Cartas do Mundo

Carta de Lisboa: Cuidado, eles estão já à porta

 

05/11/2018 13:19

 

 

Italo Calvino viajou nos finais de 1959 para os Estados Unidos, onde ficou vários meses. Encantado com as conversas, as pessoas e as paisagens, descreveu as suas recordações em “Um Otimista na América”, não escondendo no entanto algumas das surpresas que encontrou. Uma delas foi o fervor da Guerra Fria e as suas particularidades cénicas. Escreveu ele: “Há um senador que deu início a uma campanha para que a palavra Comunismo seja escrita com a inicial K. Komunismo, para tornar claro a todos que é coisa estrangeira e odiosa. Dir-se-á que uma certa quota de deficientes mentais sempre existiu em todas as classes dirigentes desde que o mundo é mundo.”

Talvez em homenagem a essa quota, o Conselho Económico da Casa Branca publicou um relatório contra o ascenso dos socialistas nos Estados Unidos, magicamente impulsionados pelo aniversário de Marx. “Coincidindo com o 200º aniversário do nascimento de Karl Marx, o socialismo está a regressar ao discurso político americano. Propostas políticas pormenorizadas de alguns autodeclarados socialistas estão a ganhar apoio no Congresso e em muito do eleitorado”, afirma o texto. “Os Custos de Oportunidade do Socialismo” é o título do relatório, que se alinha com o tom dos tweets mais brejeiros de Trump, criticando “soluções como políticas públicas que asseguram muitos dos bens e serviços da nação ‘gratuitos’ (‘a cada um segundo as suas necessidades’)”. Este perigo, como é evidente, é o da criação de um serviço nacional de saúde, um dos debates nas eleições de novembro, que tem dado alguma primazia a candidatos democratas. Ameaça o relatório que, se os EUA adotassem políticas ao estilo dos países do Norte da Europa dos anos 1970, “o PIB real por pessoa baixaria pelo menos 19%”.

Num texto de opinião no “US Today”, Trump retoma a mesma ideia: “Cada cidadão seria atingido por tal mudança radical na cultura e vida americanas. Virtualmente em todos os lugares onde foi experimentado, o socialismo trouxe miséria, sofrimento e decadência”, tudo isto para acusar os democratas de repetirem a Venezuela. Este bordão lembra o senador que Calvino encontrou no apogeu da Guerra Fria. Exibe, aliás, a estratégia que venceu com Trump e que, amanhã, pode vencer com Bolsonaro: é sempre preferível que os eleitores não conheçam a minha proposta, basta que odeiem os meus adversários.

Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara, ensaiou uma resposta tímida: “Nós, os democratas, somos capitalistas, e é assim mesmo”. Não lhe falta nem razão nem sinceridade, mas será que isso basta?

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 27 de outubro de 2018

*Republicado a partir do Esquerda.net

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