Cartas do Mundo

Carta de Buenos Aires: Entre o FMI e a Copa: nada aconteceu como Macri esperava

 

11/06/2018 08:35

Twitter

Créditos da foto: Twitter

 
Mauricio Macri e seus assessores apostaram em que a Copa do Mundo de Futebol marcaria o final do período das medidas impopulares, e logo ele começaria a recuperar terreno. O debate parlamentar e cidadão sobre o aborto tampouco chegou para ocultar a realidade: depois de perder o controle da situação econômica, o país se viu obrigado a pedir um resgate financeiro, se submeter às caprichosas exigências do FMI e fazer um ajuste econômico ainda maior.

A estratégia falhou e o descontrole governamental é tanto que nem Lionel Messi e os dirigentes do futebol vem podendo ajuda-los – ainda mais agora, que o panorama inclui um incidente esportivo-diplomático de projeções internacionais que envolve outro erro de cálculo garrafal da Presidência.

A Copa do Mundo da Rússia seria o ponto de inflexão entre uma difícil primeira metade do ano, quando foram tomadas as medidas mais duras, e o início de uma segunda fase, na que poderiam recuperar terreno. Porém, 60 dias antes do torneio, a economia entrou em crise e o país teve que pedir socorro ao FMI, para tentar frear a corrida bancária que o seu pobre gabinete de gerentes de multinacionais não soube prever, conter e menos ainda resolver.

Os estrategistas do governo neoliberal supunham que o debate pelo aborto cobriria as expectativas da maioria da juventude, do progressismo, e fariam a população esquecer as penúrias da crise econômica e social. A crise provocou o descontentamento popular, e a tentativa do governo e da mídia cúmplice de desconhecer a legitimidade das mobilizações populares é outro erro, pois ajuda a população a entender que os responsáveis pela situação são os próprios mentores do poder financeiro internacional e os altos funcionários do governo argentino.

A prometida chuva de investimentos foi, na verdade, uma sequia de créditos. Os especuladores, que deram uma sobrevida à falta de sentido da política econômica aplicada, se aproveitaram das vantagens oferecidas pelo governo e levaram seu dinheiro aos paraísos fiscais – em poucas semanas, cerca de 11 bilhões de dólares haviam deixado o país.

Mas agora chegou a Copa, e tudo leva a crer que o que virá é ainda pior do que o vivido nos últimos meses, graças a um ajuste mais acelerado e profundo, enquanto a insatisfação social cresce sem parar, e gera reclamações de todos os tipos.

Aos argentinos com memória, o acordo com o FMI trouxe péssimas recordações, e mostrou aos mais jovens que até os netos dos seus netos foram hipotecados por uma nova e eterna dívida externa. Para que servem esses 50 bilhões do FMI? Fundamentalmente, para assegurar os credores de eles poderão cobrar as nossas dívidas, ou os juros das mesmas.

No dia 20 de junho, a Argentina terá à sua disposição um montante de 15 bilhões de dólares, que serão utilizados para fazer alguns pagamentos e para melhorar as reservas do Banco Central. Os juros a pagar será entre 4 e 5%, o que pode aumentar segundo o momento de retirar o dinheiro e os prazos de pagamento. O resto do montante (35 bilhões) terá uma função de precaução, e poderia ser utilizado ou não.

Uma das condições exigidas é diminuir o déficit fiscal (a diferença entre o que se arrecada e o que se gasta), o que significa que haverá menos investimentos públicos, menos recursos para a saúde e educação públicas, ou para a construção de moradias populares. Os consumidores de serviços públicos (água, gás, eletricidade) terão que pagar pelas reduções de subsídios às empresas que os prestam. Também se está preparando uma redução de pessoal no aparato público, além de um ajuste das aposentadorias e uma diminuição do repasse de verbas às províncias.

