Cartas do Mundo

Carta de Manágua: O ajuste e uma medida desnecessária

 

25/04/2018 11:05

 

 

Após vários dias de protestos e violentos choques entre manifestantes e policiais, que deixaram um saldo de dezenas de mortos, feridos, desaparecidos e detidos, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, recuou em sua decisão de reduzir os valores das aposentadorias e incrementar as quotas a pagar por parte de trabalhadores e patrões ao Instituto Nicaraguense de Seguro Social (INSS), mas os protestos não pararam.

Nesta segunda-feira (23/4), milhares de nicaraguenses marcharam pacificamente contra o governo e contra a violência policial. O mandatário nicaraguense seguiu sob pressão quando o Conselho Superior da Empresa Privada, seu aliado nos últimos 11 anos, manteve a convocação à marcha, enquanto os estudantes exigiam a renúncia de Ortega, quem eles responsabilizam pela morte de manifestantes.

A medida, que foi adoptada no dia 16 de abril com o argumento de que era necessário dar estabilidade financeira ao sistema de pensões, provocou a ira de muitos setores populares, mas também na hierarquia católica (outra aliada tradicional de Ortega) e das cúpulas empresariais do país, e levou milhares de pessoas às ruas nas principais cidades.

Ortega desqualificou os manifestantes comparando-os com os maras (gangues de atuam no sul dos Estados Unidos e em países vizinhos), e disse estar disposto a dialogar unicamente com os empresários, que rechaçaram o convite se o governo não parasse antes com a repressão.

Por sua parte, Ortega ordenou a censura da televisão independente que cobria os protestos e a instalação do Exército nas localidades mais desestabilizadas, e isso levou a um aumento da violência. Na região de Bluefields, na costa caribenha, o jornalista Miguel Ángel Gahona foi morto com um disparo quando transmitia ao vivo uma confrontação entre manifestantes e policiais, segundo denunciou o diário mexicano La Jornada.

No domingo (22/4), Ortega suspendeu o decreto de reforma do INSS, reconheceu que não era viável e que havia gerado uma situação dramática, reiterando seu chamado ao diálogo aos empresários, enquanto setores estudantis e de aposentados manifestaram sua determinação de continuar a luta, agora até conseguir saída de Ortega e de sua esposa, Rosario Murillo, que ostenta os cargos de vice-presidenta e de primeira-ministra.

Novamente, uma reforma à previdência social, aplicando receitas clássicas do FMI (fundo Monetário Internacional), neste caso por um governo que se diz revolucionário-, desembocou num caos social. A tentativa do governo era obter cerca de 250 milhões de dólares em diminuição com a reforma.

Desde os setores da esquerda há um paralelismo com o que aconteceu em anos anteriores, na Venezuela, com barricadas e desestabilização. A questão mais debatida no país hoje é se a direita planejou as mobilizações ou se fez o se tenta aplicar o plano no contexto do avanço continental das forças de direita, direcionado por um projeto dirigido por Washington.

O caso de Lula no Brasil, a prisão de Santrich na Colômbia, o abandono da Unasul por parte de seis países sul-americanos, parecem ser passos de um processo no qual o governo da Nicarágua também parece ser um alvo.

Segundo o diário La Jornada, Ortega é um antigo comandante da guerrilha sandinista que derrotou a ditadura dos Somoza, e que depois participou dos governos que impulsaram transformações sociais no país, mas que hoje governa com um marcado patrimonialismo e uma visão oligárquica, como formas autoritárias e até autocráticas, além de falta de sensibilidade social.

Seus antigos companheiros de lucha sandinista reclamam que o presidente teceu alianças com o empresariado e os setores conservadores da Igreja Católica. Agora, essas relações estão quebradas e o governante se encontra numa situação política precária, apoiado apenas no aparato político e administrativo de um sandinismo desnaturalizado.

Foram vários dias de manifestações violentas na Nicarágua, país que já possui um triste histórico de ocupação e intervenção por parte dos Estados Unidos, em diferentes oportunidades. Os analistas advertem sobre uma tentativa de golpe contra o governo disfarçado de revolução colorida, atentando contra a paz interna e fabricando as condições para uma etapa de acosso geopolítico.

Estudantes, setores de classe média e uma parte da Igreja se mobilizam com um só discurso: a derrubada de um governo eleito popularmente.  Dezenas de sacerdotes, encabeçados pelo cardeal Leopoldo Brenes e o bispo auxiliar de Managua, monsenhor Silvio Báez, apoiaram publicamente os protestos contra as reformas do INSS.

O Conselho Superior da Empresa Privada (COSEP) foi a primeira em rejeitar os anúncios com a desculpa de que gerava “incertezas” e limitava a criação de empregos por parte do setor privado.

No começo, moldaram o sentido político que promoveu a agitação através das redes sociais e dos meios hegemônicos de comunicação, construindo uma narrativa de coesão cidadã diante das reformas, em aparente confrontação com o Estado.

Os edifícios governamentais, e em especial as sedes do INSS, se transformaram nos pontos de partida de uma violência crescente. A hashtag #SOSINSS, articuladora dos protestos nas redes sociais, mudou sua ordem de prioridade para o controle e direcionamento do fluxo informativo ao redor dos acontecimentos, situando como vítimas aqueles que provocavam os distúrbios, servindo-os como fonte primária da imprensa internacional cartelizada.

O que começou com algumas manifestações dispersas em rejeição às reformas do INSS adquiriu um modelo de movimento cidadão com vocação de destruição urbana e violência armada, a clássica mutação das revoluções coloridas que os Estados Unidos financiou em países do Leste Europeu, em busca de maiores graus de confrontação para debilitar governos e colocá-los na defensiva.

Ninguém duvida que por trás destas mobilizações para impulsar a mudança de regime está a mão dos Estados Unidos e seu afã por financiar ONGs, organizações políticas opositoras e fundações. Um total de 31 milhões de dólares foram entregues pela USAID em 2016, com a justificativa de “promover as capacidades para a defesa das sociedades civis”, o que, na prática, significa patrocinar foros e atividades acadêmicas para assessorar grupos dispostos a enfrentar as forças de segurança e desestabilizar o país.

No dia 16 de abril, o portal NicaLeaks dava rosto, nome e sobrenome às organizações financiadas que promoveram a violência nas ruas: “nesta manhã, os dirigentes das ONG opositoras Cenidh, CPDH, Fundação Violeta Chamorro e Façamos Democracia, entre outras, assim como grupos políticos diversos e representantes de importantes meios de comunicação nicaraguenses amanheceram com os braços e os bolsos abertos, na espera de que a USAID siga destinando dinheiro para eternizar o estilo de vida que levam”.

Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la


Conteúdo Relacionado