Cartas do Mundo

Carta de Manágua: Após 39 anos do triunfo sandinista, Ortega continua no poder

 

22/07/2018 07:20

 

Por Victoria Korn
 
Milhares de pessoas comemoraram em Manágua o 39º aniversário do triunfo da revolução sandinista, aos gritos de “fica, meu comandante, fica”, apesar da repressão contra os protestos antigovernamentais por parte do governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo, que deixou cerca de 350 mortos como saldo dos últimos três meses.

Com bandeiras, gorros e lenços, a multidão tingiu vermelho e preto – cores da bandeira da Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN) – a praza La Fe, uma esplanada no centro de Manágua, se encontrava lotada de uma multidão que cantava ao ritmo de um tradicional refrão de cumbia: aunque te duela, Daniel se queda, (“apesar de te doer, Daniel vai ficar”), contrastando com o silêncio das ruas ao redor.

A revolução sandinista, da qual o presidente foi um dos participantes, triunfou no dia 19 de julho de 1979, e decretou o fim da ditadura da dinastia Somoza na Nicarágua.

“Em seu momento, Ortega soube ser herói de verdade. Mas hoje, sua tragédia encerra um ciclo da mesma forma que outros processos anti-imperialistas de países semicoloniais (Iraque, Síria, Líbia), onde as contradições, longe de se resumir ao maniqueísmo entre bons e maus, foi construída a partir de alianças entre os bons que não são tão ruins e os malvados que não são de se jogar fora”, comenta o analista argentino-mexicano José Steinsleger, que cobriu a Revolução Sandinista desde sua vitória até os seus primeiros anos.

“Uma história na que o povo da Nicarágua derrotou três intervenções militares dos ianques, e que os Ortega-Murillo desonraram, manchando a bandeira rubro-negra de rosa e cinza, e optando por se associar com miseráveis como Arnoldo Alemán e Enrique Bolaños, ex-presidentes que os antecederam no cargo”, agrega.

O casal Ortega-Murillo enfrenta uma profunda crise, iniciada no dia 17 de abril, após um ajuste econômico e uma fracassada reforma da previdência social. Os protestos, que foram se tornando cada vez mais frequentes em boa parte do país nos últimos três meses deixaram mais de 350 mortos, segundo as organizações civis.

Junto com os protestos também se iniciou uma intensa campanha de terrorismo midiático cartelizado – através dos meios hegemônicos em todo o continente – com algumas verdades e muitas mentiras sobre a realidade.

Tentaram diminuir os salários, as aposentadorias e aumentaram a idade para se aposentar, esses foram os três fatores que causaram a indignação popular. “O governo respondeu somente com repressão, com força pública. O Exército não interveio, porque se guarda para o caso de o governo cair. Então, se aciona a polícia de choque contra os camponeses e estudantes”, relatou o analista internacional Guillermo Almeyra, do diário mexicano La Jornada.

Obviamente, os Estados Unidos também têm participação nesse conflito, assim como é certo que a direita está esperando uma possível queda do governo para tentar se aproveitar e recuperar o poder. Mas também há outra alternativa: que o governo caia e deixe que os verdadeiros sandinistas, que existem, se apresentem em novas eleições a serem convocadas. Mas os analistas dos principais meios estadunidenses, dizem que o risco é que, no caso de haver novas eleições, Daniel Ortega poderia se candidatar, e talvez até ganhar de novo, devido à falta de opções.

No evento da praça La Fe, houve um discurso bastante carregado contra a Conferência Episcopal. O presidente Ortega assegurou que “pensava que (os cardeais) eram mediadores (da mesa de paz com a oposição), mas logo eles se mostraram comprometidos com os golpistas".

Ortega recebeu o apoio dos presidentes da Venezuela e da Bolívia. Nicolás Maduro, afirmou que “diante das agressões imperialistas, o governo da Nicarágua conseguiu agir para derrotar o plano terrorista e golpista”. Por sua parte, Evo Morales, tuitou que os Estados Unidos “impulsando estratégias criminosas contra o governo do irmão Daniel Ortega”.

Em Washington, Todd Robinson, conselheiro do Departamento de Estado para assuntos relacionados à América Central, disse que seu governo analisa “todas as opções” para buscar uma solução à crise nicaraguense.

“É muito irônico e cínico que, no 39º aniversário da queda de Somoza, o regime de Ortega esteja reprimindo sua própria população”, afirmou, o que gerou uma nova ironia devido ao apoio e financiamento de Washington àquele regime e às agressões militares e econômicas contra a Nicarágua sandinista, incluindo o famoso caso Irã-Contras.

Almeyra qualificou como “terrível” a atitude do dueto Ortega-Murillo, que fez as piores concessões à direita no intuito de se manter no poder. “Fez acordos com as elites e com a cúpula da Igreja Católica. Se faziam passar por esquerdistas financiados pela Venezuela, mas aplicaram uma política de direita pró capitalista, de acordo com os interesses dos Estados Unidos”, analisou.

A Revolução Sandinista completou 39 anos. Muitos de seus sonhos foram esquecidos no caminho, e outros se cristalizaram. Muitos dos protagonistas da revolução se afastaram da vida política, outros continuam lutando dentro da FSLN, não sempre do lado do presidente. Enquanto isso, Daniel Ortega e Rosario Murillo seguem encabeçando o governo.
 
Victoria Korn é jornalista venezuelana associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



Conteúdo Relacionado