Cartas do Mundo

Carta de Paris: A face obscura do Vaticano

Católicos franceses sugerem autópsia para esclarecer morte suspeita, em 1978, de João Paulo I

02/12/2020 14:35

João Paulo I (Wikimedia Commons)

Créditos da foto: João Paulo I (Wikimedia Commons)

 
A Igreja Católica tem duas faces.

A luminosa, solar, do cristianismo da libertação.

Dos dominicanos brasileiros, que se engajaram ao lado de Marighella contra a ditadura e o terrorismo de Estado.

Do padre colombiano Camilo Torres, que morreu lutando pela libertação dos oprimidos de seu país.

Do bispo Oscar Romero, de El Salvador, morto por defender os direitos humanos e os camponeses de sua diocese.

De Dom Helder Camara, quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz e boicotado pela ditadura, através das chantagens mais abjetas junto à Comissão Nobel.

De dom Paulo Evaristo Arns, que organizou o formidável grupo de juristas que trabalhavam clandestinamente para coletar dados sobre a tortura e organizar o estupendo livro Brasil Nunca Mais, um marco histórico num país que tem dificuldade de passar seu passado a limpo.

Do dominicano francês Henri Burin des Roziers, que dedicou seus anos de vida mais produtivos a defender – como advogado formado na Sorbonne e em Cambridge – os sem-terra no Brasil. Ele se expunha, assim, à violência dos latifundiários. Frei Henri passou os últimos 10 anos no Brasil protegido pela Polícia Federal pois estava jurado de morte.

Eles estão entre muitos dos que honraram a mensagem do Evangelho.

Mas a Igreja também tem um lado obscuro. Um capítulo desse lado sombrio é a morte do papa João Paulo I.

Um grupo de católicos franceses assinou em setembro deste ano, um artigo publicado na revista “Golias Hebdo”, que pede para que sejam levantadas as dúvidas, nunca esclarecidas, sobre a morte do papa João Paulo I, falecido em 28 de setembro de 1978, 33 dias depois de sua eleição.

Ora, a Igreja tem no Vaticano um poder temporal, um Estado governado pelo papa e por cardeais que formam uma cúria onde nem tudo se passa na maior transparência.

Foi o caso da morte de João Paulo I, o cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, o último papa italiano.

A causa oficial da morte foi o coração, lembra o artigo assinado, entre outros, pelo editor Robert Ageneau, pelo dominicano Alain Durand, pelo padre Robert Dumont, pelo antropólogo Jean-Marie Kohler e por Christian Terras, redator-chefe da revista Golias-Hebdo (bit.ly/2Jk2BWp).

Mas a hipótese de uma morte por envenenamento foi levantada na ocasião. O jornal francês « Libération » foi um dos que difundiram essa tese.

« Desde sua eleição, este ex-arcebispo de Veneza, como um de seus predecessores, Angelo Giuseppe Roncaldi, que reinou como João XXIII, tinha dado sinais de mudanças. Ele mostrara sua vontade de reativar a reforma da Igreja, depois do pontificado de Paulo VI. Este tinha deixado a cúria romana retomar o poder e freara a dinâmica de abertura do Concílio Vaticano II. O novo papa João Paulo I pedia uma enquete sobre o Banco do Vaticano. Ele falava de simplicidade e de humildade como virtudes de base para a vida de um papa e desejava humanizar a função papal. »

Alguns nomes foram citados como pessoalmente informados do eventual assassinato. Eles eram responsáveis pela administração vaticana, informa o texto.

Mesmo se várias obras foram escritas nos anos 1980 levantando suspeitas sobre a morte de João Paulo I, foram desqualificadas como conspiracionistas, ainda que detalhes da morte despertassem dúvidas.

Aos que pediam uma autópsia para esclarecer as circunstâncias da morte, foi dito que o embalsamamento, feito 12 horas após a morte, tinham tornado a autópsia impossível.

O texto lembra que hoje, quatro décadas depois da morte, católicos do mundo todo, do Brasil, da França, da Itália e dos Estados Unidos, praticantes ou não, « conservam na memória esse papa que trouxe esperança e teria acompanhado uma modernização da Igreja Católica Romana. A hipótese de uma morte não natural continua plausível e eles têm dúvidas sobre as causas reais da morte do pontífice. Com as informações conhecidas hoje sobre os impedimentos e, muitas vezes, as torpezas da cúria romana, parece legítimo recolocar estas dúvidas em primeiro plano. Por outro lado, os arquivos do Vaticano sobre este período não estão prestes a ser abertos”.

Os signatários lembram que personalidades católicas (historiadores, jornalistas e teólogos) pensam que, para tirar todas as suspeitas e esclarecer o assunto, o Vaticano deveria autorizar uma autópsia, normalmente feita sempre que existe dúvida em caso de morte súbita ou presunção de crime.

“Depois de sua eleição, o atual papa Francisco denunciou o clericalismo e combateu as agressões sexuais. Ele começou uma reforma da cúria romana, depois de a ter lançado vigorosamente dizendo que ela corria um risco iminente de se esclerosar. Ele experimenta no seu cotidiano essa forte resistência à mudança. »

E o texto conclui :

« Por que não poderia ele dar o sinal verde a uma autópsia ? Seria um sinal de modernidade, de transparência e de consideração de parte da opinião católica. A clareza sobre a morte do último papa italiano, bispo de Roma, seria então efetiva. Meglio tardi che mai. »

A expressão em italiano, « melhor tarde do que nunca » dá um sabor romano ao final do texto dos católicos franceses.

O que impediria ainda essa autópsia ?

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.



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