Cartas do Mundo

Carta de Manágua: Protestos, repressão, realidade virtual, futuro nublado        

O governo nicaraguense fez um chamado nesta segunda-feira (4/6) para retomar o diálogo e tentar recuperar a tranquilidade do país, evitando mais destruição e morte, após as violentas manifestações que sacodem o país desde abril

05/06/2018 17:15

 

 
Por Victoria Korn
 
Depois de um mês de protestos na Nicarágua, o que mudou? Como se chegou a esta situação de desestabilização, com um saldo de mais de 120 mortes? O governo nicaraguense fez um chamado nesta segunda-feira (4/6) para retomar o diálogo e tentar recuperar a tranquilidade do país, evitando mais destruição e morte, após as violentas manifestações que sacodem o país desde abril.

Os bispos da Conferência Episcopal anunciaram, na quinta-feira passada (31/5), que não retomarão o diálogo que se desenvolveu desde a primeira semana de maio, entre o governo e setores opositores, enquanto o povo “continuar a ser reprimido e assassinado” nas manifestações.

“Todos queremos a paz, queremos o diálogo, queremos trabalhar juntos e escutar uns aos outros, discutir todos os temas, porque para tudo há solução”, declarou a vice-presidenta Rosario Murillo aos meios governistas, após expressar seu pesar pela morte do cardeal emérito nicaraguense Miguel Obando e Bravo, nomeado prócer da paz pelo presidente Ortega, que o tinha como um de seus principais aliados, apesar de ter sido um feroz opositor do sandinismo durante o governo revolucionário nos Anos 80.

O papa Francisco também colocou o seu grãozinho de areia, e falou da sua tristeza pela violência letal empregada para reprimir os protestos de caráter social na Nicarágua. Renovou seu chamado ao diálogo e destacou que, para que isso ocorra, “é necessário um compromisso ativo com o respeito à liberdade, e sobretudo à vida”.

A Igreja Católica perdeu muito terreno devido ao crescimento das igrejas evangélica, e as razões são simples: os evangélicos se transformaram em um partido onde os bispos atuam como políticos.

Enquanto isso, vários chanceleres latino-americanos fustigaram o governo nicaraguense na 48ª Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), e solicitaram sanções.

O representante da Nicarágua, Luis Alvarado, afirmou que seu país enfrenta uma conspiração e uma campanha de difamação. “A Nicarágua expressa seu compromisso pela estabilidade sob o ataque de violência gerado por certos grupos da oposição, que conspiram nas sombras, com a finalidade de ativar formatos delitivos para aterrorizar as famílias. Condenamos os fatos de violência, que levaram as famílias nicaraguenses ao luto”, disse.

Montado na conspiração, o líder do Conselho Superior da Empresa Privada, José Adán Aguerri, confirmou a ruptura da central patronal com o presidente nicaraguense. “Necessitamos uma mudança de governo o mais rápido possível. Os empresários erramos ao apoiar Daniel Ortega no passado”, declarou.

Por sua parte, o ex-vice-presidente e escritor Sergio Ramírez, também em confronto com Ortega, indicou que “o diálogo deve se dar longe da manipulação e do engano, e deve estar dirigido a voltar à democracia plena e o respeito aos direitos humanos”. Ramírez, prêmio Cervantes de Literatura em 2017, afirmou que Ortega “soltou o gênio maléfico da garrafa quando reagiu à crise que seu governo enfrenta fomentando o caos e o terror”, e completou dizendo que o seu tempo já acabou. Para o escritor, as próprias ações do presidente acabaram com a sua legitimidade.

Mónica Baltodano, ex-comandante sandinista, conta que desde 2007, quando Daniel Ortega reassume a presidência, a Frente Sandinista começou a ser substituída, em seus mecanismos democráticos internos, por um aparato que é controlado diretamente por Rosario Murillo, esposa de Daniel Ortega.

Um pouco de história

A Nicarágua é um país evidentemente agrário, com muito pouco investimento industrial, exportador de matérias-primas: algodão, carne, café, ouro. A Revolução fez mudanças como a Reforma Agrária, e impulsou o acesso dos camponeses à terra, apesar de que foi muito pressionada e afetada pela agressão estadunidense, que financiava os chamados “contra” (grupos que atuavam pela desestabilização do governo, destruindo portos e instalações de serviços públicos).

Com o atual governo de Daniel Ortega, o país teve melhoria dos índices macroeconômicos devido aos preços favoráveis do café e o do ouro, ao aumento do investimento estrangeiro direto (em zonas francas) e às remessas dos imigrantes. Mas a realidade é que não há maior equidade, e que a concentração de renda dos banqueiros cresceu enormemente, e o mesmo para certos setores vinculados aos mercados mundiais e às multinacionais, que não deixam nada para o país.

“Segundo as estatísticas do governo, a pobreza está diminuindo, mas a diferença entre ser pobre ou extremadamente pobre é a de ter um dólar a mais de renda diária. Isso se dá graças aos programas de caráter assistencial, fundamentalmente a entrega de bolsas, e um pacote agrícola que inclui dos porcos, dez galinhas e um galo”, conta Baltodano.

Também colaborou o ingresso do país ingressa na ALBA (Alternativa Bolivariana para os Povos da Nossa América) e a obtenção de uma ajuda muito importante do governo da Venezuela. Parte desses fundos financiou uma série de programas de combate à pobreza, que não trouxeram mudanças estruturais, mas aliviaram a situação imediata do povo.

