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Carta de Nova York: Bolsonaro é o Trump brasileiro? - parte I

 

11/09/2018 10:33

Wilson Dias/ Agência Brasil / Ralph Freso / AFP

Créditos da foto: Wilson Dias/ Agência Brasil / Ralph Freso / AFP

 
Não é surpresa para ninguém que Donald Trump esteja fora de controle.

As seções do novo livro de Bob Woodward, Medo, que foram divulgadas na semana passada, confirmam o que é amplamente conhecido: o presidente é um maníaco egocêntrico com a personalidade de uma criança de sete anos. Creio que o jovem D. Pedro II era muito mais maduro quando foi aclamado imperador em 1831 aos cinco anos de idade.

A confissão de um alto funcionário da sua administração, que foi publicado no New York Times no dia seguinte, ecoou os relatos de Woodward sobre um presidente perturbado e revelou que os que o rodeavam até consideraram usar a emenda 25 à Constituição para destituí-lo do cargo.

O próprio autor anônimo admitiu que ele não faz parte da "resistência" popular da esquerda, o movimento que mencionei na minha primeira carta de Nova York e que aumentou meu ânimo depois da eleição de Trump. Em vez disso, ele insistiu: "Queremos que o governo tenha sucesso e pense que muitas de suas políticas já tornaram a América mais segura e próspera".

Em outras palavras, ele não se opõe ao fato de que Trump e os republicanos aprovaram uma lei de reforma tributária que beneficiou um porcento da elite econômica. Ele não é contra a nomeação de juízes conservador para os tribunais federais. Ele aplaude a desregulamentação das leis que protegem a saúde e a segurança dos trabalhadores e o meio ambiente. Ou seja, o governo de Trump é geralmente bom, com a exceção de certos aspectos de sua política externa, e somente às vezes sua prática é questionável.

O presidente Obama respondeu com um discurso sem precedentes, que criticou Trump e ignorou uma tradição de ex-presidentes de não comentar às ações do atual.  Não é suficiente, Obama insistiu, para o autor anônimo se opor secretamente a dez por cento das ações do presidente, mas apoiar noventa por cento. Isso não protege o país de uma pessoa que não respeita a democracia, é totalmente irracional, não acredita em uma imprensa livre e independente e chama aqueles que discordam dele traidores da pátria.

A resposta patética do charlatão ao Presidente Obama se limitava a comentar que ele achava o seu discurso cansativo e repetir a chamada para uma investigação para descobrir a identidade do autor da carta publicada no New York Times.

Mas isso não foi o único assunto que provocou comentários entre vizinhos, colegas e amigos nova iorquinos esta semana. O Brasil estava na ponta de língua de todos com quem conversei e que sabem a minha ligação com o país. Dezenas de pessoas me consolaram sobre as grandes perdas como resultado do incêndio no Museu Nacional, que exigiu da minha parte longas explicações sobre orçamentos, a crise econômica e a desvalorização de cultura.

As pessoas também queriam saber o que eu pensava sobre o esfaqueamento de um dos candidatos presidenciais. Parece que o Brasil não conseguir se livrar da má sorte, comentou um vizinho. “Não está ele à frente nas pesquisas?” perguntam aqueles que realmente acompanham as notícias do Brasil no New York Times ou na internet? “Quem é esse cara? Ele é um fascista? Ele é como o Trump? Ele vai ganhar?  O que está acontecendo no Brasil?”

Aqui devo aclarar que evidentemente sou contra a violência dirigida a candidatos, políticos ou cidadãos comuns. O choque do assassinato de Marielle Franco ainda está na flor da pele, e o responsável permanece solto. Acredito que a maneira de derrotar Bolsonaro está nas urnas, embora isso não tenha detido um certo austríaco no início dos anos 1930 na Alemanha.  Espero que não chegamos a este ponto no Brasil.

Quem mora fora do Brasil sabe que tem que ter paciência para explicar o país às pessoas que mal sabem que português e não espanhol é a língua oficial. Primeiro eu tenho que clarificar que Lula, mesmo na prisão e com 30-39% de popularidade nas pesquisas, não foi autorizado a concorrer à presidência. Por isso, Bolsonaro está na frente nas pesquisas com aproximadamente 24% de apoio.  "Mas agora não aumentará a sua popularidade, dado o fato de ele ser visto como uma vítima?", uma pessoa perspicaz me perguntou. Não é fácil responder a estas dúvidas, especialmente quando são feitos em um elevador e há apenas 19 andares entre o saguão e meu apartamento.

Explico que acho que a esquerda vai ter um candidato esta semana: Fernando Haddad, um ex-ministro de educação de Lula e ex-prefeito de São Paulo. Opino que é possível que os dois chegam ao segundo turno, se Lula conseguir transferir a sua popularidade ao indicado. Clarifico que Haddad representa uma ala moderada do Partido dos Trabalhadores e tem a imagem de uma pessoa honesta.

Porém, explicar Bolsonaro é muito mais complicado.

Há muitos anos acompanho a trajetória deste ex-militar. Conheço bem o seu discurso de ódio e a linguagem violenta que utiliza contra mulheres, afrodescendentes e pessoas LGBT. Quando eu relato às minhas colegas, os meus estudantes e aos outros nos Estados Unidos que durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff Bolsonaro dedicou seu voto a um torturador e elogiou a tomada ilegal de poder dos militares em 1964, eles não conseguem acreditar que uma figura assim poder ser presidente do Brasil. Parece uma caricatura. E é, mas uma caricatura perigosa.

Explico que Bolsonaro não é um democrata. Ele não acredita em padrões internacionais de direitos humanos. Ele pediu o assassinato de seus oponentes políticos. Não defende o estado de direito. E, no entanto, ele é candidato à presidência, que, por enquanto, com a ausência da candidatura de Haddad, lidera nas pesquisas, e nos últimos dias ganhou dois por cento de simpatia.

Quando as pessoas me perguntam por que uma pessoa que parece ser fascista pode ser o próximo presidente do Brasil, elas inevitavelmente fazem a comparação com Trump? Querem saber se Bolsonaro representa a frustração e raiva de certos setores da classe média contra o sistema, os políticos e a corrupção. As pessoas que sabem um pouco mais sobre o Brasil teorizam que a sua linguagem é uma reação racista aos avanços moderados e cautelosos do status da população negra na última década. Sugiram que Bolsonaro, como Trump, talvez seja um pouco louco. 

Podemos legitimamente comparar essas duas figuras? Isto será o tema da minha próxima carta.

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