Cartas do Mundo

Carta de Paris: A França em revolta contra o ''presidente dos ricos''

Emmanuel Macron precisa de muita habilidade para sair da crise

04/12/2018 11:29

(Benoit Tessier/Reuters)

Créditos da foto: (Benoit Tessier/Reuters)

 

“Os ultra-ricos, os grandes ganhadores da fiscalidade Macron”, era o título de uma grande reportagem acompanhada de gráficos, publicada no “Le Monde” em outubro.

Enquanto os muito ricos ganharão mais alguns milhares de euros por ano graças ao “presente fiscal”, o poder de compra dos mais modestos recuará sob os efeitos do orçamento de 2018 e 2019, informava a reportagem, com detalhes de cada perda ou ganho em diversas categorias de rendimentos ou prestações sociais, que na França são numerosas.

A alcunha de “presidente dos ricos” colou de tal forma na pele de Emmanuel Macron que ele precisará tomar muitas medidas em favor dos mais pobres para reverter essa fama.

A França tem tradição de revoltas. Os franceses derrubaram a Bastilha e fizeram a Comuna de Paris. Churchil dizia que "é impossível governar um país que tem 350 tipos de queijo".

François Hollande, ex-mentor do atual presidente – de quem este puxou o tapete ao se candidatar à presidência – ao ser indagado há alguns meses numa entrevista se Macron era o presidente dos ricos retrucou: “Não. Ele é o presidente dos muito ricos”.

A vingança vem sempre destilada em pequenas frases assassinas. Uma das boas ocasiões para isso foram as entrevistas dadas por ocasião do lançamento de seu livro “Les leçons du pouvoir”, com a presença do ex-presidente, em diversas cidades do país.

A França que diz não a Macron

A maioria das pessoas entrevistadas pela TV e jornais franceses dizem que vestiram o “colete amarelo” e foram às ruas para protestar por terem sentido uma deterioração de seu poder aquisitivo. A gota d’água foi o aumento dos combustíveis com a “taxe carbone” embutida, para financiar a transição ecológica, segundo o governo.

Entre as reivindicações dos “coletes amarelos” aparece uma que é bastante emblemática: a restauração do ISF (Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna), imposto que era pago pelos ricos.

Enquanto estes viram o governo Macron suprimir o ISF e diminuir a alíquota dos ganhos de capital (com a “flat tax”), a classe média, os aposentados e os pobres foram chamados a apertar um pouco mais os cintos de diversas formas que pareceram mesquinhas aos prejudicados.

“Não podemos demonstrar hoje que estas medidas, que se concentraram sobre os ganhos dos mais ricos, terão efeitos reais sobre o investimento e o emprego, como pensa o governo”, diz o economista Antoine Bozio, diretor do Institut des Politiques Publiques (IPP). “O que todo mundo tem em mente agora é a elevação dos rendimentos dos mais ricos”.

Os “coletes amarelos” ; que no início foram vistos como um movimento para protestar contra o novo imposto embutido na gasolina e no óleo diesel era algo muito mais profundo. Os franceses mais pobres que trabalham e não conseguem viver dignamente resolveram dizer: “Basta” !

No terceiro sábado seguido de manifestações, dia 1° de dezembro, Paris ficou em chamas. Mais de 50 carros foram incendiados. Até o Arco do Triunfo, símbolo máximo da République, que abriga o túmulo do soldado desconhecido, foi atingido: estátuas foram danificadas, frases contra Macron foram pichadas.

O movimento dos “coletes amarelos” tem ainda a aprovação de 72% dos franceses, segundo pesquisa feita depois do dia 1° de dezembro. Essa aprovação é a mesma desde o dia 17 de novembro quando o movimento foi lançado e milhares de pessoas saíram às ruas de Paris e de toda a França. Os “gilets jaunes” não perderam o apoio popular, apesar das cenas de guerrilha urbana como não se viam há anos em Paris.

Como se explica essa aprovação contínua?

A maior parte da população sabe que há os “coletes amarelos” pacíficos, que manifestam-se com cartazes e palavras de ordem, com frases escritas nos próprios coletes. São a enorme maioria.

E há os outros, os quebradores, “les casseurs”. Estes são militantes de extrema-direita ou mesmo anarquistas, de extrema-esquerda, que se infiltram para quebrar e destruir.

O objetivo deles é atacar símbolos do Estado e dos ricos, como lojas de luxo e agências bancárias.

E a presença dos “casseurs” é recorrente em quase toda grande manifestação francesa.

A novidade é o ataque a símbolos nacionais, como a estátua da liberdade guiando o povo, no Arco do Triunfo, que perdeu um pedaço do rosto.

Conteúdo Relacionado