Cartas do Mundo

Carta de Coimbra: Se a Guerra que nos divide, o conflito pode nos unir

 

11/07/2019 12:28

 

 
O presidente do Brasil escolheu o final da Copa América para ouvir o seu “povo”. À parte dele ter chamado de povo as pessoas que conseguem pagar de 25% a 89% do salário mínimo para o ingresso do jogo futebolístico e se amontoarem em um estádio, também delegou a esse pessoal o poder de julgá-lo e, por tabela, também julgar o ministro Moro. Segundo o presidente esse povo é que diria se eles estavam “certos ou não”.

A peculiaridade do presidente em circundar aqueles que entende de “povo”, não impede que as pessoas que não estão no seu radar de ação se aproximem dele e de seu governo. É o homossexual que diz apoiar o presidente, sabendo que para ele “gay se cura é na porrada!”, a mulher que por ser feia não merece ser estuprada ou aquela que, por ser bonita, pode ser estuprada, ou o negro que não serve para procriar e deve ser pesado em arrobas, ou todos/as os/as “não cidadãos” que, na visão do presidente, merecem ser escrachados em suas conhecidas frases de ódio.

Os não cidadãos, para o presidente, não têm a menor de suas atenções e estão longe dos “cidadãos de bem” e de seu apreço: os empresários e os militares. Recentemente, o presidente declarou que os primeiros são os  heróis do Brasil e os segundos sempre recebem afagos e elogios de Bolsonaro. Até o torturador Ustra é exaltado pelo presidente. E foram justamente os empresários e militares que o presidente achou encontrar no estádio do final da Copa América. Para ele, os seus heróis não iam deixá-lo na mão. Seguramente, ele não contava com as vaias que recebeu. Aqueles/as que o Bolsonaro elegeu de seu “povo” o vaiou, e Muito!. E, se pensarmos na delegação que ele fez por sua frase afirmativa, o seu “povo” deixou claro que não concorda com o seu governo e portanto: SIM!!! ESTÃO ERRADOS. Ao invés das palmas, alegria e mãozinhas de arminha esperadas pelo presidente, ele obteve a mais simples demonstração de desprezo e reprovação, as vaias. Adivinha se ele vai assumir aquilo que disse que ia fazer e, pelo menos, tentar entender a manifestação dos seus escolhidos.

Se o presidente esquivar-se de enfrentar as vaias, ele será nada mais que um covarde. Afinal, ao invés de enfrentar a situação de perigo em que se encontra o seu governo, deverá se voltar para os seus militares afim de mostrar força. Se a posição do presidente pode, para alguns, gerar dúvidas sobre a sua covardia, o pessoal que o apoia merece nada menos que a repetição: Covardes! Covardes! Covardes! Esse entendimento perpassa não somente a consciência que aquelas vaias foram para um igual mas, também, que elas representam o simples desprezo pelos representantes dos mais fracos. Ou quem não se lembra, a poucos anos atrás, em um estádio, em Copa, as mesmas pessoas que topam pagar os preços de hoje ou até mais altos, vociferaram não para um igual, mas para uma mulher: Hei, Dilma vai tomar no cú!!! Cadê os machões para fazer o mesmo com o Bolsonaro? Os marombeiros e os bombadões? Porque essa turma dos estágios não gritou o mesmo para o presidente e, preferiram, ficar só nas vaias? Simplesmente, porque a covardia não os deixa perceber o quanto são hipócritas. Não é irreal se imaginarmos a cena o presidente olhar para esse pessoal, bater o pé e vermos vários desses dignos Chihuahuas, voando para tudo quanto é lado. Ser Pastor Alemão com uma mulher pode ser considerado fácil, agora com o Capitão, Mito???

Mas na verdade, veremos se não é o contrário. Vamos entender que uma coisa não se altera, a covardia. O que se muda é a ilusão. Quem tem curiosidade com cães, sabe que os pequenitos Chihuahuas, sempre latem mais bravos diante de cães grandes. E por quê? Uma das hipóteses é porque ao ver um Pastor Alemão a sua frente, ele é o próprio Pastor. Curiosamente, esse, se não treinado, tende a se amedrontar defronte ao gigante Chihuahua.

Mas deixando os Chihuahuas de lado... como é que tantos “não cidadãos” que, simplesmente, não produzem uma sobrancelha erguida do presidente, idolatram não só ele mas o seu par Sérgio Moro? (Falar em par, o Pink e o Cérebro colocaram a Vaza a Jato em uma avacalhação geral sobre Deltan e Sérgio). O entendimento do povo brasileiro, é que nos fornece alguma luz para esse entendimento.

