Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Trump, Putin, e o redesenho da geopolítica

 

17/07/2018 10:22

 

 
24 horas depois do encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump em Helsinque, a maior parte das opiniões midiáticas se dividem em dois campos.

Para grande parte da mídia mainstream do Ocidente, Putin saiu “vitorioso”, enrolou ou dobrou Trump, derrotando, de tabela, o sistema de inteligência norte-americano e até mesmo os Estados Unidos como um todo. Para esta parte da mídia, Putin é o inimigo público n* 1, mais do que Kim Jong-un, Nicolás Maduro, os aiatolás do Irã, e Xi Jinping reunidos.

Já sites “do outro lado”, como RT e Sputnik, têm uma versão mais positiva do encontro, falando em “aproximação”, “confluência de pontos de vista”, “abertura de caminho”, etc.

Trump enfureceu políticos democratas e republicanos nos EUA porque desacreditou publicamente seu próprio sistema de inteligência em favor de uma maior confiança em Putin e no sistema de inteligência russo. E é verdade que neste ponto Putin faturou alguns para si mesmo, oferencendo ajuda para esclarecer se houve interferência de hackers russos na eleição norte-americana em que Trump derrotou Hillary Clinton. E cobrando reciprocidade, através de ajuda para esclarecer o sumiço de alguns bilhões em qualquer moeda da Rússia em direção, provavelmente dos Estados Unidos e talvez dos paraísos fiscais conexos.

Mas poderia Trump, acossado por seu próprio sistema de inteligência quanto a esta possível colaboração russa, agir de outra maneira? Convenhamos que não. Portanto, não houve surpresa nisto. De resto, houve afirmações um tanto vagas sobre cooperação em vários pontos, do desarmamento nuclear à ajuda humanitária e à resolução do problema político na Síria.  Sobre outros pontos cruciais, como o acordo sobre o programa nuclear do Irã, houve um silencio obsequioso. Ainda sobre outros, como o clima, um silêncio sepulcral. 

A parte mais importante do encontro - a conversa particular de 90 minutos entre os dois, somente acompanhada pelos tradutores - ficou encoberta. O que se pode dizer, especulando ao seu redor, é que ela faz parte de um redesenho da geopolítica que esta em curso e que ninguém sabe exatamente onde vai dar, exceto no sentido de que provavelmente trará dias amargos no curto prazo.

Na última semana Trump esbanjou seu estilo “miles gloriosus”, o soldado fanfarrão da comédia nova romana e depois da "Commedia Del’Arte”. Vindo à Europa, pisoteou nos calos dos demais membros da OTAN, esconjurou Angela Merkel, esnobou Theresa May, acusou a União Europeia de ser a verdadeira “inimiga” (“foe”, em inglês) dos EUA. E no encontro com Putin voltou a esbanjar de novo seu estilo “eu faço o que bem entendo e não presto contas a ninguém” (neste sentido ele lembra, mutatis mutandis, o nosso João Batista Figueiredo). 

Este estilo escandaloso, no entanto, pode esconder e ao mesmo tempo revelar o pano de fundo da nova política internacional dos EUA. Esta abandonou qualquer prurido de bom mocismo à la Roy Rogers e partiu para o estilo “pau na máquina” de John Wayne: somos os mais fortes da nossa tribo, do nosso território e ponto acabou. Neste sentido, de fato, Trump só encontra “diálogo” à altura com gente como Kim Jong-un, Xi Jinping e… Vladimir Putin.

Este, por sua vez, esbanjou seu estilo de jogador de pôker. Ninguém sabe o que vai por detrás daquela máscara que fica entre o impassível e o sorrisinho maroto. Só se sabe que a Rússia está recuperando rapidamente o espaço geopolítico e diplomático que perdera durante a desastrosa gestão de Boris Yeltsin, que lembra, também mutatis mutandis, um Michel Temer assentado em cima do segundo arsenal nuclear do mundo.

Por outro lado, o acontecimento mais significativo deste encontro entre os dois presidentes, além dele mesmo, foi o encontro, quase do outro lado do mundo, da cúpula da União Europeia, o presidente do seu Conselho, Donald Tusk, e o presidente da sua Comissão executiva, Jean-Claude Juncker, com Xi Jinping, em Pequim, e com Shizo Abe, em Tóquio, três figurantes hoje acossados pela agressiva guerra fiscal dos Estados Unidos.

Ou seja, pode mesmo estar se redesenhando a geopolítica, com a definição de novas parcerias.



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