Cartas do Mundo

Carta de Lisboa: A política suja contra Mamadou Ba

A esquerda que estiver à defesa vai perder. A esquerda que estiver ao ataque fará a agenda que determinará a vida das pessoas, tranquilidade na rua, salário digno, cuidados para quem precisa

04/02/2019 11:17

 

 

Almoçava há dias com uma amiga de origem africana e, como tantas, neta da violação de uma mulher africana por um colono. Ela é tão portuguesa como eu, aqui nasceu, estudou e vive, é a sua terra, mas sente-se menos e sabe porquê: já lhe aconteceu um polícia levá-la para a esquadra por ter pedido um livro de reclamações numa pastelaria, e o mesmo aconteceu com a mãe porque, numa fila de trânsito em transgressão, o polícia só a multou a ela, que lhe disse que era estranho, andor para a esquadra. Até a banalidade magoa, quando a discriminação se baseia no tom de pele. Enquanto me contava estas histórias, e outras haverá que doem muito mais, e haverá tanta gente que sofre e não tem defesa, ia pensando em como se terá sentido o primeiro-ministro, ou os seus familiares, confrontados ao longo da vida com estes silenciosos muros de condescendência ou de agressividade que fazem o racismo. Que António Costa lidou sempre com isso de forma superiormente elegante, nem há qualquer dúvida. Que um dia explodiu e respondeu emocionalmente a uma sistemática agressão de carácter, também foi o que vimos.

Mamadou Ba respondeu a ataques que são o constante da sua vida e, por uma vez irritado, usou o que chamou de “vernáculo” para dizer o que lhe ia na alma. Dedicado desde sempre a um trabalho notável pelo respeito, Mamadou aprendeu a conviver com todos e a fazer conviver, opondo-se sempre à discriminação. Como dirigente do SOS Racismo, isso levou-o tanto a condenar a violência na esquadra de Alfragide como a cooperar intensamente com a chefia da PSP no desmantelamento de uma ação internacional de skinheads nos arredores de Lisboa. Cumpriu bem nesses e noutros casos e a democracia só lhe pode agradecer por isso. Mas, como a resposta de Costa apontou claramente, há essa fundura cultural de um racismo da catacumba, que só emerge quando se pode disfarçar e que toma como alvo quem se destaca no combate pela igualdade – mas que é suficiente para determinar a agenda mediática. E os episódios do debate Jamaica demonstraram três realidades: como a extrema-direita se está a organizar, como alguns partidos e a comunicação social são vulneráveis à sua agenda ou a agravam por razões de oportunidade, e como a política foge da discussão sobre a vida das pessoas.

Quanto à organização da extrema-direita, basta constatar como a meticulosa preparação da tecnologia das redes sociais vai acumulando bolhas de discurso de ódio. Os sites de “apoio ao juiz Carlos Alexandre”, da “seleção nacional de futebol” e dos “bombeiros”, mais as redes de “coletes amarelos”, colecionaram listas de contactos que, por exemplo, foram ativadas com sucesso com o vídeo dos insultos de um candidato do PNR contra Mamadou Ba. Veremos dentro em pouco se os conflitos entre os vários fuhrer destes grupos se esbatem para convergirem no voto no que defende a castração e outras sevícias civilizadoras e dispensa a cruz gamada, pois é só por aí que pode surgir uma chance eleitoral. Mas está tudo montado.

Se esta extrema-direita é ainda marginal, mesmo que possa vir a provocar um susto nas europeias, o seu maior sucesso é a contaminação política. Nem se pode dizer que tenha sido difícil. Os dois sindicatos próximos do PNR na PSP saíram à liça, um major-general, Raul Luís Cunha, agora na reserva, apelou “de imediato à expulsão do indivíduo Mamadou Ba”, o PSD multiplicou-se em vernáculo orgulhoso, o CDS ficou à espreita, sobra-lhe algum receio da recordação das suas campanhas contra os ciganos, a malta das redes sociais ardeu, alguns milicianos foram incendiar caixotes do lixo e o que puderam apanhar. Uma televisão escolheu mesmo reproduzir o vídeo do PNR, deve ter achado graça. O “Correio da Manhã”, sempre lesto, anunciou em primeira página que Mamadou, que trabalhou oito anos na Assembleia Municipal de Lisboa com salário líquido de cerca de 900 euros, tinha ganho uma fortuna. Toda esta operação foi meticulosamente desmontada aqui no Expresso por Daniel Oliveira, que escreveu um manual sobre estas formas de manipulação. Entretanto, o cuidado da Direção Nacional da PSP, instaurando imediatamente um inquérito ao caso Jamaica, ou a posição exigente do Presidente, ou de Catarina Martins, nada podia parar o ímpeto desse “eu até tenho amigos pretos, mas é tempo de lhes dar uma lição”.

