Cartas do Mundo

Carta de Paris: A Bolsa ou a vida?

É preciso levar os ricos a contribuir mais através de impostos, segundo Thomas Piketty. Por filantropia e responsabilidade social, para alguns intelectuais franceses

17/04/2020 11:32

 

 
Entre a defesa de mais justiça fiscal para que os ricos contribuam à altura de seus rendimentos faraônicos, feita pelo economista mundialmente respeitado Thomas Piketty, e a esperança que os milionários façam doações importantes para enfrentar a situação de crise econômica e social, vai uma distância considerável.

A primeira posição foi expressa numa coluna que Piketty tem no jornal « Le Monde » cujo título era « Evitar o pior ». Nela, ele escreve: « Para evitar a hecatombe, temos necessidade de um Estado social e não de um Estado prisional ».

Ele continua: « Este novo Estado social exigirá rapidamente uma política fiscal justa e um registro financeiro internacional, a fim de levar os mais ricos e as grandes empresas a contribuir tanto quanto for necessário. O regime atual de livre circulação do capital, em vigor a partir dos anos 1980-1990, sob influência dos países ricos (e singularmente da Europa), favorece, de fato a evasão dos bilionários e das multinacionais do mundo inteiro. Ele impede as administrações fiscais frágeis dos países pobres de desenvolver um imposto justo e legítimo, o que mina gravemente a construção do Estado. »

Piketty relembra uma coisa que pouca gente sabe: Macron e Trump fizeram leis para suprimir alguns impostos dos ricos, logo no início de seus mandatos. « Macron e Trump estão prontos para anular os presentes fiscais feitos aos mais ricos? », pergunta.

O economista espera que essa crise possa levar a « refletir a uma dotação sanitária e educativa mínima para todos os habitantes do planeta, financiada por um direitos universal de todos os países sobre uma parte das receitas fiscais pagas pelos atores econômicos mais prósperos: grandes empresas, altos salários e patrimônio. Não se deve esquecer que essa prosperidade se apoia num sistema econômico mundial (e acessoriamente na exploração desenfreada dos recursos naturais e humanos do planeta há séculos). Ela exige, pois, uma regulação mundial para assegurar a sustentabilidade social e ecológica, com a instauração de um mapa carbono que permita proibir as mais altas emissões. »

Piketty conclui: « Uma coisa é certa: as grandes transformações político-ideológicas estão apenas começando ».

Mais filosofia

« Os filósofos nunca aceitaram que o dinheiro seja a única medida do bem e os economistas dedicaram pouco tempo a lê-los ou a ouvi-los ». A frase é de Angus Deaton, Prêmio Nobel de Economia de 2015, em artigo publcado no Le Monde no final do ano passado, no qual criticava a fé cega dos economistas no livre mercado que, segundo eles, « produziria liberdade e igualdade ».

O mercado produzindo igualdade? Seriam os economistas liberais cegos a esse ponto? Ou seriam simplesmente cínicos?

Em artigo mais recente intitulado « A Bolsa ou a vida », (Bolsa em maiúscula, sinônimo da finança que comanda o planeta) seis intelectuais franceses de peso diziam, no jornal Libération de 30 de março: « A solidariedade é o melhor antídoto contra o desmoronamento em curso ». Do lado oposto, a cupidez é o « vírus do cinismo que teimava em tornar-se universal », antes do advento do Covid19.

O texto cita como exemplo quem coloca parte de sua fortuna a serviço de causas filantrópicas, como Bill Gates. O orçamento da fundação Melinda e Bill Gates, de ajuda ao continente africano, é mais que o dobro do orçamento da Organização Mundial de Saúde (5 bilhões de dólares contra 2 bilhões de dólares).

Donald Trump tratou de tornar essa diferença mais flagrante com o anúncio de que seu país vai parar de contribuir para o financiamento da OMS, num momento dramático de catástrofe sanitária mundializada.

O bilionário-presidente encontrou seu bode expiatório para dirigir contra ele a fúria de seus seguidores que veem, impotentes, o vírus semear a morte pelos Estados Unidos.

Mas, infelizmente, serão os países mais pobres que contarão o maior número de vítimas da pandemia, que vai produzir um cataclisma social e econômico sem precedentes.

« É um vírus de classe », disse em entrevista recente a socióloga francesa Monique Pinçon-Charlot, que dedicou sua carreira acadêmica ao estudo das desigualdades e da grande burguesia francesa. Ela lembrava que os que podem fazer quarentena em casas ou apartamentos confortáveis estão mais protegidos que os que têm que continuar suas atividades, consideradas essenciais, ou os que perderam seus empregos e fazem a quarentena em pequenos espaços que abrigam diversos membros de uma família.

Nem diante da ameaça do vírus somos iguais.

Os influentes intelectuais que assinam o texto « A Bolsa ou a vida » são: William Bourdon, Mireille Delmas-Marty, Cynthia Fleury, Edgar Morin, Gaël Giraud e Sabah Abouessalam Morin. William Bourdon é um advogado militante dos direitos humanos, Gaël Giraud é um economista brilhante, além de jesuíta, e Edgar Morin, um sociólogo mundialmente conhecido. Sabah Abouessalam Morin é sociólogo, Cynthia Fleury é filósofa e psicanalista e Mireille Delmas-Marty é jurista.

Segundo os signatários, as desigualdades no mundo não param de aumentar. O texto informa que em Davos, este ano, a ONG Oxfam divulgou um estudo mostrando que a concentração de renda promovida pelo « capitalismo do rentismo » aumenta cada vez mais: 42 bilionários detêm a mesma riqueza que 3,7 bilhões de pessoas. E 82% das riquezas criadas no mundo beneficiaram 1% das pessoas mais ricas, enquanto que os 50% mais pobres não viram sua situação melhorar.

Na França – país onde o capitalismo construiu depois da guerra um Estado de bem-estar social que de certa forma atenua a crise social que vivemos – os mais ricos detém 30% do PIB e a riqueza acumulada pelas 500 maiores fortunas « foi multiplicada por três em dez anos, atingindo um record de 650 bilhões de euros ».

Os seis intelectuais apelam por um engajamento das grandes fortunas no interesse comum, « quebrando a lógica da acumulação pura e simples ». E lembram que há um ano, quando a catedral Notre-Dame foi parcialmente destruída por um incêndio, os francesas ricos fizeram doações estratosféricas para a reconstruçäo da igreja.

Sonhemos que os bilionários franceses voltem a abrir suas carteiras para ajudar o Estado a reequipar a rede hospitalar atingida duramente pelos cortes orçamentários impostos pela lógica do neoliberalismo.

Mas pelo visto, a lógica neoliberal quer se recolocar em marcha logo que a pandemia estiver vencida.

O Medef (o sindicato patronal da indústria francesa) e alguns políticos macronistas já estão preparando os franceses para o futuro próximo. Segundo eles, todos terão de trabalhar mais para garantir a retomada do crescimento.

Pelo visto, eles querem recriar o mesmo capitalismo predador com sua lógica de privilegiados e de excluídos.

Nenhuma lição foi tirada de todas essas mortes, de todos os desempregados, de todo o sofrimento psíquico que representa o confinamento para grande número de franceses?

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meirele, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional



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