Cartas do Mundo

Carta de Lima: Uma Cúpula das Américas moldada pelos interesses dos Estados Unidos

A VIII Cúpula das Américas se realizará num contexto em que os Estados Unidos trabalha fortemente para assegurar a hegemonia sobre o que sempre considerou o seu quintal de trás, bombardeando governos e sabotando todos os esforços latino-americanos de integração horizontal

10/04/2018 16:05

 

 
Por Mariana Álvarez Orellana
 
A VIII Cúpula das Américas se realizará em Lima entre os dias 13 e 14 de abril, com a presença de 22 presidentes e 12 primeiros-ministros do continente como convidados e um mandatário censurado (o venezuelano Nicolás Maduro), num contexto em que os Estados Unidos trabalha fortemente para assegurar a hegemonia sobre o que sempre considerou o seu quintal de trás, bombardeando governos e sabotando todos os esforços latino-americano de integração horizontal.

Nesta terça-feira (1074), o presidente Donald Trump cancelou sua participação, com a justificativa de permanecer em seu país para supervisionar uma possível ação militar na Síria, embora se especule que a verdadeira causa de sua mudança de plano e a ausência de apoios às medidas programadas contra a Venezuela. A decisão deixa muitas expectativas dos governantes da região frustradas, já que muitos ansiavam por uma reunião bilateral com ele. O vice-presidente Mike Pence irá ao evento em seu lugar.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) pautou a sua oitava cúpula com o tema da “Governabilidade democrática diante da corrupção”, e o faz em um país que acaba de perder o seu presidente em meio a um escândalo de corrupção (Pedro Pablo Kuczynski), o mesmo que no ano passado indultou outro ex-presidente que estava preso por corrupção e genocídio (Alberto Fujimori), sem contar os casos de um ex-presidente que está preso (Ollanta Humala) e outro que teve sua repatriação solicitada pela Justiça (Alejandro Toledo).

O Caso Odebrecht ainda retumba em todo o continente. A empreiteira brasileira é acusada de montar um complexo esquema de subornos e compra de favores a presidentes, políticos e altos funcionários, de esquerda e de direita, em países como Brasil, Argentina, Colômbia, República Dominicana, Equador, Guatemala, México, Panamá, Peru, Chile e Venezuela, que teria envolvido mais de 788 milhões de dólares. Escândalos de corrupção que alcançaram a vários dos que participarão da reunião na capital peruana, como Michel Temer, Juan Manuel Santos, Sebastián Piñera, Enrique Peña Nieto e Mauricio Macri.

Atualmente, existe um grande interesse do capital internacional em recuperar a América Latina como espaço de acumulação e reserva de capital, independentemente da constituição do velho sonho da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). O livre mercado necessita de mais graus de legalidade e de Estados que assegurem o movimento dos capitais.

“Embora os grandes capitais sejam cúmplices e promotores da corrupção ao redor do mundo, na América Latina tem sido, também, uma fonte de encarecimento da produção, de baixa de produtividade, de fuga de recursos públicos e privados, de aumento das incertezas, de freio aos investimentos, e, portanto, de estancamento econômico”, analisa o economista peruano Oscar Ugarteche.

A ALCA foi anunciada como ideia durante o evento que institucionalizou este foro presidencial pan-americano: a Cúpula de Miami, em 1994. Contudo, aquele primeiro projeto foi derrotado na reunião de Mar del Plata, em 2005, graças à aliança de Hugo Chávez, Lula da Silva e do anfitrião Néstor Kirchner contra o estadunidense George W. Bush, e hoje está mais longe que nunca de se tornar realidade.

Naquele mesmo evento em Miami, a propaganda para a ideia da ALCA se fazia através do então recentemente inaugurado tratado NAFTA (sigla em inglês para o Tratado de Livre Comércio de América do Norte) entre Estados Unidos, Canadá e México. O NAFTA era o modelo de expansão regional para a ALCA, e hoje está em processo de desmantelamento, ao menos segundo as intenções de Donald Trump.

Após Mar del Plata (2005), e com exceção às reuniões de Trinidad e Tobago (2009) e da Colômbia (2012), a Cúpula tem se alinhado com a agenda do Consenso de Washington, pressionado a favor da abertura comercial dos países latino-americanos. A de Lima será o primeiro evento em que México e Canadá, por um lado, e os Estados Unidos, por outro, se apresentem em aberta discórdia.

No âmbito político, Cuba será a grande ausente das reuniões, já que foi celebrada a sua aceitação na reunião do Panamá, em 2015, depois de décadas sem ser convidada – mas sem deixar de ser protagonista. Hoje, são evidentes as intenções do presidente estadunidense de esfriar novamente as relações entre os países.

O atual presidente dos Estados Unidos está dedicado a colocar mais lenha na fogueira, especialmente com respeito à Venezuela, ao pressionar o Peru a retirar o convite ao presidente Nicolás Maduro, algo sem precedentes, mas que demonstra a passividade da chancelaria peruana.

Por sua vez, a situação da Venezuela marca atualmente o maior grau de impotência continental para tomar e executar as decisões conjuntas digitadas em Washington e em Madrid. Todos querem manter boas relações com o poderoso país do Norte, mas, para muitos, também é impossível aceitar suas imposições.

O México é o país mais afetado, ao ter que se entender com um vizinho que quer reforçar um muro em sua fronteira e que ainda pretende fazê-lo pagar pela obra. Ademais, quer acabar com o tratado NAFTA, o que poderia afetar fortemente a economia mexicana. Os países do chamado Triângulo Norte (Guatemala, El Salvador e Honduras), além da Nicarágua, são outros que vem sendo afetados pelas novas e agressivas políticas dos Estados Unidos contra a imigração.

De qualquer forma, os Estados Unidos e a OEA irão felizes a Lima, porque o presidente de facto do Brasil, Michel Temer, cumpriu sua missão: o ex-presidente brasileiro Lula da Silva, um dos mandatários responsáveis por acabar com o sonho da ALCA em 2005, foi preso antes do início da Cúpula. Agora, tentarão pressionar e chantagear os outros presidentes para tomar ações conjuntas contra o governo constitucional da Venezuela, um país que foi a locomotiva da integração soberana da região neste novo milênio.
 
Mariana Álvarez Orellana é antropóloga, docente e investigadora peruana, analista associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)



Conteúdo Relacionado