Ou par destoar do conjunto? Porque ele era o único naquele mar de machezas que não vestia paletó? E estava sem sapatos? Parecia ter saído do quarto de dormir, poderia até estar de chinelos e pijama. Eu conhecia a figura do ministro sem pasta. Esta foi primeira vez em que deparei com um ministro sem sapato. Bom, houve o precedente de um ministro de Relações Anteriores que tirou os sapatos na imigração norte-americana.

Naquela encenação ministerial, que incluía o vice, de apoio ao presidente, o que faziam o deputado federal Helio Negão e o vereador Carluxo? Estariam ali para segurar a mão do presidente depois do espetáculo? Porque este deve ter exaurido suas forças e derretido vários dos seus poucos neurônios para falar tanto tempo sem tele-ponto. 

No entrementes, ou depois que tudo passar, o ex-ministro e o fake-presidente poderiam formar uma dupla sertaneja: Choramingo e Choramico. Com General Chilique na viola. Sucesso garantido.

Uma coisa é certa: tratou-se de uma luta entre projetos torpes. O de Moro era fazer do ministério e a da PF puxadinhos da Lava Jato, alavancando suas ambições rumo ao Supremo ou à Presidência. O de Bolsonaro é, e ainda é, o de fazer da PF uma sucursal da famiglia e das suas milícias.

Que coelhos sairão de toda esta cartolagem? Por ora ainda é impossível dizer. Só se pode dizer que ambos, Moro e Bolsonaro, foram para o tudo ou nada, pagando para ver. O ex-ministro tem seu próprio projeto ambicioso de poder, e vai disputar com Doria a vaga de Bolsonaro. Este quer se manter na linha de flutuação, com sua malta familiar, que lhes garanta uma eventual proteção disciplinar por parte dos militares que, tão discretos quanto vorazes, ocupam mais e mais espaço dentro de seu governo.

Na sequência, Moro correu para o colo da Titia Globo. Bolsonaro vai correr para os abraços mais corruptos do Centrão. A ver.

Enquanto isto, o povo e os demais que se lixem e cuidem do Corona. Os velhos, hipertensos e diabéticos, que se convençam de que mais cedo ou mais tarde vão morrer mesmo. E os generais que se cocem com e acomodem as pulgas dos quartéis. 

Mas hoje é o eterno 25 de abril, dia em que, parodiando Fernando Pessoa, nasceu um novo tempo, e bem melhor do que aquele que passou… 

Tenho duas histórias para contar sobre o 25 de abril. Uma me foi contada pelo saudoso escritor português José Cardoso Pires, num dia memorável de 1975 em que, descobrindo-nos velhos amigos de longa data, mas que nunca nos encontráramos até então, nos encharcamos de conhaque num bar no centro de São Paulo, durante uma tarde inteira. Disse-me ele que na noite de 24 para 25 de abril de 1974 estava ele em sua casa, posto em sossego, colhendo da liberdade o doce fruito, quando soou o telefone. Atendeu. “Está lá?”, perguntou, do outro lado da linha, a voz de uma amiga comunista que vivia na clandestinidade. “Estou”, respondeu ele. “José, chegou a hora”, disse a voz, e desligou. Continuou ele sua narrativa: "Minha mulher me perguntou quem era. Eu disse, e disse-lhe do ‘chegou a hora’. O que isto quer dizer, perguntou-me minha mulher. Não sei, respondi, provavelmente vou ser preso de novo. Arruma-me uma maleta, com peúgas, calções, escova de dentes, estas coisas. Ficamos esperando. Dali a algum tempo, tocaram à porta. Abri. Apareceu-me um oficial, com um soldado, atrás, fuzil ao ombro. Voltei-me para minha mulher, e lhe disse: ‘chegou a hora’. O oficial entrou, deu-me um abraço, e me disse: ‘camarada, chegou a hora. Esta é uma revolução democrática. Queremos que o camarada nos acompanhe até a televisão para fazer um pronunciamento'. Eu estava proibido de ir à televisão. Mas fui. Embaixo, deparei com um caminhão militar, com alguns conhecidos dentro. Perguntei: ‘o que está a acontecer'? Um deles me respondeu: ‘chegou a hora’. E lá nos fomos para a TV. Nada aconteceu. Pelo amanhecer, escusei-me para ir ao toalete, e consegui escapulir. Saí pela cidade. Liguei para minha mulher, e disse-lhe que voltaria para casa pelo meio dia. O que se seguiu foi memorável. Encontrei a tropa chefiada por Otelo Saraiva de Carvalho. Entramos juntos na sede da PIDE, a libertar os prisioneiros e a prender os carcereiros. Voltei para casa 3 dias depois, e minha filha também saiu e não voltou até hoje”.

