Cartas do Mundo

Carta de Coimbra: A morte da geringonça

 

14/10/2019 13:25

 

 
Escrevo esta carta de uma esplanada no centro de Coimbra, diante da animação trazida por feito por turistas numa manhã quente de Outono. Deixarei para outra altura falar do afluxo turístico em Portugal nos últimos anos e dos impactos que tem produzido na sociedade, na economia e no território. Hoje quero falar das eleições que aqui se realizaram há uma semana e do cenário pós-eleitoral que se desenhou a seguir.

As eleições legislativas deram ampla vitória ao Partido Socialista (PS), ainda que sem maioria absoluta. À esquerda, Bloco de Esquerda mantem o número de deputados, com um pequeno recuo de votação, e a coligação liderada pelos comunistas, sofreu uma quebra em votos e mandatos. A direita tradicional – PSD e CDS/PP, que concorreram agora em separado – perdeu de forma evidente e um conjunto de pequenos partidos inauguraram a sua presença no Parlamento. A frequentemente referida "exceção portuguesa" foi rompida: a extrema-direita entrou no hemiciclo, capitalizando um discurso larvar existente na sociedade contra negros, ciganos, os "subsídios do Estado" e a suposta corrupção generalizada da "classe política". Mas isso ficará também para uma outra missiva.

Estas eleições marcaram o ponto final no acordo que unia PS e partido à esquerda. Foi o fim da geringonça, a expressão pela qual ficou conhecida essa fórmula que permitiu ao PS sustentar o seu governo, mediante um conjunto de medidas previamente negociadas e incluídas no seu programa e horizonte de governação. O PCP havia já dado conta nas eleições da indisponibilidade para reeditar acordos escritos de legislatura. Os resultados eleitorais, possibilitando ao PS prescindir dos seus parceiros à esquerda, foram decisivos. Na noite eleitoral, António Costa afirmou que estaria disponível para fórmulas diferentes de entendimento à esquerda – com acordo escrito ou discutindo políticas caso a caso. Mas o golpe final foi dado estes dias: depois da ronda de reuniões com os partidos, e com o patronato, o PS descartou avançar com um acordo escrito com o Bloco de Esquerda, único partido que se dispôs fazê-lo e com quem junto o PS tem a maioria no Parlamento.

Em alguma imprensa internacional falou-se nestes anos da existência de um "governo de esquerdas" no país. A coisa, em boa verdade, nunca existiu. Existiu um suporte parlamentar a um governo minoritário do PS, baseado num conjunto de medidas que permitiram sobretudo recuperar de direitos e rendimentos cortados no tempo da intervenção externa da troika. A boa memória que a geringonça deixou junto de eleitorado de esquerda faz com que seja previsível o seu ressurgimento retórico em alguns momentos decisivos. Mas tudo mudou na sequência das eleições e da gorada perspetiva de reedição de um acordo à esquerda. O PS tem agora a possibilidade de buscar diferentes apoios pontuais no Parlamento, à esquerda ou incluindo contar com a aprovação ou abstenção do centro-direita, o que bastará para fazer passar as suas medidas.

Esta é a ironia: a derrota nas urnas do PS abriu espaço em 2015 para a necessidade da geringonça. Com todos os seus limites e tensões expressas ao longo dos últimos quatro anos, ela permitiu reverter medidas socialmente mais agressivas impostas pela direita e pela troika. E é agora na sequência dos resultados eleitorais que deram a vitória ao PS – e a derrota das direitas, a braços já com disputadas de lideranças - que termina com esse peculiar experimento. Os desafios que toda a esquerda enfrentará nos próximos tempos não serão pequenos.






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