Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Ser contra o impeachment de Bolsonaro é canoa furada

 

05/08/2019 18:58

 

 
As esquerdas se encontram de novo face a uma encruzilhada: ser contra ou a favor do impeachment de Bolsonaro?

E vozes respeitáveis se erguem contra.

Respeitavelmente, mas equivocadas, na minha opinião.

Tudo bem que não queiram chamar o impeachment. Mas se posicionar contra?…

Algumas das vozes dizem até que o impeachment do Collor foi um erro.

Não vejo como ser contra em ambos os casos.

Collor se envolveu em questões financeiras escusas. Ganhou uma eleição roubada.

O mesmo aconteceu, com outros métodos, com o Bolsonaro.

Bolsonaro demonstra a cada dia ser um mentecapto. E dos mais danosos. Parece um Oliveira Salazar dos últimos dias. Em que se forjavam noticiosos fake para ele acreditar que continuava no poder. Bolsonario não precisa disto. Ele mesmo auto-forja o seu noticiário. Cada vez mais tosco. Ele quer mesmo reescrever a história do passado. Sobretudo, a história mais importante: a do futuro, como já dizia o Padre Vieira, no século XVII.

Mas há gente do nosso lado que insiste na tecla de que todas as coisas malignas que faz, diz, desdiz, rediz, são apenas uma cortina de fumaça para disfarçar “o que interessa”, isto é, o assalto à Previdência Social, aos direitos dos trabalhadores, ao ultra-liberalismo (termo que acaba de nascer) desenfreado que Guedes defende. Sim, este ultra-liberalismo existe. Mas a sua relação com o programa de Bolsonaro é complementar e umbilical.

Qual é o programa de Bolsonaro? É ser letal para a sociedade brasileira. Desarticular o que exista de vivo nela. Destruir a educação, a saúde, o futuro. Para ele é a programação ultra-liberal de Guedes que é a cortina de fumaça para o que quer fazer. Destruir o Brasil para oferece-lo como presa às milícias. Guedes quer oferecer o cadáver do Brasil às multi-nacionais. Bolsonaro, às milícias da Baixada Fluminense. E ao Trump, tendo como compensação o direito de comer hambúrguer de graça na embaixada em Washington cuja cozinha seria dirigida pelo dileto filho.

Não há mais como fugir disto.

Na cena internacional, a cada dia que pasa, se acumulam vexames. O Paraguai denuncia o Brasil. A França também, e por um corte de cabelo a mais! O Brasil entra de cabeça (ou cai?) no programa anti-aborto e anti-acordos contra o aquecimento global, formulado por Trump para agradar a seu eleitorado fundamentalista O chanceler brasileiro censura livro no Itamaraty porque o prefácio é feito por quem ele não gosta. O Brasil manda diplomata para encontro de instituto retrógrado, defensor de tudo o que é ruim para o planeta, de canudo de plástico a combustível fóssil. O Brasil, que foi líder na aprovação do acordo de Paris-2015!

O Brasil de Bolsonaro não é apenas um vexame. É uma ameaça à humanidade.

Não há temor de Mourão e dos militares que possa defendê-lo contra seu afastamento.

Os argumentos dos que defendem que não se mova uma palha a favor de um impeachment de Bolsonaro me parecem semelhantes àquelas palavras de ordem das esquerdas mais ortodoxas dos anos 50 e 60: “tudo o que importa é a luta de classes; o resto, direitos das mulheres, combate ao racismo, luta contra preconceitos de gênero, é secundário; será resolvido com a resolução da luta de classes”. Claro que a luta de classes era e é importante. E será. Mas aquele “resto” era, é e continuará sendo tão importante quanto.

Claro: lutar contra o pano de fundo ultra-liberal que se assanha sobre o Brasil é, e será fundamental. O mesmo contra a letalidade miliciana de Bolsonaro e sua caterva, que lembra a letalidade dos SS e dos SA.

Se ele cair, e espero que caia, a gente se organiza para combater o Mourão, o Maia, Etc. Mas que não se ajude o Bolsonaro a ficar pendurado no Palácio do Planalto, matando nossa possibilidade de lutar contra as direitas.

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