Voltemos a Fernando Pessoa: o nevoeiro se dissipara, e a Hora chegara. Literalmente.

A outra história é minha. Em dezembro de 2004 fui a Valencia, na Espanha, , com uma equipe da Carta Maior, fazer a cobertura para TV do I Fórum Mundial pela Reforma Agrária, organizado pela Via Campesina. Era a primeira cobertura internacional com transmissão direta de TV que fazíamos. Havia gente do mundo inteiro. Nos intervalos dos debates, havia trilha sonora, e tocava Grândola, Vila Morena, de José Afonso, sem parar: uma das duas canções que serviram de senha para a Revolução dos Cravos em 1974, tocada na Rádio Renascença. A nossa presença, com as câmaras de TV, foi marcante. Todo mundo do mundo inteiro queria “aparecer na TV”. E no meio das transmissões, eu lasquei, no ar: “esta canção, ‘Grândola, Vila Morena’, está se tornando um verdadeiro hino mundial da luta pela reforma agrária’. Chegamos a fazer uma gravação da sua letra traduzida para o catalão ou valenciano. Explico a dúvida: perguntei ao Pep, amizade que fiz por lá (eu o chamei de Pepe, e ele me corrigiu: “Pepe é espanhol), qual era, afinal, a língua regional da cidade. Ele me explicou: “é o catalão; mas não diga isto a ninguém; diga que é o valenciano”.

Pois bem, em janeiro do ano seguinte, o Fórum Social Mundial retornou a Porto Alegre, seu berço em 2001, e lá estávamos fazendo a cobertura. Fomos registrar a reunião da Via Campesina. Começada a abertura, o líder da organização, o hondurenho Rafael Alegría, pediu aos presentes (umas duas mil pessoas de todos os continentes, num barracão enorme, à beira do Guaíba) que ficassem de pé, e anunciou: “Ahora oiremos el hymno internacional de la Reforma Agraria, Grândola, vila morena”, e entraram os acordes iniciais da canção… Senti-me o pai bastardo de um hino legítimo...

Por hoje, paro por aqui.

Domingo, 26 de abril, 12h00. Alemanha, casos: 156.513. Fatais: 5.877. Altas: 109.800. Casos atuais: 40.836. Graves ou muito graves: 2.570.

Os números acima indicam estabilidade. É mesmo o momento mais arriscado, sobretudo para quem está no grupo de risco. O afrouxamento das restrições, que era para ser “lento, seguro e gradual”, está se tornando rapidamente “amplo, geral e irrestrito”. As bases do apressamento são conceitualmente as mesmas utilizadas pelos Bolsonaros e bolsonaristas no Brasil, embora sem o estardalhaço e as estúpidas patifarias destes. Estima-se, ainda sem fundamento, que a rápida contaminação de todo mundo criará defesas e imunidades naturais. Há um estudo feito sobre a cidade de Heinsberg, na fronteira com a Holanda (província da Renânia do Norte-Westfália), uma das mais afetadas pela doença, que vem sendo utilizado como argumento. No entanto, outros especialistas contestam a validade do estudo e dos argumentos, apontando que as conclusões favoráveis ao apressamento da abertura são prematuras, porque não se sabe, por exemplo, se a contaminação pelo Corona-Vírus gera, de fato, imunização. Entre outras razões, porque as mutações do mesmo são muito mais rápidas do que a de outros primos da família. Há outros casos que se apóiam nestas crendices: por exemplo, a crença de que tendo-se pego malária uma vez, segue-se a imunização. Ledo e ivo engano, como se dizia.

