Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: A fábrica de pobres de Macri e do FMI, com o aval dos Estados Unidos

 

30/08/2018 16:06

 

 

Com a promessa do Fundo Monetário Internacional (FMI) de adiantar 29 bilhões de dólares dos recursos de crédito que estavam prometidos para o próximo ano, em troca de um pacote maior de ajustes, o presidente argentino Mauricio Macri apostou na jogada do “apoio do Fundo para cumprir os compromissos de 2019”, numa mensagem de 102 segundos, esperando que, com isso, poderia frear a desconfiança.

Pouco depois da publicação dessa mensagem gravada para a televisão – foi difundida às 9h30 da manhã de quarta-feira (29/8) –, na que reconheceu que existe “falta de confiança do mercado sobre a Argentina”, a demanda de dólares catapultou o preço da divisa estadunidense ao recorde de 34,50 pesos (7,8% a mais que no dia anterior). O anúncio de um novo acordo com o FMI foi interpretado como um sinal de fragilidade do programa econômico.

“Macri nos deu a dose em um frasco pequeno, como um veneno. Foram apenas uns segundinhos para anunciar que pediu um adiantamento ao FMI, que serão usados para continuar pagando a dívida aos especuladores. E sem dizer que o ajuste contra o povo será ainda mais forte”, postou nas redes sociais a deputada Myriam Bregman, da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores.

A realidade mostra que o brutal descontrole do dólar ameaça fazer com que a inflação dispare aos piores níveis já registrados, acabando com o poder aquisitivo dos salários, enquanto a fuga de divisas, que se acelerou nos últimos meses, vem tragando não só as reservas como também os fundos do empréstimo do FMI, sem contar os que o governo captura através da nova emissão de dívida interna.

Diariamente, a recessão produz novos fechamentos de empresas e dezenas de demissões de trabalhadores. Nos 102 segundos de discurso de Macri, não houve sequer uma mínima referência a essa situação. A “angústia e preocupação de muitos”, segundo as palavras do presidente, é fruto “desta situação tempestuosa” com origem no exterior.

“Como pode ser que exista um país chamado Argentina, que é capaz de alimentar mais de 400 milhões de pessoas (e que exporta grãos para satisfazer a esses milhões), e que sua própria população é 10% disso, sendo que um terço dessa população vive abaixo da linha da pobreza e sofre com a desnutrição e outras consequências dessa condição? E ainda por cima, acumula casos em vários bairros onde a população tenta invadir os supermercados implorando por comida”, se pergunta o economista Horacio Rovelli.

Paralelamente, as cadeias de pagamento se rompem cada vez mais, os telegramas de demissão se multiplicam no mesmo ritmo dos cheques voadores: 550 mil cheques rechaçados por falta de fundos na conta liberadora, durante este ano.

Não ingressam divisas genuínas, os exportadores de grãos liquidam suas vendas em conta-gotas, apesar de que a desvalorização nos primeiros oito meses do ano supera os 60%, com o que acreditam implicitamente que o dólar seguirá subindo, chegando a uma alça estimada de 35% - considerando todo o ano de 2018.

Segundo a Consultora Elypsis, muito próxima do governo, a gestão de Macri precisará de 45 bilhões de dólares somente para cobrir os vencimentos até dezembro de 2019, montante que, em meio da espiral cambiária, não assegura que os detentores de títulos argentinos estejam dispostos a trocar dívida velha por nova. Enquanto isso, a sangria da fuga de capitais não se estanca. De janeiro de 2016 a julho de 2018, o país perdeu 49,47 bilhões de dólares, segundo o balanço cambiário contabilizado pelo Banco Central.

“O FMI participa desse jogo como instrumento e salvaguarda técnica, mas o aval político é dos Estados Unidos”, explica Rovelli. Também é o que dá a entender o embaixador estadunidense em Buenos Aires, Edward Prado: “o presidente está fazendo o que deve ser feito para que a economia funcione. Os Estados Unidos e outras nações estão de acordo com que se está tomando o caminho correto. As pessoas têm que pagar as contas de eletricidade e de água, ganham um salário prejudicado pela inflação e pela desvalorização, e por isso é mais difícil que aceitem as mudanças, porque se sentem diretamente afetadas por isso, mas elas devem saber que é um momento duro, e que apesar disso é necessário avançar”

Uma fábrica de pobres

“O modelo econômico de Macri é uma fábrica de pobres. A Argentina está vivendo uma crise profunda, igual ou maior que a de 2001”, advertem o Movimento Evita e a Confederação de Trabalhadores da Economia Popular, em um comunicado conjunto.

