Cartas do Mundo

Carta de Caracas: Tentativa de Magnicídio - Maduro acusa Santos e os EUA

 

06/08/2018 14:02

 

Por Victoria Korn
 
Artefatos voadores carregando materiais explosivos surgiram nos céus de Caracas, durante a tarde de sábado (4/8), em meio a um evento oficial, para atentar contra a vida do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. O mandatário saiu ileso, mas sete guarda-costas foram feridos. Em comunicado posterior, Maduro responsabilizou o presidente colombiano Juan Manuel Santos pelo ato terrorista.

Após afirmar que vários dos responsáveis intelectuais do atentado – reivindicado pelo autodenominado Operação Fênix, com sede em Miami – vivem nos Estados Unidos, Maduro disse que espera que o presidente Donald Trump “colabore no combate a grupos terroristas que pretendem cometer magnicídios”.

O vice-presidente de Comunicações venezuelano, Jorge Rodríguez, confirmou que o ataque que interrompeu o ato de comemoração dos 81 anos da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) se tratou de um atentado contra a vida do Presidente Nicolás Maduro, que saiu ileso.

Mais tarde, o presidente Maduro explicou que o artefato voador “explodiu em frente a mim, e depois de alguns segundos houve uma nova explosão, e por isso vocês podem ver nas imagens que as pessoas saem correndo”, detalhou.

O presidente informou que o governo já iniciou as investigações pertinentes de forma imediata, e assegurou que os autores materiais do atentado já foram presos, e encontradas as evidências no lugar dos acontecimentos.

Logo, Maduro acusou o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de estar envolvido no atentado. “Tenho que informar que foram capturados alguns dos responsáveis, que estão sendo processados, e não tenho dúvidas de que por trás disso está a ultradireita e Juan Manuel Santos”, indicou o mandatário, agregando que vários dos responsáveis pelo atentado vivem nos Estados Unidos.

Bogotá rechaçou a denúncia de Maduro, ao afirmar que tal acusação “não tem base alguma. O presidente (Santos) está dedicado ao batizado de sua neta Celeste e não a derrubar governos estrangeiros”, disse um porta-voz presidencial.

Os representantes da oposição venezuelana passaram o resto do fim de semana em silêncio, assim como o Episcopado e grande parte dos governos latino-americanos.

O atentado

O fato se produziu às 17h41 horas do sábado 4 de agosto, em um momento em que o presidente Maduro falava aos membros da GNB. Rodríguez relatou que o atentado “teve claramente como alvo a figura do presidente Nicolás Maduro, que felizmente não foi atingido e se encontra realizando seu trabalho”. Os presentes ao ato solene escutaram as explosões no momento em que vários artefatos voadores (drones) se aproximaram do palanque onde Maduro falava, cercado por sua comitiva.

Rodríguez agregou que o ataque evidencia “o ódio da direita, que não encontra outra fórmula senão a de cair em práticas criminosas”. Em vídeo difundido pela emissora estatal, se escutam ao menos duas detonações, e se observa como o presidente e sua esposa, Cilia Flores, assim como o ministro de Defesa, general Padrino López, olham para cima e para frente, e por trás do ministro se pode observar um efetivo militar que parece se jogar no chão ou fazer um movimento defensivo. Logo, os cadetes da Guarda Nacional romperam suas formações e correram para perto do palanque.

Vários países se solidarizaram com o mandatário venezuelano. O presidente da Bolívia, Evo Morales, qualificou o atentado como crime de lesa humanidade. “Depois do fracasso em sua tentativa por derrotá-lo democrática, econômica, política e militarmente, agora o império e seus servidores atentam contra sua vida”, denunciou Evo, através de sua conta no Twitter.

A única saída?

O autodenominado grupo Operação Fénix, supostamente formado por militares ativos e em reserva que estão contra o governo de Maduro – e que defendem o fim imediato do atual governo para que se instale uma junta militar, que “vigie o processo de transição para restaurar a democracia no país” –, enviou um comunicado aos meios de comunicação, reivindicando a autoria do atentado e lamentando ter falhado nessa tentativa, mas prometendo que alcançará esse objetivo no futuro.

Enquanto isso, a cadeia televisiva estadunidense CNN falava apenas em “ruídos durante evento de Maduro”, e a férrea opositora venezuelana exilada em Miami, Patricia Poleo, difundiu em seu noticiário televisivo um comunicado em nome da Operação Fénix.

O comunicado – cuja redação é muito similar ao texto que reivindicou o golpe contra Hugo Chávez em 11 de abril de 2002 – agrega que, ao constatar que boa parte do governo e suas autoridades “deixaram de observar a Constituição e suas normas, tanto no exercício do poder público como no respeito dos direitos dos venezuelanos”, o grupo decidiu intervir, com o fim de cumprir seu dever como militares, supostamente amparados pelo “artigo 333” da Carta Magna.

“São contrários à honra militar aqueles que se esqueceram da Constituição e que têm feito da função pública uma forma de enriquecimento”, continuou o comunicado, que conclui com um chamado à população venezuelana a “sair às ruas para apoiar este movimento militar e consolidar a toma do poder pela junta de transição”.

Por outro lado, um suposto grupo autodenominado Soldados de Flanela, publicou uma mensagem no Twitter onde também dizem ser os responsáveis pelo atentado, e contando que o plano era sobrevoar o palanque com os drones carregados com explosivos C4, mas que franco-atiradores os derrubaram antes de alcançar seu objetivo. “Demonstramos que são vulneráveis”, diz a mensagem. “Não se conseguiu hoje, mas é questão de tempo”.

A direita venezuelana não encontra saídas, devido a um quadro de total decomposição e desarticulação, no qual duas tendências se encontram enfrentadas: as que buscam o caminho do diálogo e da negociação com o governo e outra que tenta aniquilar a Revolução Bolivariana por qualquer meio possível – e que tem preferido essa opção desde a posse de Hugo Chávez, em 1999. Este segundo setor conta com apoios logísticos, comunicacionais e sobretudo financeiros de Washington, Bogotá e Madrid, além do respaldo político da Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e dos governos do chamado Grupo de Lima.

Hoje, causa preocupação a recente prisão de nove oficiais de alta patente da Marinha, segundo um expediente do Tribunal Militar Primero de Controle.

Este grupo, chamado Armagedom, esteve coordenando planos na Colômbia com o coronel da reserva Oswaldo García Palomo, segundo o reportado pelo jornalista Eleazar Díaz Rangel, diretor do matutino Últimas Noticias – embora a nota não assegure que eles estiveram envolvidos com a tentativa de magnicídio.
 
Victoria Korn é jornalista venezuelana associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



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