Cartas do Mundo

Carta de Havana: Foro de São Paulo - unidade diante da ofensiva neoliberal e imperial

 

16/07/2018 11:31

 

 
A 24ª edição do Encontro Anual do Foro de São Paulo se realizará em Havana, em época na qual os esforços pela unidade e integração latino-americana e caribenha se vê bombardeada por Washington e pelos governos neoliberais da região e a vocação expansionista do governo dos Estados Unidos se torna cada vez mais perigosa e agressiva.

O Foro de São Paulo é um espaço de convergência, debate e ação conjunta nascido do Encontro de Partidos e Organizações Políticas de Esquerda da América Latina e do Caribe, celebrado em 1990, com o patrocínio do Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro. Entre os 439 delegados que assistirão ao evento há representantes de partidos e movimentos da América Latina, Caribe, Ásia, Europa e África.

O governo dos Estados Unidos e sua maquinária de terrorismo midiático demoniza o Foro e repete que ele significa “uma ameaça à democracia”, que é um aparato “unificador do comunismo”, ou “a confluência da esquerda e os grupos terroristas de toda a Ibero-América”. Sua “periculosidade” se baseia no temor dos Estados Unidos dos seus resultados e potencialidades, como alternativa de luta para buscar formas de integração e enfrentamento da ofensiva intervencionista.

A brasileira Mônica Valente, secretária-executiva do Foro, reiterou a necessidade de a esquerda estar unida para enfrentar a onda neoliberal e imperialista que aflige os povos da região, e recordou Fidel e Lula, fundadores deste espaço de articulação entre as forças partidárias progressistas e movimentos sociais.

“Este encontro em Havana pode ter a mesma importância histórica que quando surgiu, nos Anos 90. Os desafios são muitos, mas trabalhamos inspirados pelo mais profundo compromisso com a unidade da esquerda, com o objetivo de buscar consensos para a Nossa América e pela integração dos povos, das forças partidárias e dos movimentos sociais. Tenho a convicção de que venceremos”, disse Valente.

“Porém ao longo dos anos, as ideias de uma América Latina e Caribe soberana, integrada, com desenvolvimento econômico e social para todas e todos se mostrou possível, verdadeira, concreta”, acrescentou.

“Desde Hugo Chávez, em 1999, começamos a construir uma alternativa real de um novo presente e um novo futuro para nossos povos”, com importantes conquistas nos anos que se seguiram, como o fortalecimento do Mercosul, a criação da União dos Países Sul-Americanos (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos (CELAC), entre outras instâncias, com a proclamação da América Latina”, lembrou a organizadora. Ainda assim, Valente alertou sobre o fato de que, como nos Anos 90, “hoje se vive uma forte contraofensiva do imperialismo e do neoliberalismo”.

A secretária-executiva faz uma análise profunda da situação atual para saber quais são as forças e condições da esquerda. “Esta edição de número 24 pode ter a mesma importância histórica das dos Anos 90, quando caiu o Muro de Berlim”, comentou.

A primeira sessão do evento, neste domingo (15/7) contou com a assistência do primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas Ralphs Gonçalves, o lutador independentista porto-riquenho Oscar López Rivera e a ex-presidenta do Brasil Dilma Rousseff, entre outras personalidades latino-americanas.

A jornada também incluiu a Escola de Formação Política e o III Seminário “Visões Compartilhadas” do Partido da Esquerda Europeia com o Foro de São Paulo; a plenária Contra o Colonialismo, pela Solidariedade Antimperialista e a paz; e finalmente o encontro de jovens participantes.

José Ramón Balaguer Cabrera, chefe do departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista de Cuba, afirmou que essa unidade continental não só é essencial para enfrentar a atual ofensiva do capital transnacional, orientada a controlar os recursos naturais e o destino político dos nossos povos, e para preservar os espaços de poder alcançados.

Também acrescentou que é preciso assegurar a solidariedade necessária às experiências políticas e de governo que persistem em avançar por caminhos diferentes aos pautados pelos defensores do capitalismo. “Construir essa unidade foi e é, segundo a experiência histórica cubana, uma condição essencial para confrontar qualquer ofensiva adversária”, reiterou Balaguer.

O chileno Juan Andrés Lagos crê que a reunião, nas atuais circunstâncias, ganha em importância tática e estratégica contra a hegemonia da versão mais selvagem do capitalismo. “O encontro traz consigo o desafio de dar um novo ímpeto à luta dos povos que ainda não terminou”, comentou o dirigente comunista, para quem é necessário frear a ofensiva imperialista, a tentativa de refundação do capitalismo selvagem.

Vários delegados afirmaram que a unidade e a integração da região em todos os sentidos são a única forma de enfrentar a intromissão dos Estados Unidos, que está chegando a limites extremos, sem descartar a intervenção militar direta e a geração de focos de conflitos em vários países da região.

A carta de Lula

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva enviou uma carta da prisão ao Foro, na qual apontou a unidade da esquerda como elemento essencial neste momento, para o enfrentamento contra o imperialismo e contra as elites reacionárias, entreguistas e intolerantes da América Latina.

Indicou também que a defesa da integração latino-americana não só é uma herança das ideias progressistas de várias épocas como também é mais necessária que nunca como fator de desenvolvimento e enfrentamento da crise econômica. “Temos que resistir aos ataques contra os direitos sociais e trabalhistas que ocorrem em vários dos nossos países”, diz a missiva.

Lula indica que “nossos partidos (de esquerda) devem defender uma política exterior com pontos em comum que privilegiem a soberania nacional e regional, a resolução dos conflitos e uma visão humanista sobre o tema dos migrantes e refugiados”.

Também ressaltou que os dois valores fundamentais que as elites e os interesses econômicos tentam reduzir e sujeitar são a democracia e a Justiça. “Nossa resposta deve ser o fortalecimento e aperfeiçoamento da democracia, para que a justiça, a liberdade e a igualdade possam prosperar plenamente”, comentou Lula.

“Querem me impedir de disputar as eleições deste ano, mas jamais me calarão, e tampouco me impedirão de lutar pelos direitos do povo brasileiro, latino-americano e caribenho”, concluiu o ex-presidente brasileiro, cofundador do Foro.



Elmer Pineda dos Santos é jornalista cubano associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la




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