“Devemos nacionalizar a banca para frear a fuga dos especuladores que estão saqueando o país. Uma ideia elementar, que seria parte de um conjunto de medidas para que quem pague pela crise sejam os grandes capitalistas, e não os trabalhadores”, afirmou o deputado Nicolás del Caño.

Macri parece não entender que a pressão sobre o dólar não se dá por questões psicológicas, e sim por um brutal desajuste entre a entrada e a saída de divisas do país. A Argentina, durante a sua administração, perdeu 10 bilhões de dólares por ano no intercâmbio comercial (importa mais do que exporta), e outra cifra similar no intercâmbio turístico (os residentes que viajam gastam mais fora do que o gasto aqui dentro pelos estrangeiros que nos visitam).

Também perdeu 10 bilhões por ano pelo pagamento líquido de juros da dívida, e outros 20 bilhões de dólares, também anuais, em transferências internacionais de empresas e particulares, que evadem mais do que o que ingressam – embora os sete primeiros meses deste, que é sem dúvida o seu pior ano, já tenham sido suficientes para superar essa cifra, segundo o economista Raúl della Torre.

No total, são 50 bilhões de dólares de déficit anual, que deveriam ser cobertos com a chamada “chuva de investimentos” que, ao não chegar, levou o país a uma nova e astronômica dívida externa. Por um lado, a chuva de investimentos nunca saiu das promessas presidenciais, por outro, a dívida parou de crescer quando o sistema financeiro internacional deu um basta, e com isso o valor do câmbio se disparou.

Diante disso, o ainda presidente, orador de 102 segundos, insiste em que sua principal tarefa continua sendo a de reduzir o déficit fiscal, matéria na qual, assegura, “vamos muito bem”. Ou seja, está orgulhoso do ajuste e promete mais demissões, se omitindo diante dos problemas da economia real: o emprego, a produção e a satisfação de necessidades básicas da população.

“Somente com os novos anúncios não será suficiente. Os dólares do FMI não vão salvar a Argentina, não servem para acalmar o mercado e o povo sobre como o governo vai continuar até o fim deste ano, e depois até o fim do ano que vem. Com sua reação adversa, o mercado está dizendo ao governo que se não há uma mudança de rumo o final será trágico”, analisou Arnaldo Bocco, diretor do Observatório da Dívida Externa.

Bocco assegurou que “a situação é muito delicada, e não se pode continuar sacrificando reservas. O modelo não é sustentável, e já não adianta tentar tapar o sol com a peneira. Os investidores externos, os operadores locais e as pessoas comuns já entenderam claramente a situação”.

Para Emmanuel Agis, que foi vice-ministro de Economia durante o segundo mandato de Cristina Kirchner, o governo está confundindo um problema de liquidez com uma questão de solvência. “Não se trata de uma corrida dos investidores por dívida. A corrida se dá porque o governo não pode intervir. Os funcionários não têm os dólares líquidos para esta semana. Se o FMI empresta bilhões de dólares e você não pode usar para controlar o câmbio, não adianta”, indicou.

Agis apontou que a inflação deste ano superará os 35%, que o produto interno brito cairá cerca de 2 pontos, e que em 2019 haverá “um forte ajuste fiscal, e não há elementos que colaborem para reativar o mercado interno. A produção primária (rural) será cerca de 10% do produto. O resto vai continuar estagnado”.

É um final aberto, às vésperas de um ano eleitoral: um governo desgastado por sua própria concepção do mundo e por sua imperícia, e duas propostas econômicas que se apresentam nitidamente como alternativas, sendo uma delas os “14 pontos” do ex-ministro de Economia do período pré-kirchnerista, Roberto Lavagna – que alguns acreditam ser o comandante ideal para capitanear o barco em meio a esta tormenta –; e a outra seria o modelo da economia kirchnerista, de defesa do trabalho e do mercado interno, o que é fortemente questionado midiaticamente, com a ex-presidenta sendo atacada diariamente pelo caso de um caderno de um suboficial do Exército argentino, denunciando supostos esquemas de corrução no governo anterior.

As denúncias contra opositores, e especialmente contra a principal líder opositora, agigantadas pela ampla cobertura da imprensa hegemônica, têm como principal efeito o de dar mais algum oxigênio ao governo de Macri, que perde fôlego ao seguir pelo caminho de um processo claramente recessivo, desindustrializador e destrutor da mão de obra, ao mesmo tempo em que aumenta a dívida externa sem limites, em meio a manifestações generalizadas em todo o país contra suas políticas neoliberais de ajuste, impostas pelo FMI, com o aval dos Estados Unidos.

Rodolfo Koé Gutiérrez é jornalista argentino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


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