Tudo se complicou ainda mais quando o PS decidiu agravar a tensão política, já dias depois do incidente e a frio. Coube a Carlos César essa tarefa, que aliás tem sempre cumprido voluntariosamente. César, que em junho passado, perante a agressão de uma jovem negra no Porto e perante a passividade da polícia, dizia enfaticamente que “é importante que na sociedade portuguesa na%u003o se escondam acontecimentos como estes, que na%u003o sejam mascarados ou trivializados, sendo, antes, devidamente valorizados. E%u001 importante que na sociedade portuguesa se aprofunde o debate sobre o racismo”, passou a acusar dirigentes do Bloco de “procurar acirrar ânimos, perturbar a intervenção das forças da ordem”. Repare-se que não critica declarações por excessivas ou deslocadas, denuncia uma intenção de “perturbar as forças da ordem”.

A declaração a que se refere César é a de Joana Mortágua. O seu texto é exatamente este: “São 4 minutos de violência policial no bairro da Jamaica. Podem ir começando a pensar em desculpas mas não há explicação para isto. E o Bloco vai exigir responsabilidades”. É isto. O mesmo César que há poucos meses repetia que “é importante que na sociedade portuguesa na%u003o se escondam acontecimentos como estes, que na%u003o sejam mascarados ou trivializados, sendo, antes, devidamente valorizados”, passou a ser o mascarador. Ora, a gravidade da acusação não passou despercebida, tratou-se de criminalizar um partido. Foi portanto César quem municiou o PSD para atacar o primeiro-ministro no debate quinzenal e quem ajudou Cristas a ir mais longe com a sua insinuação.

A declaração teve ainda outro efeito, este na comunicação social. O diretor do “Público”, que tinha escrito a 23 de janeiro um editorial argumentando, com equilíbrio, que “nada explica e ainda menos justifica a forma desabrida e descontrolada como os agentes começaram a agredir as pessoas”, e reforçando que “pretender que a denúncia deste tipo de atitudes é uma forma de esvaziar a autoridade da polícia não passa, por isso, de pura demagogia”, mudou de posição mal César lançou o seu ataque e passou a condenar as “declarações irresponsáveis de Joana Mortágua” (recordemos: dizia ela simplesmente que houve “agressão policial”, o que o mesmo Carvalho descreveu como a “forma desabrida e descontrolada como os agentes começaram a agredir as pessoas”).

Mas o que nos dizem todos estes alinhamentos, ou esta necessidade de alguma comunicação social – mesmo com exceções notáveis como o Expresso e o DN – conviver com uma estratégia de tensão? Conhecem a minha resposta. Estamos na época da política suja e o seu efeito tóxico é amplo. Vai ser assim, o ataque a Mamadou Ba foi um ensaio, afinal ele é negro, antirracista e, pior, de esquerda.

Resta saber como deve a esquerda responder. E a escolha do caminho tem dificuldades mas vai ser fundamental. Na minha opinião, defendendo todas as vítimas dos ataques e erguendo uma solidariedade democrática mobilizada, só pode concentrar-se no essencial: garantir segurança na vida das pessoas. O ataque mais forte contra a esquerda não vai vir do nazi que se proclama racista; vai vir dos partidos da direita tradicional que vão dizer aos pobres que “não somos racistas” mas que os ciganos ou os imigrantes estão a ficar com o dinheiro que devia ser para eles ou a ocupar as listas de espera nos hospitais. Foi assim se que se fez Trump e Bolsonaro e é assim que resulta. E o PS vai por-se no meio à espera que a esquerda pareça ser o espelho da extrema-direita. Não basta portanto uma barreira antifascista, a força que ganhará será a política popular que garanta a toda a gente a segurança do emprego e do hospital público de qualidade, a garantia de poder ir na rua sem medo e de ter casa para os filhos.

A esquerda que estiver à defesa vai perder. A esquerda que estiver ao ataque fará a agenda que determinará a vida das pessoas, tranquilidade na rua, salário digno, cuidados para quem precisa. A paz, o pão, habitação, saúde, educação, lembra-se? Vencer a política suja com política popular, com a limpidez da democracia.

Francisco Louça é professor universitário e ativista do Bloco de Esquerda

Artigo publicado em expresso.pt a 29 de janeiro de 2019

*Republicado a partir de esquerda.net

Conteúdo Relacionado