Cartas do Mundo

Carta de Lisboa: O risco de jogar pingue-pongue

Esta será a maior armadilha da primeira campanha eleitoral que se realizará em Portugal sob a égide das técnicas trumpistas. Batalhões de perfis falsos marcharão pelas redes, os insultos esvoaçarão e serão repetidas as deixas que resultaram noutros países.

24/09/2020 15:06

(flickr/Jeso Carneiro/bit.ly/2EvCQjr)

Créditos da foto: (flickr/Jeso Carneiro/bit.ly/2EvCQjr)

 
Recebi de um leitor uma reprodução do “New York Times” que insultava as autoridades por causa da Festa do “Avante!”. Quando lhe perguntei se sabia que é uma falsificação, respondeu-me que não importa, porque a capa denuncia o PCP e Costa. Não será coincidência, mas no dia seguinte vi num tuíte do eurodeputado Nuno Melo que uma aula de Educação Física foi interrompida para se realizar uma sessão para explicar às crianças a atração sexual por objetos inanimados. Perguntado onde e quando, respondeu que isso não importava, mas que o interlocutor tinha que se pronunciar sobre “se, tendo acontecido, isto é normal ou não”. Bem sei que parece uma anedota do Solnado, mas foi a isto que chegou a banalização das fake news. A mentira é enunciada como uma razão para criar um mundo paranoico de posicionamentos odiosos.

Talvez seja conveniente perceber que esta será a maior armadilha da primeira campanha eleitoral que se realizará em Portugal sob a égide das técnicas trumpistas. Batalhões de perfis falsos marcharão pelas redes, os insultos esvoaçarão e serão repetidas as deixas que resultaram noutros países (“a pior candidata de sempre” é a cópia literal de Trump). O candidato da extrema-direita precisa de contracenar com alguém e já escolheu um alvo. Acha, presumo que erradamente, que conseguirá troco e fará uma novela. Para o ódio se enunciar, precisa de ter esta encenação, e pode até haver quem pense que o pingue-pongue compensa, criando notícias e uma aura. É ilusão. O pingue-pongue só alimenta a monstruosidade. Por isso as candidaturas sérias terão que decidir como respondem. Para se fazer frente a esta cultura, ainda mais do que ao personagem, deve-se escolher alvos e momentos. Talvez a proposta de baixar os impostos sobre os ricos, vinda de um advogado de um escritório de gestão de interesses económicos, seja mais reveladora do que qualquer fogo de artifício.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 12 de setembro de 2020 | Via Esquerda.net

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