Cartas do Mundo

Carta de Coimbra: Não! não é possível concordar com a normalidade da exclusão que vivemos hoje.

 

10/05/2019 11:42

 

 

Há quase quarenta anos, Mike Oliver chamava a nossa atenção para o modelo social da deficiência. De acordo com esse modelo o autor apontava que as barreiras encontradas pelos indivíduos não eram originadas nas suas condições de saúde ou capacidade física, mas nas dificuldades que a sociedade criava para inserção das pessoas com alguma “deficiência” na comunidade, no mercado do trabalho e no exercício da plena cidadania. Os estudos de Oliver instigaram o campo dos estudos da deficiência que, ainda hoje, se dedica a perseguir alternativas de emancipação dos indivíduos, da promoção da cidadania e conquista de direitos. A alternância da “deficiência” do indivíduo para o meio social foi uma evidência arrebatedora para a população que, no fundo, se enquandram nos parâmetros da anormalidade de nossa sociedade.

O anormal é instituído para identificar aquilo que não faz parte, ou está fora da norma e daquilo que é normal. O normal, por consequência, tem a função de enquadrar aquilo que é saudável ou não, o que é belo, o feio, o diferente… No campo da saúde o que se desvia da norma é a doença. Mesmo que o normal seja montado pelo conjunto de interesses de determinado tempo e comunidade, ela sempre tem o mesmo objetivo: separar os iguais, que se enquadram na norma, dos diferentes, os de fora da norma e portanto anormais.

Atualmente, no Brasil, o normal é o enquadramento na família e na religião. Aquilo que está fora desse expectro é o anormal, o criminoso e o inimigo a ser batido. Desta feita, desde o início do atual governo houve uma contínua ladainha sobre os inimigos da normalidade: os homossexuais, os negros, os sem-terras e todos aqueles que pregam um suposto marxicismo cultural (como se isso realmente existisse). Depois da ladainha e da identificação do inimigo, o governo lançou a sua chave-mestra: a liberação das armas. Então estamos em um momento onde as pessoas normais, ou iguais, sabem quem são os seus inimigos e, como tal, precisam ser eliminados. Tudo ficou mais fácil porque eles podem ter as suas armas.

Mas que normalidade é essa onde as pessoas acreditam ser a verdade?

Se o normal de hoje poderá ser a exceção de amanhã, ou o contrário, o normal, simplesmemente, não existe. Como? Bem vou-me explicar melhor. A ideia do (a)normal é baseada, mesmo inconscientemente, em uma constatação da frequência. Isso quer dizer que quando lembramos do normal, estamos constatando aquilo que é mais frequente. O gráfico de Gauss, ou de distribuição normal, é uma ferramenta utilizada para parametrizar a normalidade. Portano, tendo em caso uma determinada população e a necessidade de analisar a cadeia genética, toda a cadeia que esteja a margem do sequenciamento considerado normal, será declarada como anormal e, portanto, doente. O lado prático desta constatação é colocar o elemento anormal à margem, seja para uma suposa necessidade de cuidar ou, simplesmente, apontar aquilo que não é aceite. O resultado é que as pessoas, com toda a sua particularidade, potencialidades e necessidades, são enquadrados no seu gene, que é anormal. A anormalidade também tem a função de indicar aquilo que está fora da norma social. Hoje, por exemplo, parece que estamos a retornar à criminilização da homossexualidade. Essa atitude é a anormalidade que deve estar longe do contato com a comunidade, com os filhos, as crianças e as pessoas de bem e de religião. Portanto, seja por um lado ou por outro, a necessidade de identificar o normal é, antes de tudo, assinalar o que é entendido como diferente e não bem-vindo.

Bem, vamos a prática. Para o meu caso. Sou calvo e não uso qualquer produto de branqueamento ou melhoria da estética dentária. As normas que encontro na televisão e materiais de comunicação já me indicam que essas condições precisam ser alteradas seja pelos incontáveis “remédios” para calvície, cirurgias e produtos de branqueamento dentário. E o melhor de tudo, qualquer coisa que eu pense em utilizar posso pagar “a prestação”. Portanto, tenho tudo disponível para não ficar da minha condição de careca e com sorriso imperfeito. Além disso. Sou um brasileiro a viver em Portugal. Presencio a minha condição de pessoa não querida, direferente ou suspeita, rotineiramente. Por isso, não é difícil entender porque muitos de meus colegas se esforçam imenso para adquirir o sotaque português. Logicamente a minha condição de anormalidade e indesejado em Portugal, nem se quer é imaginada quando estou em meu país. A simplicidade desses argumentos não esconde a complexidade da corrida pela normalidade.

Em 2016, a revista Super Interessante, lançou em sua edição especial História o trabalho Jesus Cristo – O homem e a sua era. É um trabalho baseado em estudos cientistas, de acadêmicos religiosos ou não sobre a personagem histórica Jesus Cristo. É certo que esse é apenas um de muitos trabalhos que podemos encontrar. Mas, como uma coletânea de diferentes pesquisas, é salutar uma atenção para esse texto. Além do mais, o que se segue não é nada de novo e já foi comentado por pessoas muito mais engajadas nesses estudos do que eu. Baseando-se em evidências históricas, o que cabe destacar é que ao considerar o tempo e a localidade em que Jesus viveu, dificilmente o seu aspecto físico seria tão aloirado como o conhecemos, decididamente, tinha irmãos e irmãs e não se pode afirmar que chegou a casar-se. Foi um líder político/religioso, mas não o único. Jesus se opôs ao mundo de seu tempo e proclamou a renúncia, a fraternidade, o perdão e a comunhão de bens. Segundo um de seus estudiosos: “É certo que as igrejas continuam a manter uma recordação de jesus, mas os verdadeiros trasnmissores da sua obra seriam, e continuam hoje a ser, os revolucionários, partidários de um mundo cujo centro seja ocupado pelos pobres, contra igrejas que se aliam sempre aos poderes político-sociais instituídos.” Se existisse o normal, o Jesus eregido pela religião, e que conhecemos hoje, faz parte de uma anormalidade. Afinal, além de assumir um Jesus anormal para a época, branco e filho único, a religião desvirtua a mensagem fraterna e de cuidado com o próximo, para cuidar da família e dos seus. E não nos esqueçamos que dentro da convivência de Jesus com doentes, prostitutas, bandidos e marginalizados, hoje correm para a convivência com o “pessoal de bem” e normais.

Não! não é possível concordar com a normalidade da exclusão que vivemos hoje. Por isso, não se pode coadunar com um lema baseado na família e na religião, na forma que essas duas instituições se eregem atualmente. Surrupiando a mensagem do Jesus histórico, para criar barreiras de acesso a cidadania e à própria vida. Se, por um acaso, houver a necessidade de concordância ou construção de alguma normalidade que ela seja sempre baseada no mandamento de Amar o próximo como a ti mesmo. Somente por essa mensagem que estaremos abertos para o outro, para conhecer o seu lado bom e o seu lado mau, os seus sonhos e as suas dúvidas, suas angústias e alegrias, enfim, estaremos abertos para ouvir a sua mensagem para uma construção conjunta. E se a mensagem do amor fosse algum parâmetro de normalidade, o discurso do ódio e fomento a discórdia seria a evidência da anormalidade em que vivemos atualmete.

 Assim como Oliver concluiu que o meio é o maior responsável pela deficiência experieciada rotineiramente, é preciso percebermos que a normalidade construída atualmente encobre o desejo de imputar ao outro a ignorância e a intransigência de não se conviver com o diferente.

Rogério Lima Barbosa, pós-doutorando pelo CES/UC

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