O que está havendo, na verdade, é um sentimento de imunização contra a gravidade da presente situação. No tempo veloz de nossa percepção do mundo de hoje, ninguém gosta de perceber notícias muito ruins e duradouras. As estimativas mais confiáveis, de um ponto de vista abalizado cientificamente, dizem que poderemos conviver com períodos intermitentes de isolamento, pelo menos para os grupos de risco, durante dois ou três anos, até que se amplie o conhecimento sobre esta cepa de vírus o suficiente para que se possa produzir uma vacina eficaz. A convivência com a Gripe Hespanhola, para respeitar a grafia da época, durou três anos, de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Um pesadelo.

Penso também que o cansaço com o isolamento, paradoxalmente, vem do grau de individualismo com que nos acostumamos a viver. Aqui na Alemanha, por exemplo, vige o costume de que os jovens, ao atingir a maioridade, “saem de casa”, o que torna a convivência deles com velhos muito restrita. Não conhecem a velhice. Dou um exemplo: é muito raro, no metrô ou num ônibus, ver-se um jovem alemão ceder o lugar a um velho, mulher grávida ou alguém com dificuldade de locomoção. O desprezo parece ser consensual. Ocupam inclusive os lugares supostamente reservados para os mais débeis, e se lixam para estes.

Dois anos atrás morreu um velhinho de 85 anos num apartamento vizinho ao nosso. Outro vizinho, um iraniano que cuida de tudo aqui no prédio, se encarregou da cremação, das flores, do depósito das cinzas num cemitério aqui perto, etc. Pagou tudo de seu bolso. 400 euros. Descobrimos então que ele tinha dois filhos, que viviam em Berlim, e que nunca tinham dado as caras por aqui. E não queriam reembolsar o iraniano! Afinal, o advogado que cuidou do espólio, convenceu os dois que era melhor ressarcir as despesas, sob pena de sofrerem um processo e de ele não poder defende-los. Foi um choque geral para nós.

Assim pode ser a vida. E a morte.

Ainda que sem a extensão da Gripe Hespanhola, o Corona está estendendo a percepção da morte como algo “natural”. Ponho entre aspas porque se trata sempre, para quem reage desta forma, da morte dos outros. Lógico que a morte é algo “natural”, basta estar vivo. Mas por que o desprezo pela dos outros?

Lembrei-me de um debate na televisão, uns quatro anos atrás, entre duas senhoras aposentadas e um empresário e uma empresária “jovens”. Estes dois diziam despudoradamente: “nós não vamos pagar pela aposentadoria de vocês”… As duas retrucaram: “um dia vocês vão envelhecer…”.

Em todo caso, o Corona está expondo o modo inconsistente com que, no mundo da pressa virtual, se encara a passagem do tempo. Muita e muita gente quer que se estenda simplesmente o presente, sem rugas no rosto…

Até amanhã. 

Segunda-feira, 27/04, 11h30. Alemanha: 157.770 casos, 5.976 fatais, 114.500 altas. Casos em tratamento: 37.294, 2.570 graves ou muito graves.

Os números acima indicam estabilidade, com pequena redução da velocidade de expansão.

A política de afrouxamento prossegue, e provoca polêmicas. Algumas escolas vão reabrir classes equivalentes ao nosso antigo colegial, com regras de distanciamento e limites de alunos por sala. Noticia-se a abertura próxima de creches e níveis escolares mais baixos. Alguns pais já anunciaram que não enviarão os filhos para as escolas.

A partir de hoje é obrigatório o uso de máscaras em Berlim, pelo menos no transporte público e em recintos fechados.

Na Itália as escolas permanecerão fechadas até setembro. Na Espanha , pela primeira vez em seis semanas, foi autorizada a saída de crianças à rua durante uma hora por dia.

