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Carta de Berlim: Vai começar a 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale

 

18/02/2020 12:06

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No dia 29 de janeiro a edição do jornal Die Zeit denunciou que o primeiro diretor do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, Alfred Bauer, fora um colaborador do nazismo, membro da organização SA (Sturmabteilung, “Divisão de Assalto”), os Camisas Pardas devido à cor de seu uniforme, e próximo de Josef Goebbels, o chefe das comunicações do governo de Adolf Hitler. Bauer dirigira o Festival desde sua primeira edição, em 1951, até 1976. Quando morreu, seu nome honrou um prêmio especial, dado a filmes que primassem pela inovação em matéria de linguagem cinematográfica, a partir de 1987.

A denúncia teve o impacto de uma bomba. De imediato, a direção da Berlinale suspendeu o prêmio e agora anunciou que em seu lugar, pelo menos neste ano, o Júri concederia um prêmio especial, pela mesma o motivação, mas ainda sem nome. A seguir, conforme comunicado disponível hoje (18/02), ela anunciou que pediu a renomado instituto que pesquisa a história do nazismo, o “Instituto Leibniz de História Contemporânea”, com sede em Munique, que proceda a uma investigação independente e minuciosa sobre o passado de Bauer. Trata-se de uma iniciativa apropriada, responsável e de total pertinência acadêmica.

Dito isto, a Berlinale vai abrir sua 70ª edição nesta quinta-feira, dia 20, às 19h20, hora local, com a exibição (estreia) de “My Salinger Year”, filme dirigido por Philippe Falardeau, com Margaret Qualey no papel de Joanna, uma jovem aspirante a ser escritora que vai trabalhar numa agência literária para responder às cartas dos e das fãs de J. D. Salinger, nos anos 90, em Nova Iorque.

Depois deste começo, que é sempre apoteótico, desta vez transmitido ao vivo para algumas outras cidades alemãs e pelo canal televisivo 3sat, o Festival entra de fato em cena no dia seguinte. Como sempre, são centenas de filmes e atividades como seminários, debates, mostras retrospectivas e especiais, eventos gastronômicos (sempre girando em torno do cinema), e muitas outras coisas. O Festival tem um centro nervoso, a Praça Marlene Dietrich, perto da famosa e hoje recuperada Potsdammer Platz. Mas ele, na verdade, se espalha pela cidade inteira, graças ao programa “Berlianle goes Kietz”, “A Berlinale vai aos bairros”, e também por todas as idades, tendo programações especiais para crianças e adolescentes, com júris próprios. Os filmes selecionados para a competição sempre giram em torno de 20, garantindo uma variedade temática, de estilos e geográfica. Neste ano o Brasil estará presente nela com o filme “Todos os mortos”, dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra, um drama histórico sobre o mundo de uma família paulista da “aristocracia” latifundiária e de uma ex-escrava que tenta reunir o que tenha sobrado de seus familiares em 1899. Além disto, O Brasil contará com mais 18 filmes nas diversas seções do Festival. Trata-se de uma presença pujante, herdeira da abertura que o cinema brasileiro desfrutou durante os anos de administração Lula/Dilma, na Ancine, dirigida na maior parte do tempo por Manoel Rangel.

Tradicionalmente, o Brasil sempre sai bem no filme da Berlinale. Desde que faço a cobertura, a partir de 2008, não há edição em que pelo menos algum filme brasileiro não ganhe algum dos muitos prêmios concedidos. Por duas vezes filmes brasileiros ganharam o cobiçado Urso de Ouro, o prêmio máximo do Festival: em 1998, com “Central do Brasil”, que também valeu o Urso de Prata de melhor atriz para Fernanda Montenegro; e em 2008, com “Tropa de Elite”.

O Festival costuma ter uma forte componente política. A própria realização da Berlinale partiu de uma decisão, de certo modo, política. No começo dos anos 50 Berlim ainda era uma cidade arrasada física e espiritualmente, além de dividida pela Guerra Fria. Era uma cidade de idosos e mulheres. Nisto não vai preconceito, mas sim a constatação de que a maioria dos homens jovens e adultos tinha morrido, sido aprisionada ou se extraviado. Berlim Ocidental era uma ilha cercada por todos os lados pela Alemanha Comunista.

Para atrair jovens, as autoridades de Berlim e sobretudo os norte-americanos investiram pesado em atividades culturais. Entre estas atividades, desenvolveu-se a Berlinale, recuperando a tradicional ligação da cidade com o cinema, extremamente fértil desde a sua invenção. O próprio regime nazista investira muito no cinema como arte de propaganda. Tratava-se agora de reverter esta tendência, reaproximando a prática cinematográfica de suas raízes mais libertárias. É verdade que isto também entrava num canal de propaganda: a de Berlim Ocidental como "ilha de liberdade” em meio ao “cerco comunista” ao redor. Outros atrativos foram postos à disposição dos jovens, para atrai-los para a cidade: criação de uma universidade, patrocínio teatral, liberação do serviço militar para os rapazes que viessem a viver na então ex-capital alemã. Curiosamente, tudo isto terminou por fazer crescer em Berlim Ocidental uma aura de esquerda e anarquista, além de, no futuro, verde e ecológica, que perdura até hoje.

A Berlinale logo se tornou um sucesso internacional, e hoje é um dos festivais mais importantes da Europa e do mundo. Decididamente é dos mais originais em matéria de organização, e sua presença disseminada em toda a cidade e por todas as idades ajuda a explicar por que cinema, em Berlim, não fecha, não vira estacionamento, nem igreja, nem supermercado, nem bingo. Tornou-se um patrimônio da cidade, do país e da humanidade.

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