Cartas do Mundo

Carta de La Paz: Filho de narcotraficante tenta chegar à Promotoria. Manobra dos EUA?

 

10/10/2018 12:38

 

 

O governo dos Estados Unidos, não cede em sua tentativa de impor uma matriz comunicacional, no plano internacional, que insista na qualificação do Estado Plurinacional da Bolívia como um Estado narcotraficante, em do seu presidente indígena, Evo Morales Ayma, como uma autoridade estatal comprometida com essa atividade ilegal.

Não é novidade o fato de o país do norte usar juízes e promotores para produzir acusações que permitem, através dos aparatos judiciais, gerar golpes de Estado institucionais, como o que ocorreu no Brasil, ou perseguições judiciais (o chamado lawfare) a políticos progressistas, como vemos também na Argentina e no Equador, contra ex-presidentes que exerciam uma soberania incômoda aos interesses hegemônicos.

Na Bolívia, uma primeira tentativa de atacar nessa direção se produziu quando o ex-promotor Marcelo Sosa, em abril passado, acusou o presidente Morales de ser o autor intelectual de crimes de lesa humanidade, em referência às mortes de Eduardo Rozsa Flores, Arpad Magyarosi e Michel Martin Dwyer, membros de uma célula paramilitar que planejava realizar ações separatistas para desmembrar a Bolívia. O caso foi parte de um operativo realizado no Hotel Las Américas de Santa Cruz, em 16 de abril de 2009.

O mencionado promotor se refugiou no Brasil, de onde as autoridades judiciais apresentaram ao Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a concessão do seu status de refugiado, no começo de 2017. As acusações contra Morales, não prosperaram, apesar de a denúncia também ter sido levada, posteriormente, à Corte Penal Internacional.

Depois desta tentativa com o ex-promotor Sosa, a embaixada estadunidense faz uma nova manobra para tomar o controle do Ministério Público, instância fundamental para o início dos processos acusatórios.

Para isso, inscreveu a candidatura de Jorge Pérez Valenzuela para o cargo de Procurador Geral, praticamente nos últimos minutos antes de encerrado o prazo final e com a ajuda de amigos comuns de sua cidade natal – e apesar dele estar impossibilitado de exercer esse cargo, como medida cautelar por estar acusado em um caso de corrupção.

Mas esta candidatura foi aceita e está sendo impulsada de forma preocupante por pessoas de dentro do Movimento Ao Socialismo (MAS) próximas de Pérez Valenzuela, e que, sedentas pelo poder, vem promovendo todo tipo de aliança.

Pérez Valenzuela ocupou os cargos de vice-ministro de Governo e ministro da mesma pasta, e foi no exercício desse cargo que ele ocultou a ordem de captura internacional gerada pela Interpol pendente contra o seu pai, Jorge Pérez Ardaya, que foi preso no dia 6 de dezembro de 2006, no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, junto com outras 18 pessoas, tentado levar à Espanha um total de 88 quilos de cocaína.

Esta situação se deu quando se iniciou em Buenos Aires uma auditoria sobre os bolivianos com ordem de captura na Argentina, aparecendo nas listas o nome de Jorge Pérez Ardaya. Logo, o juiz substituto Diego Zysman Bernaldo de Quiróz – que depois seria investigado pelo Conselho da Magistratura argentino – lhe deu um habeas corpus para que pudesse ser processado sem prisão preventiva. Entretanto, Pérez Ardaya fugiu em pleno processo de investigação.

Quando a informação já era de domínio público, o ministro de Governo, Carlos Romero Bonifaz, declarou publicamente que Pérez Ardaya não gozava de nenhuma proteção estatal e que, se era requerido pelo Estado argentino, seria extraditado, o que finalmente aconteceu no dia 14 de fevereiro de 2017.

Essa decisão contra seu pais afastou Jorge Pérez Valenzuela do governo de forma definitiva. Até então, ele ainda circulava pelos corredores do Ministério de Governo, como um profissional requerido para consultas em casos especiais, como expressou o próprio ministro Romero, em uma entrevista no dia anterior ao da decisão de extraditar o seu pai.

Caso consiga eleger Pérez Valenzuela como Procurador Geral, os Estados Unidos teriam todos os argumentos para demonstrar a relação familiar deste com o tráfico de drogas e, a partir disso, acusar o Estado Plurinacional em seu conjunto, de proteger tal atividade.

O candidato a Procurador Geral vive hoje na cidade de Santa Cruz de la Sierra, como membro de um consolidado escritório de advogados, reconhecido por seu potencial para lidar com processos penais e causas relacionadas com a Lei Antinarcóticos e a defesa de invasores de terras.

Com esta designação, já podemos dizer que a estratégia estadunidense visa instalar o lawfare como mecanismo para desestabilizar o processo político boliviano?

Carlos Quispe é advogado e docente boliviano, colaborador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


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