Nos Anos 90, houve um período de resistências às políticas neoliberais (as medidas para privatizar tudo) e a destruição das transformações que a Revolução havia feito – como a reforma agrária, alcançada graças à luta dos sindicatos, organizações camponesas e de mulheres. Segundo os analistas, após perder as eleições de 1996, aconteceu a mudança do perfil de Ortega, baseado em um pacto com o presidente de então – Arnoldo Alemão, para realizar uma divisão das instituições: Corte Suprema de Justiça, poder eleitoral, Controladoria.

Por um lado, isso fortaleceu a burguesia, com a apropriação privada de muitos bens que eram de carácter coletivo ou social, o que aconteceu depois das eleições de 1990, e foi repudiado pelos intelectuais sandinistas, como Ernesto Cardenal, por criar o que hoje se chama “burguesia orteguista”, cujos interesses convergem com os da burguesia tradicional, o capital, os banqueiros, etc.

O discurso de Ortega na campanha de 2007 fala sobre paz e reconciliação, mas a gestão promoveu mais uma conciliação com os interesses de classe, sem abandonar um certo discurso de esquerda – o de seguir sendo anti imperialista e sandinista. Ortega também fez uma aliança com a parte mais reacionária da Igreja Católica, o que resultou na proibição do aborto em qualquer caso. Na Nicarágua, o aborto em caso de risco de vida para a mãe ou má formação fetal era permitido desde o Século XIX, sendo parte da chamada “revolução liberal”.

O caso da Nicarágua não é igual aos de Venezuela, Brasil, Argentina ou Equador. O modelo é o da aliança público-privada, onde o Conselho Superior da Empresa Privada tem muita força, praticamente substituindo os partidos de direita. “Apesar desse discurso radical e anti imperialista, as relações com Washington nunca estiveram melhor”, diz uma embaixadora estadunidense. “Não importa o que o senhor Ortega diz, e sim o que o senhor Ortega faz”, explicou a diplomata.  

O governo fala de uma conspiração da direita, desestabilizando o país para impor esse imaginário coletivo. Outros falam de uma insurreição cívica, contra o modelo que mantém as palavras “socialismo” e “solidário”, mas não os conceitos por trás delas. Há muitas forças – algumas com boas conexões com Washington – que querem aproveitar a revolta social, e conduzi-la.

Um país que outrora se vangloriava de ser profundamente cristão hoje vê os demônios serem libertados por um ódio inédito, que chegou como uma tormenta e cobriu todo o território, descarregando raios e relâmpagos de um vandalismo nunca antes visto, e que saiu de controle. Sem contar o poder maquiavélico de grupos intelectualmente reduzidos, que transformaram a verdade em mentira e a mentira em verdade.

Os ódios que liberados desde 19 de abril, por uma situação circunstancial, não tinham porque ter se multiplicado a partir da justa indignação pacífica mostrada inicialmente, para chegar a este nível de terrorismo planejado, tal como expressou a Comissão Interamericana de Direitos Humano. Esta realidade pavimenta o caminho de um golpe de Estado.

A realidade virtual

Giorgio Trucchi conta que a Nicarágua volta a ser refém de uma realidade fictícia que se move ao ritmo das redes sociais, onde a realidade virtual pode mais que a realidade real, as vítimas são os carrascos e os provocadores armados são manifestantes pacíficos. Onde a massa de gente que, de forma autoconvocada, genuína e respeitosa da paz, se mobiliza pela democracia e é transformada em carne de canhão, em “dano colateral”, para alcançar o objetivo final: tirar o governo, custe o que custar.

A realidade virtual é mais forte. Meios nacionais e internacionais, organizações de direitos humanos, reitores de universidades e até bispos que integram a Comissão Mediadora do Diálogo Nacional, reproduzem automaticamente (sem a mais mínima prova) o que chega aos seus celulares ou computadores através das hashtags #SOSNicaragua e #NicaraguaSOS.

“Ninguém menciona que há mortos de ambos os lados, que há policiais mortos, que houve mortes na caravana que foi atacada em Estelí. Ninguém se pergunta o que um grupo de manifestantes armados estava fazendo perto do estádio, a menos de duas quadras de onde passaram os ativistas sandinistas. Ninguém fala do que aconteceu em Masaya e Estelí”, relata Trucchi.

Quem se beneficia com o caos e as mortes?

O governo mostrou estar disposto a se sentar em uma mesa de diálogo e a permitir o acesso ao país de organismos internacionais de direitos humanos, para que investiguem e elaborem informes. Também aceita acatar as 15 recomendações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), e discutir o tema da democratização do país, o que inclui reformas eleitorais, além de adiantar as eleições – sempre e quando não se rompa a ordem constitucional.

Contudo, os movimentos políticos ultraconservadores (sem representatividade popular), setores da hierarquia católica, da empresa privada e da autodenominada sociedade civil (muitos deles estudantes comovidos pelas mortes), além de outros grupos que são ponta de lança de movimentos que pretendem capitalizar politicamente a crise, todos eles só querem uma coisa: a renúncia incondicional de Ortega, de seu governo e de todas as autoridades públicas legalmente eleitas.

Para isso, o diálogo é um obstáculo ao seu projeto, à sua vingança. Seguir este caminho, derrubando o governo e um partido organizado como a Frente Sandinista, pode ser muito perigoso, e pode gerar uma resposta violenta da massa sandinista, para logo capitalizar a comoção mundial. A Nicarágua só poderá sair desse atoleiro se isolar os setores que querem capitalizar a crise e o caos.
 
Victoria Korn é jornalista venezuelana associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



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