Cartas do Mundo

Carta de Coimbra: Da geringonça reformista ao 'puzzle' fascista

 

12/11/2020 12:12

(Stock)

Créditos da foto: (Stock)

 
As últimas semanas de debate político em Portugal foram demarcadas pela discussão a volta do resultado das eleições legislativas regionais na ilha dos Açores. Dividido em três regiões principais: Açores, Madeira e Portugal continental, com processos eleitorais que costumam ocorrer em períodos diferentes, o Estado Português vê nessa disputa a definição não só dos novos rumos do arquipélago, mas o novo cenário político que se abre no país que ficou conhecido nos últimos anos como “o paraíso socialista” da Europa.

Depois de mais de vinte anos do Partido Socialista (PS) com controle sob o poder local nos Açores, essas eleições demarcaram não só a perda de assentos na câmara de deputados, mas a aliança da suposta direita “democrática” do Partido Social Democrata (PSD), com o partido de extrema-direita Chega.

Com o total de 57 assentos de deputados, tendo sido 21 eleitos pelo PSD e 25 pelo PS, o Partido Social Democrata para obter maioria no parlamento se alia ao que hoje representa o maior perigo para a democracia portuguesa. A sanha pelo poder demarca não só a fragilidade das democracias diante de acordos políticos escusos, mas a possibilidade de levar a cabo a estabilidade democrática do país com processo revolucionário antifascista mais significativo das últimas décadas na Europa.

A jogada política que já passa a ser chamada pelos canais de comunicação portugueses como “geringonça de direita” - em referência inversa ao acordo de coalizão entre partidos de esquerda que visava garantir a governabilidade ao PS e impedir o avanço dos partidos de direita - não só demonstra a fragilidade desse projeto político como a urgência de os partidos de esquerda se alicerçarem em estruturas ideológicas mais sólidas, que mobilize as massas e garanta a elas firmeza nas suas convicções.

Diante do atual resultado das negociações a decisão do partido liberal conservador PSD, bem como de outros partidos de direita que farão parte da nova coligação, demonstra a pouca fiabilidade no compromisso democrático dos mesmos. Depois de anos reivindicando a ilegitimidade da maioria parlamentar de centro-esquerda que em 2015 somou o Partido Comunista Português (PCP), Bloco de Esquerda (BE), Verdes e Partido Socialista (PS) - o PSD, apesar de ter ficado atrás do PS nas eleições regionais faz uma viragem a extrema-direita em prol da liderança do Governo dos Açores. Cai por terra a crítica meramente instrumental e conveniente do partido de centro-direita, quando criticava o PS de fazer coligação com partidos de esquerda mesmo quando não eram a força política mais votada, agora a comparação lhes parece oportuna ao estabelecerem uma comparação entre se aliar com o partido de extrema-direita Chega, as coligações que o PS fez com o BE e PCP.

É importante dizer que o Partido Socialista, bem como a esquerda partidária como um todo tem um papel importante nesse processo de instabilidade democrática – o abandono das políticas de base, falta de respostas estruturais ao capitalismo neoliberal e enfraquecimento do espaço público de debate têm permitido que a alienação política e discursos racistas, xenófobos e fascistas ganhem espaço. Na medida em que o desestimulo toma o lugar que outrora foi de construção e luta da classe trabalhadora partidos como o Chega liderados por tipos populistas, com discursos de fácil reprodução, ganham não só espaço político partidário, mas perigosamente adentram as estruturas sociais do país de forma parasitária e oportunista.

Grande parte das elites brasileiras que vieram “fugidas” para Portugal são hoje colaboradoras nesse processo, bem como várias pessoas que representam a classe média alienada que saiu do Brasil em busca de melhores condições de vida em Portugal. O paradoxo da confusão mental desses indivíduos os leva ao ponto de apoiarem o discurso de um partido político e representantes com discursos xenófobos que alimentam manifestações racistas de que imigrantes brasileiros não são bem-vindos no país.



Conteúdo Relacionado