Cartas do Mundo

Carta de Paris: A Suécia como modelo

O Brasil, como a França, deveria se espelhar no país escandinavo

18/07/2019 11:32

Mona Sahlin, em 2 de agosto de 2011 em Estocolmo (Jonathan Nackstrand/AFP)

Créditos da foto: Mona Sahlin, em 2 de agosto de 2011 em Estocolmo (Jonathan Nackstrand/AFP)

 

Para os franceses, a Suécia, uma monarquia constitucional, é uma espécie de exemplaridade absoluta na transparência e na retidão da vida política.

Eles sabem e repetem com frequência que no país nórdico não se brinca com a moral e com o dinheiro do contribuinte quando se é ministro, deputado ou prefeito.

A cada novo escândalo da vida política francesa, os jornais relembram casos acontecidos na Suécia para dizer: «Vejam o que é um modelo de democracia».

O caso mais eloquente acontecido na Suécia foi o chamado «affaire Toblerone». Em 1995, Mona Sahlin, número dois do governo social-democrata, foi forçada a pedir demissão por ter pago pequenas compras, entre as quais um chocolate em barra, com o cartão de crédito funcional. Ela pediu demissão, mesmo tendo reembolsado as compras.

Na Suécia, política é coisa muito séria, lembram os jornais franceses ao comentar um novo escândalo que levou à demissão nesta terça-feira, 16 de julho, do ministro francês da Transição Ecológica, François de Rugy, acusado de excessos de luxo em jantares dados no palácio em que morava quando era o presidente da Assemblée Nationale e de obras custosas no apartamento de função ao se tornar ministro da Transição Ecológica há um ano. Além disso, não pagou seus impostos durante alguns anos e usou o dinheiro da verba de deputado para pagar sua anuidade ao partido ecologista. O responsável pelas denúncias, o jornal onlineMediapart – fundado pelo jornalista Edwy Plenel, ex-diretor do Le Monde – fez as revelaçõs com provas fotográficas e documentos, em diversas reportagens publicadas ao longo da semana.

De Rugy se defendeu durante uma semana acusando a imprensa de fazer um linchamento político. No início, o presidente Macron e o primeiro-ministro Édouard Philippe resolveram manter o apoio ao ministro. Cada nova reportagem tornava a situação do governo mais delicada diante do cidadão francês que tem um grau de politização a anos-luz dos cidadãos brasileiros.

Eleito com a bandeira de fazer «política com exemplaridade», de ter deixado o velho mundo da política para trás, Emmanuel Macron não tinha mais como defender seu ministro.

De Rugy pediu demissão na terça-feira, 16 de julho, criticado por políticos de diferentes partidos. «A liberdade de imprensa e de informar é o fundamento da democracia», declarou nesta quarta-feira, a senadora Esther Benbassa, comentando o affaire de Rugy.

«É preciso festejar a existência de uma democracia como a nossa na qual existe um jornalismo capaz de efetuar este indispensável trabalho de investigação. Nosso jornal, Libération,contribui e contribuirá, tendo como bússolas a honestidade e a preocupação do contraditório, garantidas contra as derivas e erros que a imprensa, como outros, pode cometer. A prova é que existem leis para enquadrar este trabalho. Tanto é assim que François de Rugy anunciou que ele faria um processo penal por difamação».

E o Brasil?

Bem, no Brasil, existe o que meu amigo Otto Lara Resende dizia de indivíduos excessivamente tolerantes e que compartilhavam almoços e reuniões sociais com pessoas pouco frequentáveis: «Ele tem um hímen complacente».

Pois grande parte do povo brasileiro parece ter hímen complacente ao aceitar como «normal» tudo o que o juiz Moro pensa que é normal. Sobretudo os togados. Todos têm hímen complacente. O que as regras de deontologia da magistratura em qualquer país sério apontam como inaceitável no país passa como «normal»: um juiz instruindo os procuradores em seu trabalho.

The Intercept denuncia há mais de um mês com audios e reprodução de diálogos situações chocantes, indecentes, e nada acontece. Nem o juiz se demite, nem é demitido, nem as sentenças por ele dadas são anuladas.

O presidente primata só viu uma necessidade imperiosa: condecorar o juiz a quem ele deve seu mandato graças à sentença política que encarcerou o candidato que ganharia a eleição. É um enredo de filme de quinta categora, pior que qualquer chanchada de outros tempos. Mas não é um filme de quinta. É o Brasil de 2019.

No país nórdico, os jornalistas são o quarto poder de fato.

A tarefa deles é facilitada pelo «princípio de transparência», instituído em 1766. Por este princípio, todos os habitantes do reino escandinavo podem ter acesso a qualquer documento ou informação, bastando fazer o pedido ao órgão público: o salário de um dirigente, a declaração de imposto de renda de um ministro, suas despesas durante uma viagem ao estrangeiro.

Não há praticamente nada que possa ficar oculto.

E sendo revelada uma despesa ilegal ou uma ação que fere a lei, a pessoa é responsabilizada e penalizada pela lei em vigor.

Quando a Suécia vai se tornar o modelo do Brasil?

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