Segundo estes acordos, o Banco Central deverá ter uma maior autonomia, e não poderá emprestar dinheiro do governo para regular o tipo de câmbio: ninguém saberá o que acontecerá com o dólar, mas é óbvio que haverá uma queda do consumo e o crescimento estará rondando o cero. A inflação chegará aos 30%.

Macri, o G7 e o Vaticano

Enquanto isso, Mauricio Macri aproveita sua posição como presidente do G20 e organizador da cúpula do grupo – que se realizará em Buenos Aires antes do fim do ano – para ir ao Canadá e participar de uma reunião do G7, bloco similar, mas que inclui somente Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e Japão.  Talvez esta situação explique porque o mundo financeiro internacional tentou evitar o aprofundamento da crise e uma maior deterioração macrista.

Este tema da despenalização do aborto é um dos pontos cruciais da relação entre o Vaticano e o atual governo. Por isso, não parece ser uma casualidade a recente presença do chanceler da Academia Pontifícia de Ciências e das Ciências Sociais, Marcelo Sánchez Sorondo, no Sindicato dos Caminhoneiros, onde foi informado da próxima greve geral contra as demissões, os aumentos de tarifas dos serviços públicos básicos (água, luz e gás) e as negociações com o FMI.

Sánchez Sorondo recordou a encíclica Laudatio Si, a qual diz que “a riqueza privada acumulada nos paraísos fiscais por certas elites quase iguala a dívida pública de seus respectivos países”. “Há outros países, como a Argentina, que não podem se recuperar economicamente porque todo a riqueza produzida é transformada em dinheiro que é retirado do país”, lembrou Sorondo, transmitindo outra mensagem papal para quem quiser escutá-lo.

Palestina ganhou de goleada

O “amistoso” entre o selecionado argentino de futebol, que vai a participar da Copa na Rússia, e a equipe israelense, que seria disputado em Jerusalém, acabou sendo suspenso por pedido dos jogadores sul-americanos. Originalmente, a partida estava programada para acontecer em Haifa, mas uma mudança de última hora determinada pelo governo de Israel – e apoiada pelo governo argentino – despertou a polêmica.

Para o governo israelense, jogar em Jerusalém tinha um significado político: o país comemora os 70 anos de fundação do Estado de Israel e a presença de uma seleção mundialista e de um dos maiores esportistas da atualidade (o craque argentino Lionel Messi) eram um símbolo no caminho do reconhecimento internacional que buscam para estabelecer definitivamente a cidade como sua capital, contrariando o que atualmente determina ao Organização das Nações Unidas (ONU).

A mudança do local de Haifa a Jerusalém despertou reações em todo o mundo. Militantes palestinos recordaram que recentes mobilizações pelo retorno a suas terras deixaram um saldo de 130 pessoas assassinadas e milhares de feridos. Entre os assassinados está um membro da seleção de futebol da Palestina e outros dois futebolistas residentes nos territórios. Em 2014, 7 membros da seleção palestina foram assassinados em ataques semelhantes.

Com todos esses antecedentes, os ativistas pró-Palestina pediram a Messi que não jogasse. Ademais, estava previsto uma visita do craque e todo o elenco ao Muro das Lamentações, e uma série de outras atividades extracampo, confirmando que se tratava de uma partida com nuances de evento de Estado. Talvez por isso os jogadores decidiram não ir a Israel, e não se prestar a esse papel. O centroavante Gonzalo Higuaín foi o responsável por ir a público e dizer, em entrevista para a imprensa especializada, que “o correto era não ir”.

Os atletas argentinos não cederam às pressões do próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que ligou duas vezes para Macri para solicitar que ele intercedesse e convencesse os jogadores a viajar. A provocação israelense foi desarmada. O presidente não conseguiu entregar o pedido feito por seu amigo israelense, e deverá encarar a frustração assistindo os jogos da seleção do seu país pela televisão, em Buenos Aires, já que ele mesmo proibiu seus funcionários de viajarem à Rússia.

Juan Guahán é analista político e dirigente social argentino, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la




Conteúdo Relacionado