O sociólogo Jessé Souza, dedica a sua obra para entender o que une o povo que se entende como brasileiro. De partida é uma obra contra-corrente. Tem dois pontos que merecem relevância para esse texto. Primeiro ele acaba com o sentido de culpa e de vira-latas impregnado em grande parte da população. Por exemplo, e bem superficial, as suas pesquisas demonstraram que a nossa situação de agora é de responsabilidade nossa! Mas, pera aí, você poderia dizer, que raio de descobrimento é esse, não é algo óbvio? Em um país onde grande parte da população e alguns acadêmicos afirmam que os nossos problemas começaram há pouco mais de 500 anos e que foram os portugueses os culpados, é claro que não é uma afirmação óbvia. Ouvir Jessé, neste momento, é Libertador! Mas como? Bem, de partida, se a responsabilidade é nossa e, no fundo minha e tua, porque o caraças é que precisamos do raio de um herói?

Assumir a nossa responsabilidade, é parar de jogar a culpa para outros (é remodelar o ditado: se a culpa é minha eu a coloco em quem eu quiser!). Se a resolução de problemas emerge do conjunto, não há um herói que virá surgir e nos livrar de todos os nossos males de cada dia. Como se, nos dias de hoje, o herói viesse nos salvar dos corruptos que somos ao tirarmos cópias pessoais nas máquinas do trabalho, usar o carro institucional para assuntos particulares, usar o cartão da empresa para uso privado, o motorista para buscar filhos/as e tantas outras ações que, para o conhecido Durkheim, nada mais são que ações imorais. Porque tiram proveito do coletivo para favorecerem necessidades individuais – reais ou imaginárias. Por consequência, colocando Durkheim nesse caldo, a busca de um herói é uma atitude Imoral. E, portanto, a ação daqueles/as que vêm em Sérgio o seu herói, o faz isso para continuar a replicar as suas próprias pequenas corrupções diárias, centradas no individualismo (entenda o Moro pelo humorista Duvivier). É como aquele fel em falar que o fim de semana para a salvação é para ficarmos livres para pecar a semana inteira.

Além da imoralidade em achar um herói quando, conforme o Senador Randolfe, a luta contra a corrupção não é património de ninguém porque é de responsabilidade de cada brasileiro/a, por que um país dito de maioria católica não escuta a mensagem explícita do Papa sobre a parcialidade de Moro? Uma parte da resposta vida das ideias de Jessé, porque a outra permeará a análise de discurso e a influência da Globo, é que o/a brasileiro/a evita o conflito. Apesar de todo gerente de projetos ou qualquer pessoa com amigos ou que teve algum relacionamento saber que o conflito é essencial para tirarmos dúvidas, aparar arestas, convergir pensamentos e continuarmos em frente e juntos, o/a brasileiro/a evita. E o evita para manter o(s) atraso(s) erguido(s). Pois, se o ditado em briga de marido e mulher ninguém mete a colher! existe para deixar o Machismo vivo e ativo, a Política não se discute! Para deixar o domínio do mais forte presente pois, em nenhum momento, ele vai ouvir o outro e se abrir para o diálogo, muito menos, andar juntos. Ao invés do conflito, vivemos em Guerra. Pois somente a Guerra, cria a ilusão do extermínio justo e da luta contra o inimigo. Somente ela é capaz de criar o medo que congela e para o peito, para emergir a falta de razão em sermos capazes de acreditar naqueles que, literalmente, querem o nosso flagelo e a nossa escravidão para servirmos os/as escolhidos/as apontados descaradamente por um eleito e formalizados em uma Nova Previdência: os empresários e os militares. Somente a Guerra fomenta o Medo e o Ódio que vivemos hoje.

E se é a Guerra que nos divide, o conflito pode nos unir. Assim, se as ideias existentes hoje quebra os laços de amizades e familiares, termos o exercício de buscar nessas ideias algum ponto que possa ter convergência é o nosso ofício. Então, vamos ver... talvez podemos começar com a Escola Sem Partido. Pode ser uma ótima proposta dividida em cinco passos: Passo 1 – Suspenda todas e qualquer concessão, direitos e apoios para qualquer escola que milite um credo; Passo 2 – Entregue ao poder executivo todas as escolas militares; Passo 3 – Retire qualquer apoio de qualquer instituição de ensino particular e/ou que não seja conduzida por cooperativas; Passo 4 – Valorize e destaque todas as instituições de ensino públicas; Passo 5 – Promova a troca das melhores práticas, tendo as instituições públicas e/ou aquelas geridas por cooperativas como organizadoras e fomentadoras do Ensino voltado para a cidadania e para o bem público. Penso que pode ser um bom começo para o diálogo e o caminhar para frente.

Rogério Lima Barbosa
Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra – Portugal
Membro do Health, Technology and Society Research Group, Universidade de Exeter – Inglaterra
Pós Doutorando PNPD/CAPES - Programa de pós-graduação em saúde da criança e da mulher – IFF/FIOCRUZ

Conteúdo Relacionado