Cartas do Mundo

Carta de Bogotá: A paz em ponto crítico após a prisão de Santrich

 

11/04/2018 10:44

EFE

Créditos da foto: EFE

 
Na Colômbia, o acordo de paz atravessa seu ponto mais crítico: a detenção de Seuxis Hernández Solarte, mais conhecido como Jesús Santrich, um dirigente da Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) acusado pelos Estados Unidos por narcotráfico, além da sua possível extradição, terminou conturbando o panorama que rodeia a sua implementação.

Junto com esse fato, deve-se considerar também o que ocorreu na semana passada, quando se descobriu que há muitas irregularidades no manejo dos fundos do pós-conflito.

“Com a captura de Jesús Santrich, o processo está ameaçado de ser um verdadeiro fracasso”, assegurou o ex-chefe guerrilheiro Iván Márquez, numa entrevista na qual não só pediu ao presidente Juan Manuel Santos “cumprir com a sua palavra”, como também solicitou o acompanhamento da comunidade internacional

Márquez afirmou que a prisão de Santrich, que foi um dos negociadores da guerrilha nos diálogos de paz em Havana, não pode se transformar em um troféu que a Colômbia entrega aos Estados Unidos como parte da visita que Donald Trump realizaria ao país no sábado – mas que foi cancelada nas últimas horas.

A Missão de Verificação da ONU na Colômbia fez um chamado às instituições do Estado, para que se avaliasse os acontecimentos com um maior discernimento, tendo em conta que as decisões que se tomem terão consequências profundas para o processo de paz. Ainda assim, apontou que está sendo realizado um seguimento das ações e reações nos espaços territoriais, onde se constrói o processo de integração dos membros das FARC.

A presidenta da Jurisdição Especial de Paz, Patricia Linares, afirmou “Hernández Solarte (Santrich) está sujeito à Jurisdição Especial de Paz (JEP), na medida em que ele se submeteu a esta jurisdição”, e completou dizendo que “de acordo com o artigo 19 transitório do Ato Legislativo de 2017 (norma constitucional que fixa as definições e alcances da JEP), a JEP deve se ocupar e verificar” a situação legal de Santrich.

Segundo o Promotor Geral, se trata de uma ordem internacional expedida através de um alerta vermelho da Interpol, com o objetivo de realizar a extradição, por acontecimentos ocorridos após a assinatura do acordo de Paz. O advogado de Santrich, Gustavo Gallardo, insistiu em que se trata de uma “manipulação judicial” das autoridades colombianas, com o propósito de não permitir que ele tome posse como representante na Câmara.

Através de um comunicado à imprensa do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, foi feito o anúncio oficial da captura, na Colômbia, de quatro “membros e sócios das FARC”. A nota confirma que as detenções foram pedidas com base nos crimes de conspiração e tentativa de exportar cocaína aos Estados Unidos, pelos quais tentam a sua extradição ao país do Norte. Os funcionários estadunidenses enviaram, ademais, um agradecimento à colaboração dada pelo governo colombiano, em especial ao promotor Néstor Humberto Martínez.

A paz assinada pelo governo de Juan Manuel Santos e as FARC atravessa graves dificuldades, e se não há uma retificação oficial, o processo que gerou tantas ilusões terminará fracassando, num momento em que a Colômbia percebe uma reativação da violência política, com o assassinato de dirigentes camponeses e populares, ex- guerrilheiros que acolheram o processo, e também de pessoas sem filiação política, que estão desaparecidas.

A assinatura do acordo não significou o estabelecimento de uma cultura de paz e de reconhecimento do outro, já que se mantém a costumeira tolerância oficial para com os massacres, desaparições e agressões em determinadas zonas pacificadas, e o retorno dos grupos paramilitares de direita, que atuam em cumplicidade com os altos comandantes das Forças Armadas.

Neste panorama, também é importante verificar o que ocorre nas fronteiras com a Venezuela e o Equador. O caos em ambas as zonas limítrofes estaria sendo provocado deliberadamente pelo establishment e pelo governo colombiano, buscando lucrar politicamente com polêmicas que podem servir para reforçar os discursos nacionalistas às vésperas das eleições presidenciais. O primeiro turno será em meados de maio, e as pesquisas continuam mostrando o esquerdista Gustavo Petro na liderança.



Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la




Conteúdo Relacionado