Estamos deixando o "ritmo da nau de Colombo rumo ao desconhecido”, dividido entre a correria do micro-tempo (o dia-a-dia) e a aparente imobilidade do macro-tempo (os prazos de isolamento, etc.), e provavelmente entrando no "ritmo de gangorra”, do vai-vem. A província de Brandemburgo, a que se situa em torno de Berlim, e foi das de abertura mais rápida, registrou aumento do número de casos durante o fim de semana.

A pressão para apressar a abertura aumenta; a insegurança também. De nossa parte, com quase 73 e 66 anos, vamos continuar nossa política interna de confinamento e “evitância” de contatos diretos. É hora de jogar na retranca. 

A chanceler Angela Merkel confessa que está assustada. Mas no clima federativo que impera na Alemanha, pouco pode fazer. Curioso: é o contrário do caso brasileiro, onde a autonomia dos municípios e estados vem minorando os efeitos da irresponsabilidade presidencial.

Na frente política, saíram vários comentários na mídia internacional, inclusive aqui na Alemanha, sobre a crise política brasileira, todos criticando Bolsonaro, apontando a fragilidade de seu governo e seu caráter de ser cada vez mais prisioneiro dos militares. Todos apontam as dificuldades da situação econômica do país. E há previsões de que a economia irá de mal a pior daqui para a frente. O fato de a China comprar mais soja dos Estados Unidos e menos do Brasil é apenas a ponta do iceberg. Graças ao comportamento irresponsável do presidente e seus seguidores mais fanáticos diante da pandemia, o Brasil pode vir a se tornar um pária não apenas político mas também econômico na coreografia mundial de convívio prolongado com o Corona-Vírus sem vacina protetora.

O caso brasileiro, no entanto, ilustra dramaticamente um problema mundial. A subestimação dos riscos de uma pandemia tornou-se, ela própria, uma espécie de pandemia política internacional, em época de globalização e multiplicação dos transportes aéreos e das viagens. Esta subestimação, aponta o historiador da Medicina Frank Snowden, da Universidade de Yale, em entrevista à revista Der Spiegel alemã, fez com que nada se aprendesse de pandemias anteriores e pouco se investisse em dotar o sistema mundial de saúde de uma rede eficaz para agir rapidamente contra uma nova pandemia. Ou seja, a atual gravidade do surto de Corona-Vírus, que provoca a doença COVID-19, depende menos da virulência própria do vírus (que existe, graças à rapidez de suas mutações e da inexistência de sintomas aparentes no começo do contágio), e mais do despreparo para enfrenta-lo, aliado ao comportamento irresponsável de certos governantes, como Donald Trump (a gente pode acrescentar Bolsonaro e seus pandêmicos fanatizados), que considerou a doença como um “mero resfriado ou gripe comum”. O pesquisador cita, em sua entrevista, um caso histórico emblemático. Diz ele que em 1720 chegou ao porto de Marselha, no sul da França, um navio com um precioso carregamento de tecidos provenientes do porto grego de Smyrna (hoje Izmir, na Turquia) de Sidon e Tripoli, no Líbano, e da ilha de Chipre. Quando o navio aportou, haviam morrido oito marinheiros, um passageiro e o próprio médico de bordo, com peste bubônica. Naquela época já se praticava a quarentena (40 dias de isolamento, daí o nome) como prevenção. No entanto, por pressão dos comerciantes locais, este prazo foi reduzido para dez dias, e também não se seguiu a recomendação médica de queimar os tecidos, que foram comercializados como se nada houvesse. A peste se espalhou rapidamente pela cidade, matando 50 mil de seus 100 mil habitantes, e mais 50 mil nos arredores. Este é considerado um caso clássico de junção da violência de uma epidemia com o descaso provocado pela ganância lucrativa.

Por ora, advertem os especialistas, espera-se uma “segunda onda” de Corona-Vírus. Com certeza ela virá, e será pior, dizem eles, do que a primeira. A questão é quando. A previsão mais corrente é que ela ocorrerá nos meses de outono e inverno, na Alemanha. Ao contrário de outras pestes, o vírus viaja com os mais abonados ou mais ricos e se adapta melhor aos climas temperados e frios.

Em resumo, alea jacta est.



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