Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Terror de extrema-direita bate às portas da Alemanha

 

20/02/2020 15:39

(@Lusa)

Créditos da foto: (@Lusa)

 
No dia 19, quarta-feira, às 10h00 da noite, na cidade de Hanau, a 25 km. a leste de Frankfurt, sudoeste da Alemanha, um atirador atacou dois cafés que oferecem narguilés para seus clientes. Narguilés: os aparelhos para fumo aromático, muito populares na Ásia, na Turquia, e também na Europa, até em São Paulo. Nos dois cafés o atirador deixou nove mortos e 5 feridos graves. Depois, pelos relatos da polícia e da mídia alemã, ele se retirou para sua residência. Pelas 5 da madrugada de quinta-feira, a polícia localizou e invadiu o local, ao ser alertada por vizinhos sobre a presença, nas proximidades, do carro em que o suspeito teria fugido dos locais do crime. Dentro do apartamento, os policiais encontraram dois corpos: o do atirador, identificado parcialmente como Tobias R. (a prática policial alemã proíbe a divulgação integral do nome de suspeitos), de 43 anos, e o de sua mãe. Ainda segundo a polícia, o suspeito teria morto sua mãe, de 72 anos e a seguir tirado a própria vida.

Circulam na mídia notícias sobre uma carta-confissão, previamente redigida, em que ele se refere ao que viria a fazer, e um vt, com declarações racistas. O caso estes sendo considerado oficialmente como um atentado de extrema-direita. As autoridades federais assumiram as investigações. Até o momento não se sabe do envolvimento de outras pessoas no atentado. A chanceler Angela Merkel e outras autoridades federais suspenderam suas agendas e estão se dedicando inteiramente ao caso.

O fato é que o brutal evento não surpreende. Faz algum temo que se esperava um ataque de extrema-direita na Alemanha. A pergunta era onde, quando e como. Sexta-feira passada, 14 de fevereiro, a polícia, numa blitz em 13 cidades de 6 províncias alemãs, deteve 12 suspeitos acusados de planejarem atentados contra mesquitas, refugiados e políticos que se manifestam favoráveis a eles e imigrantes, nem todos necessariamente de esquerda. Em junho do ano passado, na periferia da cidade da cidade de Kassel, um fanático de extrema-direita assassinou Walter Lübcke, um político conservador, mas defensor dos refugiados, na residência deste.

O clima favorável à extrema-direita e suas ações vem aumentando sua temperatura na Alemanha. Não é de se estranhar: na Europa inteira, em varias frentes, inclusive na política institucional, a extrema-direita, se ainda não se apossou da banca, tomou conta do baralho e está dando as cartas. Facções de militantes dos partidos conservadores têm pressionado suas direções para que se aproximem mais de propostas xenofóbicas e que privilegiem alianças para neutralizar sobretudo as esquerdas. Comenta-se abertamente na mídia que a atual paisagem política vem lembrando cada vez mais a da década de 30, quando os partidos políticos tradicionais, privilegiando a luta contra os comunistas, os social-democratas e demais esquerdistas, abriram o caminho para a ascensão dos nazistas.

O clima de insegurança se acentua porque no próximo ano, 2021, espera-se a aposentadoria da chanceler Angela Merkel, depois de mais de uma década na liderança do país e da União Europeia. Há uma forte expectativa de que seu partido, a União Democrata Cristã, eleja alguém de extrema-direita como seu sucessor. Merkel é uma política conservadora, mas jamais fez concessões à extrema-direita.

Uma definição desta natureza abalaria, certamente, as bases de sustentação da “pax europeia” que a União conseguiu manter, ainda que precariamente, ate agora.



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